Da Redação
Goiás encerrou o primeiro semestre de 2026 com 552 empresas em recuperação judicial, o maior número registrado no Estado nos últimos dois anos. O resultado coloca o território goiano na quinta posição do ranking nacional, atrás apenas de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais.
Os dados são do Monitor RGF BizDoc, elaborado com informações da base de CNPJs da Receita Federal. Além do número absoluto de processos, Goiás apresenta a segunda maior concentração de empresas em recuperação judicial do país.
Segundo o Índice de Recuperação Judicial (IRJ), existem 0,56 empresas em recuperação para cada mil negócios ativos no Estado. O resultado é quase duas vezes superior à média brasileira, de 0,30.
Mais de 250 mil empresas estão inadimplentes em Goiás
O crescimento das recuperações judiciais ocorre em meio ao avanço da inadimplência empresarial. Em junho, o Brasil contabilizava mais de 9,1 milhões de empresas com contas em atraso, que acumulavam R$ 232,9 bilhões em débitos. O montante representa crescimento de 16,67% na comparação com o mesmo período de 2025.
Em Goiás, 250.101 empresas estavam inadimplentes no mesmo período. Ao todo, eram 1.472.763 dívidas negativadas, que somavam R$ 4,39 bilhões.
Apesar de estarem relacionadas a dificuldades financeiras, inadimplência e recuperação judicial representam situações diferentes. A primeira ocorre quando uma empresa deixa de pagar determinada obrigação e tem a dívida registrada nos sistemas de proteção ao crédito. Já a recuperação judicial é um instrumento legal que permite reorganizar débitos enquanto a companhia busca manter suas atividades.
Somente entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, o número de empresas em recuperação judicial em Goiás cresceu 3,6%, com a entrada de 19 novos casos.
Juros elevados aumentam pressão sobre empresas
Na avaliação do advogado especialista em recuperação judicial Hanna Mtanios Hanna Júnior, diferentes segmentos possuem características específicas que podem levar empresas a dificuldades, mas existe um componente comum: o cenário macroeconômico.
Entre os fatores está a elevada taxa de juros, que encarece o acesso ao crédito e aumenta o custo das dívidas para empresas que dependem de financiamento.
Negócios que já apresentam dificuldades de caixa podem enfrentar obstáculos ainda maiores para contratar novos empréstimos ou renegociar compromissos anteriores.
Varejo enfrenta dificuldades e grandes empresas recorrem à Justiça
O varejo está entre os setores afetados pelo cenário. Entre os casos recentes estão Casas Bahia e Lojas Marabraz, que recorreram à Justiça em agosto para tentar reorganizar suas dívidas e manter as operações.
A Casas Bahia acumula R$ 17,3 bilhões em débitos, enquanto a Marabraz possui uma dívida estimada em R$ 140 milhões.
Antes de entrar com o pedido, a Casas Bahia já havia fechado quase 300 lojas e planejava dispensar aproximadamente 3 mil funcionários. As demissões, entretanto, foram suspensas pela Justiça do Trabalho, considerando o entendimento de que dispensas coletivas precisam ser precedidas de negociação com os sindicatos.
Para Hanna, além do ambiente econômico, o varejo passa por uma transformação relacionada aos hábitos dos consumidores. A expansão das compras pela internet e a facilidade de adquirir produtos pelo celular obrigam grandes redes tradicionais a reverem seus modelos de negócio.
Outras companhias do segmento também enfrentaram processos de reestruturação nos últimos anos, entre elas Americanas, Dia, Polishop e Tok&Stok. O Grupo Pão de Açúcar (GPA), por sua vez, optou pela recuperação extrajudicial, modalidade em que a renegociação ocorre diretamente com os credores.
Em Goiás, o comércio contabilizava 116 empresas em recuperação judicial no segundo trimestre de 2026, ficando atrás apenas do agronegócio.
Agronegócio lidera recuperações judiciais no Estado
O agronegócio é o setor com maior número de empresas em recuperação judicial em Goiás. Dos 552 casos contabilizados no Estado, 172 estão ligados ao segmento agropecuário.
O índice de recuperação judicial do setor chega a 14,2, equivalente a mais de 14 empresas em recuperação para cada mil negócios ativos.
Somente no primeiro trimestre deste ano, Goiás contabilizou 73 pedidos de recuperação judicial no agronegócio, segundo dados da Serasa Experian. O Estado ficou atrás apenas de Mato Grosso, que registrou 135 solicitações.
