Da Redação
Justiça aponta que grupo liderado pelo delegado e pela esposa utilizava empresas ligadas aos envolvidos para fraudar contratações; esquema teria desviado mais de R$ 2,2 milhões
Dez pessoas foram condenadas pela Justiça de Goiás por participação em um esquema de desvio de recursos destinados à educação estadual em Rio Verde, investigado pelo Ministério Público de Goiás (MPGO) durante a Operação Regra Três. Entre os condenados estão o delegado da Polícia Civil Dannilo Ribeiro Proto, a esposa dele, Karen de Souza Santos Proto, além de empresários, servidores públicos e um contador.
Segundo a sentença da juíza Placidina Pires, o grupo utilizava empresas registradas em nome de terceiros ou ligadas aos próprios envolvidos para participar de contratações relacionadas a obras, reformas, serviços e impressão de materiais. As irregularidades teriam atingido programas como Reformar, Equipar, Revisa Goiás e 1008 – Educação Que Queremos.
As investigações apontam que mais de R$ 2,2 milhões em recursos públicos foram desviados. Dannilo e Karen foram considerados pela Justiça os responsáveis por liderar a organização e articular o funcionamento do esquema.
Dannilo está preso na Casa do Albergado, em Goiânia, desde agosto de 2025. Karen chegou a ser presa em janeiro deste ano, mas recebeu liberdade provisória cerca de um mês depois. Os demais condenados respondem ao processo em liberdade.
Dannilo Ribeiro Proto
Delegado da Polícia Civil, Dannilo Proto recebeu pena de 11 anos e 2 meses de prisão pelos crimes de organização criminosa, falsidade ideológica, ameaça e prevaricação.
De acordo com a sentença, ele ocupava uma das principais posições dentro do grupo e utilizava sua condição de agente público para favorecer os interesses da organização. Ao lado de Karen, foi apontado como um dos responsáveis intelectuais pelo esquema.
Karen de Souza Santos Proto
Esposa de Dannilo e professora concursada da rede estadual, Karen Proto foi condenada a 11 anos e 1 mês de prisão por organização criminosa, falsidade ideológica e violação de sigilo funcional.
Karen ocupou função de coordenação na estrutura regional da Secretaria de Estado da Educação (Seduc) em Rio Verde. Conforme a decisão, ela teria utilizado informações e a influência proporcionadas pelo cargo para favorecer e direcionar contratações.
Leonard Ferreira de Paulo
Leonard Ferreira de Paulo recebeu pena de 8 anos e 3 meses de prisão por organização criminosa e falsidade ideológica.
Segundo a Justiça, ele exercia papel importante na administração das empresas utilizadas pelo grupo. Formalmente ligado à Gyn Investimentos, Leonard seria responsável pela preparação de orçamentos e pela participação das empresas nos processos de contratação.
Uma funcionária relatou durante o processo que elaborava, seguindo determinações de Leonard, propostas para diferentes empresas. Para a Justiça, a estratégia simulava concorrência e possibilitava que determinada empresa ligada ao grupo fosse escolhida.
Taisa Souza Santos
Taisa Souza Santos, esposa de Leonard, foi condenada a 6 anos, 2 meses e 15 dias de prisão por organização criminosa e falsidade ideológica.
Ela figurava formalmente como proprietária da Barbosa Terraplenagem, anteriormente chamada C3 Construtora. A sentença, no entanto, aponta que Leonard, Dannilo Proto e Marco Aurélio Barbosa Marques possuíam participação oculta na empresa.
Conversas analisadas durante a investigação também indicaram participação de Marco Aurélio no negócio, inclusive por meio de investimento de R$ 1 milhão destinado à compra de máquinas.
Valdir Antônio Braga
Valdir Antônio Braga foi condenado a 5 anos e 11 meses de reclusão pelos crimes de organização criminosa e falsidade ideológica.
Ele aparecia formalmente como sócio da Braga Construtora Ltda., mas a Justiça concluiu que atuava como laranja de Leonard Ferreira de Paulo.
A empresa participou de 17 dispensas de licitação relacionadas ao programa Reformar e foi contratada em 16 delas. Em alguns processos, chegou a disputar com a Gyn Investimentos, empresa relacionada a Leonard.
Júlio Furquim Goulart Júnior
Contador das empresas envolvidas, Júlio Furquim Goulart Júnior foi condenado a 7 anos e 11 meses de prisão por organização criminosa e falsidade ideológica.
