Da Redação

Chanceler Mauro Vieira afirma que gesto de Buenos Aires é necessário para normalizar relações entre os dois países

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a Argentina precisa interromper os ataques do presidente Javier Milei contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva para que as relações diplomáticas entre os dois países sejam normalizadas. A declaração foi dada ao jornal argentino Clarín e divulgada neste domingo (9).

Vieira está em Cali, na Colômbia, onde representa o presidente Lula na cerimônia de posse do presidente eleito Abelardo de la Espriella. Segundo o chanceler, a retomada de uma relação diplomática plena depende de uma mudança de postura do governo argentino.

Para Vieira, é necessário que Buenos Aires faça um gesto concreto para reduzir as tensões. O ministro afirmou que os ataques precisam cessar para que os embaixadores dos dois países possam voltar a ocupar seus respectivos postos.

Atualmente, Brasil e Argentina mantêm suas relações diplomáticas sob a condução de encarregados de negócios. O Brasil retirou seu embaixador de Buenos Aires após a escalada de declarações de Milei contra Lula e integrantes das instituições brasileiras.

Ataques ultrapassaram críticas ao governo

Mauro Vieira afirmou que as declarações de Milei deixaram de ser apenas críticas políticas ao governo brasileiro e passaram a atingir instituições do país, incluindo o Supremo Tribunal Federal (STF).

O chanceler classificou como “assombroso” um discurso recente do presidente argentino durante uma convenção partidária e disse que episódios semelhantes ocorreram diversas vezes em um curto período.

Na avaliação de Vieira, a presença dos embaixadores poderá ser restabelecida quando houver condições para a normalização das relações entre os dois governos.

Brasil nega interferência na Argentina

Durante a entrevista, o ministro também rejeitou a acusação de Milei de que o governo brasileiro estaria promovendo uma campanha internacional contra a Argentina.

Vieira classificou a denúncia como falsa e afirmou que a visita do ex-ministro argentino Sergio Massa ao Brasil teve como objetivo discutir assuntos de interesse comum entre os dois países, especialmente questões econômicas.

O chanceler também contestou a classificação de Lula como “comunista”, utilizada por integrantes do governo argentino. Segundo Vieira, o termo não corresponde à realidade da política econômica adotada pelo Brasil.

Apesar da crise, o ministro ressaltou que a Argentina continua sendo considerada um parceiro estratégico para o governo brasileiro. Para ele, a relação entre os dois países é de importância fundamental e precisa ser valorizada pelas duas partes.

Milei aumenta críticas a Lula

A crise diplomática se agravou nas últimas semanas após uma sequência de declarações de Javier Milei contra Lula e integrantes do Judiciário brasileiro.

Durante a convenção nacional do Partido Liberal (PL), que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, o presidente argentino voltou a atacar Lula e também fez críticas ao ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Posteriormente, em entrevista a uma rádio argentina, Milei acusou o Brasil de estar por trás de uma suposta campanha contra a Argentina durante a Copa do Mundo. Ele também afirmou que o governo brasileiro teria enviado profissionais de marketing para apoiar Sergio Massa nas eleições presidenciais argentinas de 2023.

Em outra entrevista, desta vez à emissora LN+, Milei chamou Lula de “ladrão” e “corrupto” e voltou a questionar decisões do STF relacionadas aos processos da Operação Lava Jato.

O presidente argentino, por sua vez, afirmou que não considera suas declarações como ataques pessoais. Segundo ele, trata-se de críticas baseadas em fatos que considera verdadeiros.

Relação com os Estados Unidos

Mauro Vieira também comentou o aumento das tensões entre Brasil e Estados Unidos durante a entrevista. O chanceler afirmou que o governo brasileiro vê uma tentativa de interferência no processo eleitoral do país como parte da ofensiva norte-americana contra a administração Lula.

Entre os episódios citados por Vieira está a indicação de um novo nome para a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. Segundo o ministro, Washington permaneceu por mais de um ano e meio sem embaixador em Brasília e posteriormente encaminhou um indicado ao Senado americano sem realizar uma consulta prévia considerada adequada pelo governo brasileiro.

Vieira ainda relacionou o episódio a declarações de autoridades norte-americanas sobre o sistema eleitoral brasileiro e a pedidos para que representantes dos Estados Unidos visitassem o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso.

A crise entre Brasil e Argentina ocorre em um momento de forte deterioração da relação entre os dois governos. Apesar das divergências políticas entre Lula e Milei, o governo brasileiro sustenta que a Argentina permanece como parceiro estratégico e defende a retomada do diálogo diplomático caso Buenos Aires interrompa os ataques ao presidente brasileiro e às instituições do país.