No Brasil, foram apresentados 474 pedidos de recuperação judicial relacionados ao agro durante os três primeiros meses de 2026. O número representa aumento de 21,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O cenário de dificuldades ocorre mesmo diante da perspectiva de crescimento da produção agrícola brasileira. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra de grãos 2025/2026 alcance 360,8 milhões de toneladas, avanço de 2,4% em relação ao ciclo anterior.
Entre os fatores que pressionam os produtores estão a redução dos preços de determinadas commodities, os custos dos insumos e os juros elevados.
Endividamento e custo do crédito preocupam setor produtivo
A situação das empresas brasileiras também ocorre em um momento de preocupação com as contas públicas e o custo do dinheiro.
Projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam que a dívida pública brasileira poderá alcançar 100% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027. Entre os fatores relacionados ao avanço estão juros elevados, déficit fiscal e dificuldades para estabilizar o endividamento.
O pagamento de juros no Brasil corresponde a aproximadamente 8% do PIB, cenário que também influencia as condições de investimento e financiamento.
Para empresas já endividadas, juros elevados aumentam o custo dos empréstimos e podem dificultar a reorganização das contas.
Recuperação judicial não significa falência
Apesar do crescimento dos processos, a recuperação judicial não significa necessariamente que uma empresa esteja caminhando para encerrar as atividades.
O mecanismo existe justamente para permitir que negócios economicamente viáveis reorganizem suas dívidas, negociem com credores e tentem preservar empregos, produção e geração de impostos.
Durante o processo, determinadas cobranças podem ser temporariamente suspensas, enquanto a companhia apresenta um plano para reorganizar sua situação financeira.
Hanna compara a recuperação judicial a uma espécie de tratamento intensivo para empresas em dificuldades: a situação é grave, mas o instrumento pode permitir a recuperação do negócio.
Empresas goianas conseguiram superar recuperação judicial
Apesar dos números atuais, Goiás possui exemplos de empresas que passaram por processos de recuperação judicial e conseguiram permanecer no mercado.
Entre os casos mencionados pelo especialista está o Empório Piquiras. Restaurantes, estabelecimentos comerciais e instituições de ensino também já recorreram ao mecanismo. O Kabanas Restaurante e Bar é outro exemplo citado de empresa que passou pelo processo.
Segundo Hanna, Goiás possui experiência consolidada na condução de recuperações judiciais, tanto no Poder Judiciário quanto entre profissionais especializados em direito empresarial e administração judicial.
Na avaliação do advogado, o amadurecimento das estruturas responsáveis pelos processos permite que o Estado esteja preparado para lidar com o aumento da demanda.
Recuperações podem permanecer em patamar elevado
A evolução dos casos nos próximos meses dependerá de diferentes fatores econômicos. Entre eles, o comportamento dos juros é considerado um dos principais pontos de atenção.
Caso o custo do crédito continue elevado, o número de recuperações judiciais pode permanecer em níveis altos.
O varejo também é apontado como um segmento que merece acompanhamento. A dificuldade enfrentada por grandes redes pode provocar reflexos em empresas menores ligadas à mesma cadeia de fornecedores, prestadores de serviços e negócios relacionados.
Outro setor que pode demandar atenção é a construção civil, especialmente diante de sinais relacionados ao aumento do estoque de imóveis. O especialista ressalta, porém, que ainda não é possível afirmar que o segmento enfrentará uma nova onda de recuperações.
Inadimplência empresarial reforça alerta em Goiás
O número de empresas inadimplentes amplia a preocupação porque mostra que as dificuldades financeiras não estão restritas às grandes companhias que recorrem à Justiça.
Os mais de 250 mil CNPJs negativados em Goiás acumulam aproximadamente R$ 4,39 bilhões em dívidas. Isso não significa que essas empresas necessariamente entrarão em recuperação judicial, mas evidencia a dimensão do endividamento empresarial no Estado.
Para especialistas, identificar os problemas financeiros antecipadamente pode ser decisivo para impedir que a situação se agrave. Quando a empresa começa a apresentar dificuldades recorrentes para manter pagamentos e fluxo de caixa, a orientação é buscar apoio jurídico, financeiro e contábil para avaliar alternativas.
Com 552 empresas em recuperação judicial e mais de R$ 4 bilhões em dívidas empresariais negativadas, Goiás acompanha com atenção a evolução do crédito, dos juros, dos custos de produção e do consumo. Esses fatores serão determinantes para definir se o número de negócios em dificuldade continuará crescendo nos próximos trimestres.






