Da Redação

O coletivo Derrubando Muros encaminhou uma representação ao Ministério Público Federal (MPF) solicitando a investigação do senador Flávio Bolsonaro (PL) por suspeitas relacionadas à obtenção do direito de ocupação de um imóvel de luxo em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro. A propriedade era anteriormente ocupada pelo jogador Richarlison, atacante do Tottenham, da Inglaterra, e seus parceiros.

O grupo aponta possíveis indícios de advocacia administrativa, prática que consiste no uso da função pública para favorecer interesses particulares. A representação questiona a forma como ocorreu a regularização da ocupação do terreno, que pertence à União, e pede que sejam apuradas as circunstâncias do procedimento.

Segundo José Cesar Martins, coordenador do coletivo, o caso ultrapassa uma disputa entre particulares, pois envolve patrimônio público. A iniciativa, de acordo com ele, não tem como objetivo representar Richarlison ou qualquer outro envolvido, tampouco garantir que o imóvel seja destinado a uma pessoa específica. A proposta é esclarecer se houve irregularidades na atuação dos órgãos públicos.

Disputa começou após investimento de cerca de R$ 10 milhões

Richarlison afirma ter investido aproximadamente R$ 10 milhões, junto a outros parceiros, na aquisição dos direitos de ocupação do imóvel. A propriedade está localizada em uma área valorizada de Angra dos Reis e possui características de alto padrão, incluindo uma cachoeira particular.

De acordo com o relato do jogador, após a negociação, surgiram interessados em comprar o local, entre eles Flávio Bolsonaro. O atleta afirma que recusou a proposta e, posteriormente, perdeu o direito de ocupar o imóvel em meio a uma disputa judicial.

Em publicação nas redes sociais no sábado (17), Richarlison acusou os envolvidos de terem obtido a posse por meio de manobras na Justiça. O atacante também questionou a rapidez com que o procedimento foi concluído, alegando que a regularização de sua própria situação poderia levar meses ou anos.

Representação questiona atuação na Secretaria do Patrimônio da União

Um dos pontos centrais da denúncia envolve a Secretaria do Patrimônio da União (SPU), responsável pela administração dos imóveis pertencentes ao governo federal.

Segundo o coletivo, a ocupação exercida por Richarlison aguardava uma decisão administrativa do órgão quando o jogador teria sido procurado pelo advogado Willer Tomaz, apontado como amigo de Flávio Bolsonaro. O atleta afirma ter recusado a negociação.

Na sequência, conforme o relato apresentado pelo jogador e reproduzido na representação, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz teriam procurado diretamente a SPU para solicitar a regularização do imóvel em favor do senador.

O grupo questiona a velocidade do procedimento e busca esclarecer se houve favorecimento no processo administrativo. As alegações, entretanto, dependem de apuração pelas autoridades competentes e não representam, por si só, comprovação de irregularidade.

Processo judicial foi arquivado

A disputa pelo imóvel se arrasta desde 2020. Em 2022, a empresa M Locadora entrou com uma ação de reintegração de posse, representada por um advogado associado a Willer Tomaz, dando início a uma nova etapa do conflito.

A empresa sustentava possuir direitos anteriores sobre a área, enquanto o grupo ligado a Richarlison reivindicava a legitimidade de sua ocupação.

Conforme registros da Justiça do Rio de Janeiro, uma sentença extinguiu o processo em outubro de 2025, sem julgamento do mérito, após a renúncia de uma das partes. Em janeiro de 2026, depois do trânsito em julgado, o caso foi arquivado.

O encerramento do processo ocorreu sem uma decisão de mérito naquela ação, o que precisa ser considerado ao avaliar as alegações apresentadas pelos envolvidos.

Flávio Bolsonaro nega irregularidades

Em manifestações anteriores, Flávio Bolsonaro negou ter cometido qualquer irregularidade relacionada ao imóvel e afirmou que sua relação com Willer Tomaz é de amizade.

O empresário, por sua vez, sustenta que adquiriu legalmente os direitos sobre o terreno. Ele também declarou ter desembolsado R$ 5 milhões para regularizar pendências fiscais relacionadas à propriedade e classificou os antigos ocupantes como invasores.

O caso voltou a ganhar repercussão após as declarações públicas de Richarlison e a apresentação da representação ao Ministério Público Federal.

A denúncia busca esclarecer se houve utilização indevida da estrutura administrativa federal para beneficiar interesses particulares em uma área pertencente à União. Até o momento, o pedido de investigação não equivale a uma conclusão sobre a existência de crime.