Da Redação

Proposta prevê passar a gestão das universidades federais para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Representantes das instituições temem impactos no financiamento e na integração entre os diferentes níveis de ensino.

O plano de governo do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) prevê transferir a responsabilidade pelas universidades federais do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A proposta tem gerado preocupação entre representantes das instituições de ensino superior e especialistas, principalmente em relação à garantia de recursos públicos e à articulação entre a educação básica e o ensino superior.

A justificativa apresentada pelo candidato é aproximar a pesquisa acadêmica do setor produtivo, incentivando a transformação do conhecimento científico em produtos, empregos e renda. O documento destaca que as universidades federais são responsáveis por mais de 60% da produção científica brasileira e defende o fortalecimento da conexão entre pesquisa, indústria e desenvolvimento econômico.

A ideia não é inédita. Durante o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, uma proposta semelhante chegou a ser discutida, mas não foi implementada. A possibilidade de transferir o ensino superior para a área de ciência e tecnologia também apareceu em debates de governos anteriores.

Diferença orçamentária preocupa universidades

Uma das principais preocupações levantadas por representantes das universidades é a diferença entre os orçamentos do MEC e do MCTI. A pasta da Educação conta com recursos significativamente maiores e possui uma proteção constitucional que estabelece um percentual mínimo de investimento federal na área. Já o orçamento destinado à ciência e tecnologia não dispõe da mesma garantia.

Em 2025, universidades e institutos federais receberam aproximadamente R$ 10 bilhões para despesas de manutenção e custeio. No mesmo período, o orçamento total do MCTI ficou em torno de R$ 15 bilhões, enquanto o MEC contou com cerca de R$ 200 bilhões.

Nesse cenário, representantes do setor educacional temem que a transferência administrativa possa abrir espaço para dificuldades de financiamento, caso não haja garantias de manutenção dos recursos destinados às instituições federais.

A preocupação envolve despesas essenciais para o funcionamento das universidades, como manutenção da infraestrutura, pagamento de contratos e execução de atividades acadêmicas e científicas.

Reitores apontam riscos para a integração do ensino

Além das questões financeiras, a proposta levanta dúvidas sobre a continuidade das políticas educacionais que conectam a educação básica ao ensino superior.

Júlio Heck, reitor do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e presidente do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), avalia que a mudança pode gerar insegurança na gestão administrativa, pedagógica e orçamentária das instituições.

O dirigente defende que a educação seja compreendida como um sistema integrado, no qual as diferentes etapas de ensino compartilham diretrizes e objetivos. Nesse contexto, a transferência das universidades para outra pasta poderia dificultar a coordenação de políticas nacionais, incluindo iniciativas voltadas à formação de professores.

A situação dos institutos federais também é motivo de questionamento. Essas instituições oferecem tanto cursos técnicos e outras modalidades de educação básica quanto graduações e programas de ensino superior.

A rede reúne aproximadamente 1,8 milhão de estudantes, dos quais quase 60% estão matriculados na educação básica e cerca de 40% no ensino superior. O plano de Flávio Bolsonaro, entretanto, não esclarece como ficaria a administração dos institutos caso a proposta fosse implementada.

Andifes teme consequências para o financiamento

Ana Beatriz de Oliveira, reitora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), também aponta riscos relacionados à mudança.

A dirigente destaca que a vinculação constitucional de recursos para a educação representa uma garantia importante para o financiamento do setor. A transferência para o MCTI, sem regras claras de preservação orçamentária, poderia aumentar a incerteza sobre a manutenção das atividades universitárias.

Para representantes das instituições, a principal questão não é apenas qual ministério ficará responsável pela gestão, mas quais garantias serão estabelecidas para assegurar recursos suficientes ao funcionamento das universidades.

Plano não detalha como a mudança seria feita

O documento apresentado por Flávio Bolsonaro não especifica como ocorreria a transferência da gestão das universidades federais. Também não esclarece se os valores atualmente destinados às instituições seriam integralmente preservados e transferidos para o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Outro ponto em aberto é o futuro dos institutos federais, que desenvolvem atividades simultâneas de educação básica, formação técnica e ensino superior.

Procurada para esclarecer os detalhes da proposta, uma pessoa ligada à campanha não apresentou informações adicionais sobre a forma de implementação da medida.

A falta de definições mantém as dúvidas sobre os efeitos práticos da iniciativa. Para especialistas e representantes acadêmicos, uma eventual reorganização administrativa precisaria estabelecer garantias de financiamento e mecanismos de integração entre as diferentes etapas de ensino.

Proposta busca aproximar pesquisa e setor produtivo

Os defensores da transferência argumentam que a mudança permitiria ao MEC concentrar esforços na educação básica, enquanto o MCTI daria maior atenção à pesquisa científica, à inovação e à aplicação do conhecimento produzido nas universidades.

A discussão, porém, envolve mais do que a divisão de atribuições entre ministérios. A eventual mudança exigiria definir como seriam mantidos o financiamento das instituições, a coordenação das políticas educacionais e o funcionamento de estruturas que atendem estudantes de diferentes níveis de ensino.

Até que esses pontos sejam esclarecidos, a proposta permanece cercada de incertezas sobre seus impactos na educação pública federal e na produção científica brasileira.