Estrutura coordenada pelo Corpo de Bombeiros terá monitoramento 24 horas e reunirá informações sobre focos de calor, condições meteorológicas e riscos de escassez de água
O Governo de Goiás criou uma estrutura especial para coordenar as ações de prevenção e resposta aos incêndios florestais, à estiagem e aos possíveis impactos provocados pelo El Niño durante o ciclo 2026/2027. O Gabinete de Ações Integradas (GAI) foi instituído pelo Decreto nº 10.978 e será coordenado pelo Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Goiás (CBMGO), por meio do Comando de Operações de Defesa Civil.
A iniciativa surge em meio ao aumento da preocupação com as condições climáticas previstas para os próximos meses. Órgãos federais de monitoramento apontam alta probabilidade de permanência do El Niño até, pelo menos, o início de 2027, com possibilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre a primavera e o verão de 2026.
O cenário coloca Goiás em estado de atenção principalmente pela combinação entre temperaturas elevadas, baixa umidade, estiagem prolongada e maior facilidade de propagação de incêndios.
Gabinete terá monitoramento durante 24 horas
Uma das principais medidas previstas no decreto é a criação de uma Sala de Situação com funcionamento contínuo durante o período de atuação do gabinete.
Instalada no Comando de Operações de Defesa Civil, a estrutura ficará responsável por reunir e analisar diariamente informações relacionadas aos focos de calor, alertas meteorológicos e ocorrências registradas no território goiano.
Os dados utilizados serão fornecidos por instituições como o Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e outros órgãos responsáveis pelo acompanhamento das condições ambientais.
Com essas informações, o governo pretende elaborar indicadores diários e relatórios periódicos de risco para orientar decisões e permitir respostas mais rápidas em situações consideradas críticas.
Alertas poderão ser enviados à população
Além do acompanhamento das condições climáticas e ambientais, o Gabinete de Ações Integradas poderá divulgar alertas à população e promover campanhas educativas.
Entre os assuntos previstos estão orientações para o uso racional da água, prevenção de incêndios e cuidados durante períodos de calor intenso e baixa umidade.
As análises produzidas pelo gabinete também poderão auxiliar a Defesa Civil na avaliação sobre a necessidade de decretar situação de emergência ou estado de calamidade pública em determinadas regiões.
Goiás enfrenta período crítico de estiagem
A criação do gabinete ocorre durante um dos períodos mais delicados da estação seca em Goiás. A ausência prolongada de chuvas, associada às altas temperaturas e à baixa umidade do ar, aumenta o risco de incêndios tanto em áreas rurais quanto urbanas.
Levantamentos divulgados neste mês mostraram que 138 dos 246 municípios goianos apresentavam condições meteorológicas críticas para incêndios, enquanto algumas regiões chegaram a acumular mais de 50 dias consecutivos sem precipitação significativa.
Grandes incêndios também já atingiram áreas de preservação ambiental. Na região da Área de Proteção Ambiental Serra Geral de Goiás e do Parque Estadual de Terra Ronca, no Nordeste goiano, as chamas atingiram aproximadamente 14,1 mil hectares antes de serem controladas.
O Estado também proibiu o uso do fogo em Goiás até 31 de outubro de 2026. A restrição vale para práticas como limpeza de terrenos, queima de resíduos e eliminação de vegetação durante o período de maior risco.
El Niño pode aumentar temperaturas
O El Niño ocorre quando há um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa mudança interfere na circulação da atmosfera e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, os efeitos variam de acordo com a região. No Sul, o fenômeno costuma favorecer volumes maiores de chuva, enquanto áreas do Norte e Nordeste podem enfrentar condições mais secas.
No Centro-Oeste, os impactos sobre as chuvas são menos uniformes. Entretanto, projeções indicam tendência de temperaturas mais elevadas em Goiás, Mato Grosso e Distrito Federal, principalmente no fim do inverno e durante a primavera.
O aumento do calor pode provocar redução da umidade relativa do ar e deixar a vegetação ainda mais seca, criando condições favoráveis para o surgimento e a propagação de queimadas.
Milhões de quilômetros quadrados estão sob risco de fogo
As projeções nacionais também apontam temperaturas acima da média em grande parte do território brasileiro.
Para o trimestre entre julho e setembro, existe maior possibilidade de chuvas abaixo da média em áreas do Centro-Norte do país. Já a Região Sul apresenta cenário diferente, com maior probabilidade de precipitações acima da média.
Segundo dados citados no levantamento que embasou a criação do gabinete, o Cemaden classificou mais de 6,7 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro nos três níveis mais elevados de risco de fogo para o período.
A combinação de pouca chuva, temperaturas elevadas e baixa umidade preocupa principalmente as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste.
Agricultura e recursos hídricos também preocupam
Os possíveis impactos do El Niño não estão restritos aos incêndios florestais. Mudanças no regime de chuvas também podem provocar consequências na produção agrícola, disponibilidade de água, níveis de rios e reservatórios e geração de energia.
Por esse motivo, o gabinete deverá acompanhar também indicadores relacionados à disponibilidade hídrica. A intenção é permitir que o Estado identifique antecipadamente situações de risco e adote medidas antes que eventuais problemas de abastecimento se agravem.
O monitoramento permanente das condições meteorológicas e hidrológicas também é recomendado pelos órgãos federais que acompanham o El Niño.
Saúde da população entra no monitoramento
Outro ponto de atenção é o impacto do período quente e seco sobre a saúde. A fumaça gerada pelas queimadas pode comprometer a qualidade do ar e agravar doenças respiratórias, principalmente entre crianças, idosos e pessoas que já possuem problemas de saúde.
O Estado também acompanha possíveis reflexos das condições climáticas sobre doenças transmitidas pelo Aedes aegypti.
Até julho, Goiás contabilizava 147.084 notificações de dengue, com 96.174 casos confirmados. No mesmo período, foram registradas 13.243 notificações de chikungunya, das quais 11.128 tiveram confirmação.
O monitoramento ambiental também foi ampliado recentemente. Goiás passou a contar com previsão da qualidade do ar com até 72 horas de antecedência, além de boletins semanais e uma plataforma atualizada para acompanhamento dos focos de fogo.
Gabinete não terá orçamento próprio
Apesar da criação da nova estrutura, o Gabinete de Ações Integradas não contará com orçamento, quadro de servidores ou estrutura administrativa próprios.
Os órgãos envolvidos deverão utilizar os recursos humanos, financeiros, materiais e logísticos que já possuem para executar as atividades previstas.
A participação dos integrantes no gabinete também não dará direito ao pagamento de gratificações, jetons ou qualquer remuneração adicional.
Estrutura poderá continuar após período crítico
O GAI permanecerá em funcionamento durante o período de emergência ambiental ou enquanto estiver vigente uma eventual situação de emergência relacionada às condições climáticas.
Depois do encerramento da fase considerada mais crítica, o gabinete ainda poderá continuar funcionando por até 30 dias.
Esse período adicional será utilizado para consolidar os dados reunidos, avaliar os danos registrados e produzir um relatório final sobre as ações realizadas.
Com a criação da estrutura, Goiás busca ampliar a integração entre diferentes órgãos públicos e transformar informações meteorológicas e ambientais em ações preventivas, especialmente diante da perspectiva de um segundo semestre marcado por calor intenso, baixa umidade, estiagem e maior risco de incêndios.




