A Polícia Federal (PF) investiga as causas do incêndio que atingiu um prédio da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, na noite de quarta-feira, 7 de outubro. O fogo destruiu laboratórios e materiais científicos acumulados ao longo de décadas. A principal dúvida é se o episódio foi acidental ou provocado intencionalmente.
Este foi o terceiro incêndio registrado em instalações da universidade em pouco mais de uma semana. Apesar da sequência de ocorrências, ainda não há confirmação de que os casos tenham relação entre si. Nenhuma pessoa ficou ferida nos três episódios.
A investigação também considera mensagens com ameaças que circularam nas redes sociais e em grupos de estudantes antes do incêndio. A Polícia Federal começou a ouvir pessoas suspeitas de envolvimento no envio das mensagens, mas ainda não há confirmação de que as ameaças estejam relacionadas ao fogo.
Prédio abrigava laboratórios de pesquisa
O incêndio atingiu o antigo edifício da Diretoria de Inovação e Empreendedorismo (Dine), que também já funcionou como restaurante universitário. O espaço abrigava laboratórios nas áreas de medicamentos, informática e genética, além do Núcleo de Pesquisa em Inovação Terapêutica Suely Galdino (Nupit).
O andar superior foi completamente destruído pelas chamas. No local, havia equipamentos, insumos, amostras biológicas e registros científicos utilizados em diferentes pesquisas acadêmicas.
O reitor da UFPE, Alfredo Macedo Gomes, estima que os prejuízos materiais cheguem a aproximadamente R$ 100 milhões. O valor considera equipamentos e materiais perdidos, mas ainda depende de um levantamento detalhado.
Além dos danos físicos, o incêndio comprometeu pesquisas desenvolvidas durante anos. Segundo a reitoria, cerca de 80 dissertações de mestrado e teses de doutorado foram diretamente afetadas, com perda de dados acumulados em até duas décadas de trabalho.
Pesquisas sobre doenças foram prejudicadas
Entre os materiais destruídos estão amostras biológicas e testes de medicamentos relacionados à Covid-19 e à esclerose sistêmica, doença que pode provocar alterações na pele e em órgãos internos.
Também foi perdido um acervo com mais de 10 mil amostras de quase mil pacientes, utilizado em pesquisas sobre dores persistentes provocadas pela chikungunya. O estudo estava entre os trabalhos científicos de grande relevância realizados na instituição.
Outras amostras utilizadas na identificação de biomarcadores de câncer de pulmão e de doenças respiratórias também foram atingidas.
A destruição desses materiais representa um obstáculo para a continuidade dos estudos, uma vez que parte das amostras e dos dados não pode ser recuperada. Pesquisadores terão de avaliar quais etapas podem ser retomadas em outras instalações e quais trabalhos precisarão ser reorganizados.
O que se sabe sobre a suspeita de incêndio criminoso?
Até o momento, a origem do incêndio permanece desconhecida. A perícia deverá determinar como as chamas começaram e se existem elementos que indiquem ação intencional.
A suspeita ganhou força após a circulação de mensagens com possíveis ameaças contra a universidade e seus estudantes. A reitoria repudiou as intimidações e pediu que os fatos sejam investigados.
A Polícia Federal abriu inquérito para apurar tanto as circunstâncias do incêndio quanto os acontecimentos anteriores à ocorrência. A corporação também mobilizou equipes especializadas para analisar o local.
Entretanto, os trabalhos periciais enfrentam dificuldades devido às condições da estrutura. O prédio apresenta risco de desabamento, especialmente na parte superior, e precisa passar por escoramento antes da entrada segura dos peritos. Robôs e drones foram utilizados para obter informações preliminares.
A investigação contará ainda com o apoio de profissionais do Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília. Até a conclusão da perícia, não é possível afirmar que o incêndio tenha sido criminoso.
Universidade registrou outros dois incêndios
O caso de 7 de outubro foi o terceiro incêndio em instalações da UFPE em pouco mais de uma semana.
Em 30 de setembro, um laboratório do Departamento de Física foi atingido durante um experimento que utilizava uma câmara de alta temperatura. Já em 4 de outubro, um curto-circuito no sistema de ar-condicionado provocou um incêndio no Laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, no Centro de Biociências.
Segundo as informações divulgadas pela universidade, as causas dos dois primeiros episódios foram identificadas. Até o momento, não foi estabelecida uma conexão entre eles e o incêndio mais recente.
O reitor afirmou que o edifício atingido recebia manutenção preventiva e revisões periódicas, inclusive na rede elétrica. A administração também informou que não havia registros anteriores de notificações de risco relacionadas à estrutura.
A UFPE possui mais de 370 edifícios, muitos deles com idade entre 70 e 80 anos. A gestão aponta dificuldades orçamentárias para atender às necessidades de manutenção de todo o patrimônio.
MEC anuncia recursos para reconstrução
Após o incêndio, o ministro da Educação, Leonardo Barchini, anunciou medidas para recuperar a infraestrutura de pesquisa da universidade.
Entre as ações previstas estão o repasse de R$ 28 milhões para a construção de um novo prédio, com área ampliada de 3 mil para 7 mil metros quadrados, e a reposição dos equipamentos laboratoriais destruídos. O custo inicial estimado para a recompra dos equipamentos é de aproximadamente R$ 100 milhões.
O governo também anunciou a extensão dos prazos de bolsas de pesquisa, para evitar que estudantes sejam prejudicados pela interrupção dos trabalhos.
Pesquisadores em fase final do doutorado poderão participar de uma chamada especial do Programa de Doutorado-Sanduíche no Exterior (PDSE), com possibilidade de concluir os estudos em instituições parceiras na Alemanha, nos Estados Unidos e na França.
Estudantes de mestrado e professores com bolsas de pós-doutorado também poderão buscar alternativas em outras universidades brasileiras, com o objetivo de manter as pesquisas em andamento.
Docentes cobram investimentos nas universidades federais
A Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco (Adufepe) afirmou que os incêndios reforçam a necessidade de investimentos em infraestrutura, manutenção e segurança nas universidades federais.
A entidade defendeu a apuração rigorosa das causas do episódio e alertou para os riscos de tratar ocorrências dessa dimensão como casos isolados, sem considerar as condições estruturais das instituições públicas de ensino superior.
Segundo o reitor Alfredo Macedo Gomes, o orçamento discricionário da UFPE, destinado a despesas operacionais e de manutenção, sofreu uma redução de 54% ao longo de 12 anos. Em 2014, a universidade dispunha de R$ 213 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 414 milhões corrigidos para 2026. Para este ano, a previsão para essas despesas é de R$ 190 milhões.
Enquanto a investigação prossegue, o prédio permanece isolado e a universidade trabalha para avaliar os danos e encontrar alternativas para os pesquisadores afetados. A definição sobre a origem do incêndio dependerá dos resultados da perícia da Polícia Federal.








