Da Redação
Carlos Baptista Júnior relata pressões sobre as Forças Armadas após derrota de Jair Bolsonaro e diz que resistência de comandantes foi decisiva para impedir ruptura institucional
O ex-comandante da Aeronáutica Carlos Baptista Júnior afirmou que o Brasil esteve próximo de uma ruptura institucional após a derrota do então presidente Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022. Segundo o brigadeiro, houve forte pressão sobre integrantes das Forças Armadas no período posterior ao segundo turno e preocupação de que setores militares pudessem aderir a uma tentativa de impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Os bastidores daquele período são abordados por Baptista Júnior no livro Eu disse não – Uma trincheira antigolpista, com lançamento previsto para setembro. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o ex-comandante relatou episódios envolvendo Bolsonaro e os então chefes das três Forças Armadas.
De acordo com Baptista Júnior, uma das principais preocupações naquele momento era a possibilidade de surgir uma iniciativa dentro do Exército que contrariasse a posição adotada pelo então comandante da Força, general Marco Antônio Freire Gomes. O brigadeiro afirmou que as pressões eram intensas e havia receio de uma divisão interna entre militares.
Após a derrota nas urnas, Bolsonaro teria apresentado aos comandantes militares uma proposta que poderia impedir a posse de Lula. Conforme relatos apresentados anteriormente à Polícia Federal, o conteúdo discutido seria semelhante ao documento que ficou conhecido como “minuta do golpe”, encontrado na residência do ex-ministro da Justiça Anderson Torres.
Baptista Júnior também voltou a mencionar a postura dos comandantes das outras Forças naquele período. Segundo seu relato, o então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, teria colocado tropas à disposição de Bolsonaro.
A posição do general Freire Gomes teria sido diferente. O então comandante do Exército não teria concordado com uma iniciativa de ruptura institucional. Conforme Baptista Júnior, Freire Gomes chegou a ameaçar prender Bolsonaro caso o então presidente tentasse colocar em prática uma ação golpista.
Acampamentos em frente aos quartéis
O ex-comandante da Aeronáutica também falou sobre os acampamentos formados por apoiadores de Bolsonaro em frente a instalações militares após o segundo turno das eleições de 2022.
Baptista Júnior explicou que a decisão de não realizar uma retirada forçada dos manifestantes ocorreu diante do risco de confrontos e de possíveis mortes. Segundo ele, informações disponíveis aos militares indicavam que uma operação de dispersão poderia resultar em derramamento de sangue.
O brigadeiro também comentou a nota divulgada pelas Forças Armadas em novembro de 2022, quando manifestações contra o resultado das eleições ocorriam em diferentes pontos do país. Na avaliação dele, os comandantes consideravam adequado o conteúdo do documento, que defendia manifestações pacíficas e, ao mesmo tempo, ressaltava a necessidade de respeito à legalidade.
Voto em Bolsonaro
Apesar de ter se posicionado contra qualquer tentativa de ruptura institucional, Baptista Júnior revelou que votou em Jair Bolsonaro na eleição presidencial de 2022.
Segundo o ex-comandante, naquele período ele considerava a anulação das condenações de Lula uma quebra do Estado Democrático de Direito. Baptista Júnior afirmou ainda que não imaginava que Bolsonaro pudesse tentar subverter a ordem democrática após uma eventual derrota nas urnas.
Durante o governo Bolsonaro, o brigadeiro foi alvo de críticas por manifestações nas redes sociais e também pela proximidade institucional mantida com o então presidente. Ele sustenta, no entanto, que nunca deu sinais de apoio a uma ruptura democrática e afirma não se arrepender da relação institucional que manteve com Bolsonaro enquanto estava no comando da Aeronáutica.
Condenação e papel das Forças Armadas
Ao comentar a condenação de Bolsonaro pela Justiça, Baptista Júnior evitou avaliar se a pena aplicada ao ex-presidente foi ou não necessária. Para ele, essa análise cabe ao Poder Judiciário e ao meio político.
O ex-comandante, porém, considera possível discutir uma eventual revisão das penas aplicadas a alguns dos condenados no processo relacionado à trama golpista.
Baptista Júnior também defendeu que as Forças Armadas não sejam tratadas como um bloco político. Na avaliação do brigadeiro, uma das maneiras de impedir que episódios semelhantes ocorram novamente é ampliar o conhecimento sobre a história brasileira e reforçar entre os militares a compreensão sobre os limites de sua atuação institucional.
Para o ex-comandante, não existem atalhos legítimos para romper a ordem democrática. Ele também afirmou que integrantes de sua geração, formada no contexto político e militar da década de 1960, não devem assumir papel de protagonismo político no país.
Na avaliação de Baptista Júnior, a atuação das Forças Armadas deve permanecer submetida à Constituição, à legalidade e às instituições democráticas.






