Da Redação

Um modelo estatístico contratado pelo jornal Estadão conseguiu antecipar a tendência do resultado da eleição presidencial de 2026 quando apenas 2,42% das urnas haviam sido apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A ferramenta projetou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) antes de a contagem oficial alcançar uma parcela significativa dos votos.

O sistema foi desenvolvido pelo pesquisador Rodrigo Mahlmeister, doutorando em Ciência Política pela Universidade Duke, nos Estados Unidos, mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e graduado em Economia pela mesma instituição.

A ferramenta utiliza resultados de eleições anteriores, características dos municípios e dados parciais da apuração para estimar como devem votar as localidades cujos resultados ainda não foram contabilizados. Em vez de considerar apenas os votos já registrados, o modelo calcula uma projeção para o conjunto do eleitorado.

A metodologia também permite atualizar as estimativas à medida que o TSE divulga novos resultados. Dessa forma, a projeção pode identificar tendências que ainda não aparecem no placar parcial da apuração oficial.

Como funciona a projeção eleitoral

O modelo combina informações de diferentes eleições para identificar padrões no comportamento do eleitorado brasileiro. Na disputa presidencial de 2026, foram considerados resultados do segundo turno de 2022 e do primeiro turno deste ano.

A comparação permite avaliar como o desempenho dos candidatos varia entre eleições e identificar tendências que se repetem em diferentes regiões do país.

Entre os fatores considerados estão o estado, o tamanho dos municípios e o perfil eleitoral de cada localidade. Essas características são importantes porque o comportamento dos eleitores não é uniforme em todo o território nacional.

Capitais, cidades de médio porte e municípios menores podem apresentar diferenças significativas na distribuição dos votos. Por isso, o modelo não simplesmente reproduz os percentuais observados nas primeiras urnas apuradas para estimar o resultado nacional.

Em vez disso, a ferramenta compara os dados recentes com os padrões históricos e calcula como as variações identificadas podem se refletir nas localidades que ainda aguardam a divulgação dos resultados.

À medida que novas urnas são contabilizadas, as estimativas são recalculadas. O objetivo é reduzir distorções provocadas pela ordem em que os resultados são divulgados e oferecer uma previsão mais próxima do resultado final.

Pesquisador explica a lógica do sistema

Mahlmeister afirma que a repetição de disputas entre o PT e candidatos ligados ao bolsonarismo desde 2018 permite identificar mudanças relativamente sistemáticas no comportamento eleitoral.

Segundo o pesquisador, as diferenças entre as localidades ajudam a estimar como a votação pode variar de uma eleição para outra.

A ferramenta procura, portanto, identificar padrões que vão além da simples comparação dos percentuais nacionais. A análise leva em conta o perfil eleitoral de cada município e utiliza essas informações para projetar mudanças no desempenho dos candidatos em cada estado.

Por que a projeção pode antecipar o resultado?

A principal diferença entre o modelo estatístico e a apuração convencional está no tratamento das urnas que ainda não foram contabilizadas.

O TSE divulga os votos conforme recebe e totaliza os resultados das seções eleitorais. Esse processo não ocorre necessariamente de maneira uniforme em todas as regiões. Por isso, os primeiros números podem favorecer temporariamente um candidato, mesmo que o resultado final seja diferente.

O modelo tenta corrigir essa distorção ao estimar o comportamento das localidades ainda não apuradas. Assim, uma vantagem inicial no placar oficial não é automaticamente interpretada como tendência definitiva.

Na eleição de 2026, essa abordagem permitiu que a ferramenta identificasse antecipadamente a tendência de vitória de Lula, mesmo com apenas 2,42% das urnas contabilizadas.

Projeção não substitui a apuração oficial

Apesar da capacidade de antecipar tendências, o modelo não determina oficialmente o vencedor de uma eleição. Trata-se de uma estimativa estatística que depende da qualidade dos dados, da consistência dos padrões históricos e da representatividade dos primeiros resultados disponíveis.

As projeções podem mudar durante a apuração, especialmente quando há poucas urnas contabilizadas. Por isso, os resultados devem ser interpretados considerando as incertezas do método.

A confirmação do resultado continua sendo responsabilidade da Justiça Eleitoral, com base na totalização oficial dos votos.

O sistema desenvolvido por Mahlmeister demonstra como a estatística pode ajudar a compreender o comportamento eleitoral antes do encerramento da contagem. Ao combinar dados históricos e resultados parciais, a ferramenta oferece uma estimativa mais abrangente do que a simples observação do placar momentâneo, sem substituir a divulgação oficial do TSE.