SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Para parecer um lutador de MMA diante das câmeras, não bastava aprender a desferir socos, estrangulamentos e pontapés. Vinicius Neri e MC Cabelinho precisaram transformar o corpo, decorar coreografias de combate, controlar a distância dos golpes e repetir movimentos até que a luta parecesse espontânea sem, de fato, colocar o colega em risco.

A preparação para “Fúria”, nova série que estreia nesta quarta-feira (29), exigiu meses de dedicação dos atores. A rotina incluiu treinos diários, em alguns períodos até três vezes por dia e drásticas mudanças na alimentação.

“Foi muito intenso”, resume Cabelinho. O ator interpreta um lutador de MMA na produção e conta que precisou aumentar ainda mais a disciplina em relação à alimentação. “Eu já malhava, mas tive que me dedicar mais à dieta. Sofri bastante com isso.”

O sacrifício chegou ao ponto de um bolo virar um acontecimento no set. “No último dia de gravação de luta, o Anderson me deu de presente um bolo de chocolate e cenoura. Eu me emocionei, não estava comendo doce”, conta.

Neri enfrentou uma preparação ainda mais prolongada. Ele entrou no projeto em fevereiro e passou meses treinando até chegar às gravações, que ocorreram ao longo do ano. Na fase de preparação física mais intensa, o objetivo era atingir o aspecto corporal de um atleta de sua categoria.

“Eu tinha dias que tinha ódio da disciplina. Pensava: ‘Por que estou fazendo isso comigo?'”, brinca. “Fiquei seis meses sem beber.”

O resultado, segundo ele, também ajudou a contar a evolução de Marcelo, personagem que começa a história sem memória e encontra no MMA uma espécie de novo caminho para reconstruir a própria identidade.

A mudança física precisava acompanhar a trajetória do personagem. “A gente conseguiu fazer com que ele estivesse cada vez com um corpo mais próximo do corpo dos atletas da categoria dele”, afirma Neri. Para isso, não bastava passar horas na academia: era necessário chegar em casa depois das gravações e continuar treinando.

“Você tem que gravar e chegar em casa e treinar, todo dia, durante quase cinco meses. Então foi estressante”, diz.

A intensidade dos treinamentos também tinha uma explicação narrativa. “Fúria” acompanha um jovem encontrado à beira da morte por um treinador de MMA. Sem lembrar quem é, ele recebe o nome de Marcelo e passa a construir uma nova vida dentro do universo das lutas.

Conforme avança nesse ambiente, surgem pistas sobre seu passado e uma série de crimes, segredos e disputas começa a aparecer.

Para Cabelinho, a familiaridade com a atividade física ajudou, mas não resolvia tudo. Neri já tinha contato com artes marciais e boxe, enquanto Cabelinho precisou começar praticamente do zero. A produção contou com o treinador Peter, vindo de Los Angeles, além de dublês especializados em artes marciais.

“Cada coreografia de uma luta, a gente passava, sei lá, uma semana ensaiando, vendo o vídeo dentro de casa”, explica Neri.

O posicionamento dos corpos também muda a dinâmica. Um golpe precisa parecer que acertou, sem necessariamente tocar no outro ator. Para isso, os intérpretes precisam calcular distância e tempo de reação em frações de segundo.

Nem sempre a conta fecha perfeitamente. Cabelinho conta que levou um golpe na boca durante uma das gravações. “Nada proposital, mas acontece”, afirma.

O treinamento ainda incorporou elementos de dança. Cabelinho, que não tinha experiência anterior com lutas, passou por aulas para melhorar equilíbrio, resistência, alongamento e coordenação.

A exigência física, contudo, era apenas uma parte do desafio. A série também levou os atores a explorar cenas de maior carga emocional. Neri, que interpreta o protagonista, passou por uma preparação específica para acessar sentimentos de raiva e fúria –justamente o estado emocional que dá nome à produção.

“Passei três semanas encontrando diversas formas de sentir ódio, muito ódio, muita raiva”, conta.

O processo serviu para que o ator pudesse acessar diferentes níveis de intensidade durante as cenas. Mas ele afirma que a preparação não termina quando começa a gravação. O próprio ambiente de um set, com equipe técnica, câmeras, luzes e diferentes demandas acontecendo ao mesmo tempo, exige concentração.

“É muita gente trabalhando, muita gente fazendo muita coisa. Então conseguir estar conectado com o que precisa para fazer o que tem que fazer é bastante desafiador”, afirma.

Uma das cenas mais delicadas, segundo Neri, foi gravada com Fábio Lago. A sequência, presente no último episódio, exigiu várias tomadas e diferentes enquadramentos.

“Foi uma cena que realmente a gente cuidou para ela correr bem”, diz. Para Cabelinho, a experiência também serviu para comparar os diferentes formatos em que já trabalhou como ator. O músico já passou por novelas e filmes e diz ter percebido uma exigência diferente em “Fúria”.

“Eu senti que a série foi mais puxada, mais exigente”, afirma. Segundo ele, as novelas têm um ritmo mais acelerado, com mudanças frequentes de cenários, figurinos e cenas ao longo de um mesmo dia.

Apesar das diferenças entre ator e personagem, há pontos de contato. Cabelinho identifica no lutador o jeito “marrento” e “abusado” que reconhece em si mesmo. Neri, por sua vez, encontra uma semelhança mais ligada à intensidade emocional.

“Ele é muito profundo, sente muita coisa. Essa coisa da superação e de precisar saber direcionar a energia, porque ele está ali sentindo a fúria e aquilo às vezes pode ajudá-lo a ganhar a luta, e às vezes pode afundá-lo”, afirma.

Esse controle da própria energia é justamente uma das questões centrais da trama. No universo de “Fúria”, a agressividade pode ser uma ferramenta para vencer, mas também pode fazer o personagem perder o controle e ultrapassar limites.

A série é protagonizada por Vinicius Neri e reúne nomes como Alice Carvalho, Bianca Comparato, Claudia Raia, Eduardo Moscovis, Fábio Lago, MC Cabelinho e Babu Santana.