SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Quando a guerra começa, você esquece quem é e o que gosta de fazer. Você está ocupado em entender o que está acontecendo e como sobreviver.”

Assim o escritor ucraniano Andrei Kurkov explica a sua vida desde que a Rússia invadiu o seu país. A fala foi feita em encontro promovido pela Folha e pela editora Carambaia na segunda-feira (29).

O autor de “Ucrânia: Diário de uma Guerra” conversou com a repórter especial Patrícia Campos Mello sobre fatos do conflito que não podem ser vistos do Brasil.

Na noite de 23 de fevereiro de 2022, Kurkov recebia amigos em casa para comer um borsch —sopa ucraniana preparada com beterraba. Eles comentavam sobre as perspectivas de uma guerra, até então negadas pelo presidente ucraniano, Volodimir Zelenski. No dia seguinte, às cinco da manhã, o escritor foi acordado pelas explosões em Kiev. Era a Rússia dando início ao conflito.

Considerando “impossível escrever ficção quando a realidade chamava”, Kurkov abandonou o romance em que estava trabalhando —e que só foi terminar em 2024— para escrever sobre o seu novo cotidiano.

Kurkov, que já era aclamado na ficção —semifinalista do prêmio Booker em duas ocasiões–, tornou-se uma das principais vozes da Ucrânia.

Ao relatar o cotidiano da guerra, Kurkov evitou concentrar sua narrativa apenas na destruição. Seus diários são atravessados por episódios banais, cômicos e também absurdos, uma forma de mostrar, nas palavras de Campos Mello, “como viver na guerra apesar da guerra, sem deixar que ela defina quem você é”.

Um dos exemplos é a história de um guaxinim roubado por soldados russos de um zoológico em Kherson. Exibido pela Rússia como um troféu da ocupação, o animal arranhava todos que tentavam controlá-lo e acabou se tornando um símbolo de resistência para os ucranianos.

Outra anormalidade que se tornou cotidiana com a guerra são as cidades cobertas com redes de pesca, penduradas para pegar drones. Essa é, na visão de Campos Mello, uma guerra diferente de todas as anteriores. Ao relembrar suas viagens à Ucrânia, a jornalista descreveu um conflito travado por drones, robôs e sistemas de vigilância que impedem qualquer movimentação a céu aberto.

O escritor veio ao Brasil para participar da Flip, em que dividiu uma mesa com a canadense-ucraniana Maria Reva. Viajando pelo mundo desde 1999, Kurkov notou que as recepções às suas falas mudaram após a invasão russa, em 2022.

Nos primeiros meses do conflito, segundo ele, a solidariedade vinha sobretudo da população da Europa, enquanto muitos governos hesitavam em apoiar a Ucrânia. Hoje, a situação mudou e, enquanto o respaldo político é amplo, a sociedade europeia parece mais atenta à guerra em Gaza, diz ele.

Ao falar do Brasil, o escritor sugeriu que o próximo presidente faça uma visita oficial a Kiev, como têm feito outros líderes europeus. “Se ele vier, prometo lhe servir um borsch”, brincou.

Kurkov disse que compreende os interesses econômicos entre Brasil e Rússia, membros do Brics, mas acredita que isso não impede posicionamentos mais claros. “Se o Cazaquistão pode dizer isso a Putin, então talvez os políticos brasileiros possam ser mais diretos e honestos.”

Ele se referiu à visita recente do presidente cazaque ao Kremlin, na qual este defendeu publicamente o fim da guerra.

O escritor também comentou a visão romantizada da União Soviética que ainda persiste entre parte da esquerda brasileira. “A propaganda sempre foi uma indústria na União Soviética. E se tornou uma indústria ainda maior na Rússia.” Ele disse que, para entender como funcionava o regime, basta olhar para a Coreia do Norte atualmente.

Ao ser questionado sobre quando o conflito pode terminar, Kurkov afirmou que a guerra não acaba até Vladimir Putin morrer —embora possa se prolongar mesmo depois disso.