Empresa atribui problemas a erros técnicos e afirma que seus algoritmos não operam com critérios ideológicos. Campanha petista acionou o TSE e a ANPD para investigar possíveis interferências na disputa eleitoral.
A Meta, empresa responsável pelo Instagram e pelo Facebook, reconheceu a ocorrência de falhas técnicas que afetaram anúncios e publicações da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas negou favorecer o senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial de 2026. Em manifestação apresentada à Justiça Eleitoral na segunda-feira (12), a companhia afirmou que seus sistemas de distribuição de conteúdo não são orientados por preferências políticas.
O posicionamento foi apresentado após a campanha de Lula acusar a plataforma de prejudicar a divulgação de conteúdos favoráveis ao presidente e beneficiar publicações de seu adversário. A equipe petista acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e informou ter apresentado uma denúncia à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
No documento encaminhado à Justiça, a Meta rejeitou as acusações e afirmou que não utiliza seus sistemas para beneficiar ou prejudicar candidaturas. A empresa também argumentou que parte dos problemas relatados não atingiu exclusivamente usuários brasileiros ou contas específicas.
A campanha de Lula, por sua vez, questiona a explicação apresentada pela companhia e cobra informações que permitam verificar se as falhas também atingiram outros candidatos no país.
Meta atribui falhas a problemas técnicos
Entre os episódios questionados estão interrupções na contagem de visualizações de vídeos curtos, restrições ao impulsionamento de publicações e dificuldades relacionadas à conta de anúncios da campanha presidencial.
Sobre a contagem de visualizações dos Reels, a Meta informou que houve uma falha técnica na quarta-feira (7), entre 15h50 e 20h49. Durante esse intervalo, os números exibidos poderiam permanecer zerados ou deixar de ser atualizados.
Segundo a companhia, o problema atingiu criadores de conteúdo em mais de cem países. A empresa sustentou que a falha não interrompeu a distribuição dos vídeos e afirmou que as publicações do perfil oficial de Lula tiveram uma entrega superior ao padrão recente da própria conta naquele dia.
A justificativa, apresentada à Justiça Eleitoral, busca demonstrar que a instabilidade não representou uma ação direcionada contra o presidente.
A campanha petista, entretanto, considera insuficientes as explicações e afirma que a empresa ainda precisa esclarecer se os problemas afetaram outros concorrentes brasileiros e quais critérios foram utilizados na distribuição dos conteúdos.
Campanha de Lula aponta restrições desde 2025
A equipe do presidente afirma que os problemas nas plataformas começaram em dezembro de 2025, quando perfis de Lula e de outras lideranças da esquerda teriam enfrentado restrições nos resultados de busca do Instagram.
Segundo a campanha, também houve dificuldades para impulsionar publicações e a desativação da conta de anúncios utilizada pela equipe durante o período eleitoral. A representação menciona ainda um novo impedimento para promover conteúdos em 9 de outubro.
Para os petistas, a sequência de episódios levanta suspeitas de tratamento desigual entre os candidatos. A equipe argumenta que a redução da capacidade de divulgar conteúdos pode comprometer o alcance das mensagens eleitorais em um momento decisivo da disputa.
A Meta nega que suas plataformas sejam utilizadas para favorecer candidaturas e afirma que aplica suas regras de maneira igualitária.
PT aponta diferença no engajamento dos candidatos
Um levantamento apresentado pela Secretaria Nacional de Comunicação do PT indica que o perfil de Flávio Bolsonaro no Instagram registrou, em média, 2,96 vezes mais engajamento do que o perfil de Lula, mesmo tendo 17,2% menos seguidores.
A campanha utiliza os números para questionar o desempenho das publicações e cobrar esclarecimentos sobre o funcionamento dos algoritmos.
A diferença de engajamento, porém, não comprova, por si só, que houve favorecimento deliberado a um candidato. Para estabelecer se ocorreu interferência, é necessário analisar dados sobre a distribuição dos conteúdos, os critérios de recomendação, as restrições aplicadas e o desempenho das contas em condições comparáveis.
O PT sustenta que a Meta precisa apresentar informações técnicas que permitam esclarecer as suspeitas e verificar se as regras foram aplicadas de maneira uniforme durante a campanha.
TSE determina apresentação de explicações
No sábado (10), o ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou que a Meta apresentasse esclarecimentos sobre as acusações no prazo de 48 horas.
A decisão também estabeleceu a preservação de registros relacionados à moderação de conteúdo, aos anúncios e às métricas das contas mencionadas na representação.
Entre os pontos que devem ser esclarecidos estão as medidas aplicadas aos perfis oficiais de Lula desde 16 de agosto, a desativação da conta de publicidade em 23 de setembro e as possíveis alterações na contagem de visualizações.
O tribunal também solicitou informações sobre uma rede de 255 perfis que, segundo a coligação do presidente, teria utilizado inteligência artificial para divulgar ataques contra Lula e a primeira-dama, Janja da Silva. A campanha atribui a essas contas aproximadamente 58 milhões de visualizações.
A Justiça Eleitoral pediu que a empresa informe se identificou a rede denunciada e quais providências foram adotadas em relação aos perfis.
Na manifestação, a Meta solicitou mais 48 horas para detalhar as medidas aplicadas às contas oficiais do presidente, alegando que a consulta aos registros internos ainda estava em andamento.
Após a apresentação das informações, a coligação de Lula e a Procuradoria-Geral Eleitoral deverão se manifestar em prazos de 24 horas cada. A análise do pedido de urgência foi prevista para depois dessas etapas.
Empresa cita medidas de proteção eleitoral
Em sua defesa, a Meta afirmou que a integridade eleitoral é uma prioridade e destacou a cooperação mantida com a Justiça Eleitoral brasileira.
A companhia citou iniciativas de combate à desinformação, identificação de conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial e canais para denúncias de publicações ilegais. Também mencionou ações de orientação aos eleitores e mecanismos destinados a reduzir a circulação de informações falsas que possam comprometer o processo democrático.
A empresa declarou ainda que investiu mais de US$ 30 bilhões em equipes e tecnologias de segurança ao longo da última década, incluindo ferramentas automatizadas e profissionais responsáveis pela análise de conteúdos em diferentes idiomas.
A Meta também afirmou que participa de iniciativas de cooperação com o TSE e que cumpre as normas eleitorais brasileiras.
Apesar das explicações, a controvérsia permanece em análise. A investigação deverá esclarecer se os problemas relatados decorreram exclusivamente de falhas técnicas ou se houve tratamento desigual na aplicação das regras da plataforma.
Até que os dados sejam examinados pelas autoridades eleitorais, as acusações de favorecimento a Flávio Bolsonaro continuam sendo contestadas pela empresa e não estão comprovadas.