De acordo com a sentença, ele atuava na estrutura contábil das empresas e contribuía para conferir aparência de regularidade fiscal às operações.
A investigação identificou a participação do contador em procedimentos relacionados à criação, alteração e regularização documental de diferentes empresas vinculadas aos integrantes do grupo.
Hádamo Ferreira de Souza
Hádamo Ferreira de Souza também recebeu pena de 7 anos e 11 meses por organização criminosa e falsidade ideológica.
Segundo a decisão, ele estava relacionado a empresas utilizadas para apresentar propostas e participar das contratações investigadas. A sentença também aponta sua participação em movimentações financeiras realizadas pelo grupo.
Em uma das situações apuradas, Dannilo teria orientado Hádamo a retirar um cheque emitido pela Braga Construtora e depositá-lo na conta da Gyn Investimentos, ligada a Leonard.
Marco Aurélio Barbosa Marques
O empresário Marco Aurélio Barbosa Marques foi condenado a 6 anos e 5 meses de prisão por organização criminosa.
Ele figurava como sócio do Grupo Casa Verdi, formado pelas empresas Casa Verdi Construtora e Casa Verdi Investimentos. A Justiça também identificou uma participação oculta dele na Barbosa Terraplenagem.
A sentença cita ainda pagamentos registrados como gratificações que saíram da empresa e chegaram a contas relacionadas ao empresário.
Vitor Rodrigo Bento
Servidor da área da Educação, Vitor Rodrigo Bento foi condenado a 6 anos e 5 meses por organização criminosa.
Durante o período em que Karen comandava a Coordenação Regional de Educação de Rio Verde, Vitor atuava na área financeira e tinha acesso à gestão de repasses, principalmente de recursos emergenciais.
Para a magistrada, as funções exercidas pelo servidor indicavam que ele tinha conhecimento das irregularidades e contribuía para que as operações fossem realizadas.
A sentença aponta ainda que Vitor forneceu sua senha de acesso a um sistema interno para Karen mesmo depois de ela deixar a função de coordenadora. Dessa forma, ela teria conseguido consultar informações restritas relacionadas ao número de estudantes das unidades escolares.
Luana Morais dos Santos
Luana Morais dos Santos foi condenada a 5 anos e 8 meses de prisão por organização criminosa. A Justiça a descreveu como pessoa próxima e de confiança de Dannilo e Karen Proto.
A Focus do Saber Educacional, empresa que participou de procedimentos relacionados ao Revisa Goiás, inicialmente estava registrada em nome de Hádamo Ferreira de Souza e depois foi transferida para Luana.
Na avaliação da Justiça, ela tinha conhecimento de que a alteração societária seria utilizada para esconder os verdadeiros responsáveis pela empresa e permitir a continuidade das irregularidades.
Como funcionava o esquema
A estrutura identificada pela investigação reunia agentes públicos, empresários e empresas formalmente registradas em nome de diferentes pessoas.
Segundo a sentença, Dannilo e Karen ocupavam a liderança, enquanto Leonard tinha papel central na organização das empresas e na elaboração dos orçamentos. Outros integrantes atuavam como proprietários formais, empresários ou servidores posicionados dentro da administração pública, enquanto a parte contábil ajudava a conferir aparência regular às operações.
As empresas apresentavam propostas em processos de contratação, criando uma suposta concorrência. A Justiça concluiu, porém, que parte dessas empresas estava ligada aos mesmos integrantes, permitindo o direcionamento dos contratos e o desvio dos recursos.
As irregularidades envolveram programas estaduais destinados à reforma e estruturação de escolas e à produção de materiais educacionais.
Justiça determina ressarcimento
Além das penas de prisão, a juíza Placidina Pires determinou o pagamento de R$ 1,85 milhão à Secretaria de Estado da Educação como ressarcimento pelos prejuízos atribuídos aos contratos fraudulentos.
A sentença estabeleceu ainda indenização de R$ 1 milhão por danos morais coletivos.
A investigação do MPGO aponta que o esquema teria movimentado mais de R$ 2,2 milhões em recursos desviados da educação pública. Desde 2020, ao menos 40 contratos sem licitação teriam sido fraudados para favorecer empresas relacionadas ao grupo.
Durante as investigações, a Justiça também determinou o bloqueio de bens de empresas envolvidas e do Instituto Delta Proto. Os condenados ainda podem recorrer da sentença, conforme a situação processual de cada um.








