Da Redação
A Meta, empresa responsável pelo WhatsApp, Instagram e Facebook, anunciou que vai restringir temporariamente a geração de imagens e a recomendação de candidatos políticos por meio de sua inteligência artificial. A decisão foi divulgada na quarta-feira (14), após testes identificarem diferenças nas respostas da ferramenta quando usuários solicitavam materiais relacionados ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O caso ganhou repercussão depois que usuários relataram dificuldades para criar imagens de campanha com o nome de Lula, enquanto pedidos semelhantes envolvendo Flávio Bolsonaro eram atendidos. A situação também foi identificada em testes realizados pela BBC News Brasil e levou a campanha do presidente a acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Testes identificaram respostas diferentes para Lula e Flávio
Durante os testes, a inteligência artificial da Meta recebeu solicitações para criar logotipos com os nomes dos dois candidatos e seus respectivos números eleitorais.
Em uma das tentativas, o comando para produzir uma imagem com o nome de Flávio e o número 22 foi atendido em poucos segundos. Quando a mesma solicitação foi feita com o nome de Lula e o número 13, a ferramenta informou que não havia conseguido gerar a imagem.
O comportamento se repetiu em outro teste, no qual os pedidos incluíam a palavra “vote”. A ferramenta criou um material com o nome de Flávio Bolsonaro, mas recusou o comando equivalente relacionado ao presidente.
A BBC News Brasil realizou 50 testes em diferentes plataformas e contas. Os resultados, porém, não foram uniformes: em algumas situações, os pedidos envolvendo Lula e Flávio foram atendidos; em outras, ambos foram recusados. A variação indica que as respostas dependiam das condições de uso, embora os primeiros testes tenham apontado uma diferença de tratamento.
Campanha de Lula aciona o TSE
A campanha de Lula levou o caso à Justiça Eleitoral, alegando que o comportamento da ferramenta poderia representar seletividade algorítmica em benefício de Flávio Bolsonaro.
Na representação, os advogados do presidente questionaram as diferenças na geração de imagens e também levantaram suspeitas sobre a distribuição de conteúdos políticos nas plataformas da Meta. A campanha pediu que o tribunal apurasse possíveis irregularidades no funcionamento dos sistemas da empresa durante o processo eleitoral.
O episódio se soma a outras reclamações apresentadas pela candidatura petista sobre o alcance de publicações nas redes sociais. A discussão envolve a possibilidade de conteúdos de um candidato receberem tratamento diferente daquele aplicado aos materiais de seus adversários.
As acusações, contudo, ainda precisam ser apuradas. Os testes identificaram respostas distintas em determinadas situações, mas não demonstram, por si só, que houve uma decisão deliberada da empresa para favorecer uma candidatura.
Meta anuncia restrições temporárias
Após a repercussão, a Meta informou que proibiria temporariamente a recomendação de candidatos e a geração de imagens relacionadas a eles, como forma de cumprir as regras eleitorais brasileiras.
A empresa também afirmou que adotaria medidas adicionais para impedir a criação de materiais quando os comandos utilizassem apenas os primeiros nomes dos candidatos e seus números nas urnas.
A restrição se aplica à Meta AI, assistente de inteligência artificial disponível no site da empresa e em aplicativos como WhatsApp, Instagram, Facebook e Messenger. A ferramenta permite responder a perguntas, produzir textos e gerar ou editar imagens.
A Meta não reconheceu publicamente que tenha favorecido intencionalmente Flávio Bolsonaro. A medida anunciada foi apresentada como uma adequação às regras eleitorais diante da controvérsia envolvendo a geração de conteúdos políticos.
TSE não antecipa posição sobre o caso
Procurado pela BBC News Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral informou que não se manifesta sobre casos concretos que possam ser submetidos à análise da Justiça Eleitoral.
A controvérsia amplia o debate sobre o papel das plataformas digitais e das ferramentas de inteligência artificial durante as eleições. Como esses sistemas podem produzir materiais em poucos segundos e alcançar milhões de usuários, eventuais diferenças de tratamento entre candidaturas levantam questionamentos sobre transparência, neutralidade e igualdade de condições na disputa.
A apuração deverá esclarecer se as diferenças identificadas decorreram de falhas técnicas, filtros de segurança ou outros fatores relacionados ao funcionamento da ferramenta. Até o momento, a Meta anunciou restrições temporárias, enquanto as acusações de favorecimento permanecem sob questionamento.
O caso reforça a discussão sobre a necessidade de mecanismos claros para impedir que ferramentas digitais interfiram indevidamente na circulação de informações e materiais eleitorais.








