(FOLHAPRESS) – A trajetória dos Strokes em seus álbuns, da vigorosa obra-prima de estreia “Is This it”, em 2001, ao sexto e fracote disco “The New Abnormal”, lançado há seis anos, mostra um grupo que tenta se desamarrar do sucesso inicial. Nem que para isso o quinteto tenha de fazer álbuns tão diferentes que não mostram nem um pouco do talento latente na banda.

Essa infrutífera busca por outra pérola roqueira foi acompanhada de inúmeras turnês dominadas por um desânimo crônico. Shows chatos e arrastados, prejudicados também por uma atitude blasé diante do público, só pioraram as coisas. Por isso que a participação deles no Coachella, há quatro meses, deixou todo mundo interessado no sétimo álbum, “Reality Awaits”. No palco do festival californiano, os Strokes voltaram a brilhar e mostrar gana para tocar.

Valeu a pena esperar pelo álbum recém-lançado? Mais ou menos. Nele, o grupo nova-iorquino não tenta reproduzir “Is This It” nem capitalizar sobre a nostalgia em torno de sua estreia. O disco expõe uma tentativa de ampliar a pegada experimental da fase recente da banda. Acaba soando irregular, mas no bom sentido.

Embora tenha momentos simplesmente eletrizantes, o novo trabalho traz menos refrães instantâneos e mais desvios, mudanças de textura e ideias estranhas, aparentemente incompatíveis, às vezes até dividindo a mesma faixa. Se os Strokes eram originalmente rarefeitos, com uma certa economia na arquitetura das canções, agora parecem um pouco o Voidz, projeto paralelo do vocalista Julian Casablancas.

Os riffs celebrados pelas guitarras entrelaçadas de Nick Valensi e Albert Hammond Jr. continuam atingindo forte quem escuta a nova safra de canções, e Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti entregam uma cozinha rítmica forte, quase marcial. É por causa deles que, mesmo nos momentos mais ousados de reformulação sonora, tudo ainda parece o Strokes em sua juventude.

“Psycho Shit” abre o disco com camadas etéreas e um crescendo de cinco minutos. Sem o riff forte para uma entrada triunfal fácil, o grupo prefere criar tensão. E tudo soa estranho na voz de Casablancas, que reconstrói seu canto num processamento sonoro descaradamente fake. Esse tratamento vocal percorre o álbum, e dele provavelmente vão sair reclamações pesadas de fãs que podem não gostar de um cantar deliberadamente artificial e com um falsete às vezes irritante.

Essa tensão entre espontaneidade e excesso define “Reality Awaits”. “Dine N’Dash” exibe pulsação de disco music, num paralelo com o que os Stones faziam em momentos dançantes nos anos 1970. Já que o nome dos Stones apareceu na discussão, o momento “Satisfaction” dos Strokes no álbum vem com “Going Shopping”, crítica ao capitalismo tardio e à produção destrutiva de bens descartáveis. Tem mais desilusão política em “Going to Babble On”, na qual os Strokes parecem chegar o mais próximo que conseguem ao criticar a apatia jovem de 2026.

Quem superar a barreira sonora que as mixagens excessivas causam no vocal de Casablancas pode até descobrir que as letras estão preocupadas com envelhecimento e insatisfação. “Lonely in the Future” parte para o confronto direto com críticos e fãs que não engolem os lances mais ousados do grupo. Ponto fraco do disco, parece uma inútil reclamação vinda de uma banda que sempre gravou o que deu na telha.

Por isso mesmo, há faixas que se enfraquecem na própria megalomania, perdidas em excesso de efeitos, como “Tyrants on the Mellow Moon”. Ainda assim, os Strokes definitivamente não estão acomodados. Quando as engrenagens se encaixam, as guitarras preservam sua elegância, a seção rítmica sustenta as mudanças mais estranhas e Casablancas encontra emoção. O lamento crescente de “Psycho Shit” e o ciclo de sofrimento narrado em “Liar’s Remorse” reforçam a capacidade do quinteto para combinar lamento e euforia.

“Reality Awaits” é deliberadamente esquisito. Mas a recusa de oferecer uma repetição confortável também lhe dá vitalidade. Sempre comparados a seus primeiros acordes, numa perseguição crítica de 25 anos, os Strokes respondem não olhando para trás, mas aceitando o risco de soar exagerados e até ridículos. Talvez seja o início de uma versão futura deles mesmos.

REALITY AWAITS

Avaliação Bom

Onde Disponível nas plataformas digitais

Gravadora Sony Music

Artista The Strokes