(FOLHAPRESS) – Pode parecer contraditório que a primeira coisa que chama a atenção em “Splatoon Raiders” seja a sua falta de cor. As primeiras imagens do game não trazem os tons fluorescentes pelos quais a série de jogos “multiplayer” ficou conhecida, mas sim uma paisagem enevoada, perturbada pelas hélices do helicóptero onde estão os quatro protagonistas da aventura.

Logo, a aeronave é tragada para um redemoinho, e os personagens, agora náufragos, constroem uma base marítima para caçar tesouros nas ilhas vizinhas. A premissa é um tanto súbita, mas basta para introduzir o jogador neste que é o game de “Splatoon” centrado numa aventura solo em vez dos modos competitivos com várias pessoas.

Seguindo a lógica de um RPG de ação -com um personagem personalizável, armas e itens com diferentes níveis etc.-, a base da jogabilidade é a mesma. Na pele de um Inkling -uma lula colorida que toma a forma de uma criança-, o jogador pode usar armas que imitam rifles, metralhadoras e espingardas para atirar tinta pelo cenário. Para recarregar a munição, basta se transformar num molusco e mergulhar nos pigmentos para encher o tanque.

Foi essa a forma que a Nintendo encontrou de fazer um jogo de tiro, mas sem a violência habitual do gênero, e com uma pegada descolada para geração Z e, de certa forma, o público queer.

Em “Raiders”, agora há um mundo aparentemente maior, com diferentes arquipélagos onde os inimigos são os Salmonids, anfíbios agressivos que deixam um rastro de gordura por onde passam. Pegajosa, essa meleca anula a tinta e desacelera o personagem que caminha sobre ela.

O jogador terá a ajuda do trio do Deep Cut -composto pelas meninas Shiver e Frye, além da arraia Big Man- para navegar pelas Spirhalite Islands atrás de um tesouro lendário. “Spirhalite”, no caso, é um cristal que serve como moeda para aprimorar sua base e seus equipamentos.

E aqui convém pontuar o estranhamento de “Raiders” não ter tradução para o português, diferente dos últimos games do Nintendo Switch 2. Não que fosse ajudar muito, já que boa parte dos diálogos é enfadonha, mas é uma regressão.

Até o desafio final, será preciso ir de ilha em ilha, fase em fase, matando hordas de Salmonids, adentrando a névoa atrás de mais recursos para enfrentar inimigos cada vez mais fortes, no estilo “looter shooter”.

O jogador pode escolher e variar entre três tanques de tinta -privilegiando a força, a velocidade ou os ataques táticos. Cada um pode ser acoplado com dois acessórios extras, que permitem, por exemplo, dar uma machadada, um salto a longa distância ou invocar torres de artilharia -todas também aprimoráveis por um sistema de pontos.

Soma-se ainda uma coleção de relíquias -como efeitos como pulo duplo ou maior velocidade- e de armas, que incluem metralhadoras giratórias, arcos e inusitados pincéis e baldes. Apesar do tamanho deste catálogo, é difícil que o jogador saia da zona de conforto após se acostumar a um estilo.

Com controles competentes, parece a proposta ideal para quem não é adepto das partidas online e só quer aproveitar o charme de “Splatoon”. Mas o game demora a engrenar com uma sequência de introdução que dura mais de uma hora para explicar o básico.

As primeiras fases podem até parecer amplas, mas logo começam a se repetir com pequenas variações, com trajetos em linha reta e cenários vazios e genéricos, que só cumprem a função de encadear as batalhas. Há ainda pequenos níveis secundários usados para explicar o arsenal de habilidades, mas são dispensáveis.

O jogador é acompanhado de um robô parceiro, pilotado por um dos três amigos, que pode ajudá-lo a dar um salto grande ou usar uma habilidade especial mais forte -indispensável mais para o final do game, quando a dificuldade aperta. Quando estiver no aperto, aliás, o jogador pode também chamar amigos online para ajudar, incentivando um modo cooperativo online, apesar de não haver nenhuma opção local.

Há, felizmente, uma grande fauna de Salmonids, pequenos ou gordos, voadores, em formato de torre, que soltam jatos de meleca, usam armaduras ou metralhadoras. São os mais poderosos, aliás, que mais dão pontos -no formato de ovas alaranjadas-, que ajudam a avançar nas fases e a evoluir seu personagem.

Aos poucos, o jogo vai se assimilando a um “roguelite” –um game com uma sequência de desafios similares, gerados de forma procedural, cujo sabor é progredir continuamente. Mas a repetição logo se instala e “Raiders” começa a lembrar mais títulos como “Dynasty Warriors” do que um “Hades” da vida, quando põe o jogador para enfrentar hordas enormes de inimigos em que a melhor -talvez única- opção é partir para o modo mais agressivo.

Até porque as fases mais complicadas têm limite de tempo, numa sequência de desafios que exigem coletar um determinado número de ovas numa média de 70 a 90 segundos. Mesmo após o final do jogo, a opção é seguir repetindo as fases, agora em versões mais difíceis, além de mergulhar num poço de desafios ainda piores.

As primeiras reações do público e da crítica têm sido, apesar de tudo, positivas em maioria. Talvez um indício de que hoje se vence mais pelo excesso de estímulos do que pela originalidade. Mas, para outros jogadores, esses ciclos viciantes podem, depois de uma dezena de horas, não passar de uma experiência menos colorida do que parece.

SPLATOON RAIDERS

Avaliação Bom

Preço R$ 279,90

Onde jogar Nintendo Switch 2

Desenvolvedora Nintendo