RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Após uma sequência de ataques de tubarão em Pernambuco, o estado anunciou a retomada do monitoramento dos animais no litoral, interrompido há mais de uma década. O projeto prevê a captura e a marcação de tubarões para acompanhar seus deslocamentos por meio de telemetria acústica.

Os trabalhos são desenvolvidos através do projeto Ecotuba, coordenado pela UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco). A previsão inicial divulgada pelo governo era de que as atividades começassem em junho. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Fernando de Noronha, nesta quinta-feira (16), as saídas de campo devem ocorrer até o início de agosto.

A etapa ainda depende, no entanto, da conclusão dos preparativos para as operações. Danielle Viana, doutora em oceanografia biológica e pesquisadora colaboradora da UFRPE, participou do monitoramento anterior e escreveu a proposta do novo projeto.

Segundo ela, ainda não há uma data definida para a primeira saída de campo. “Não existe uma data precisa nem para a saída-piloto. Acredito que ela pode acontecer entre os dias 10 e 20 de agosto, mas ainda não posso garantir, porque o barco precisa fazer alguns ajustes para que a gente tenha segurança e consiga embarcar um animal. O animal é muito grande, tem animais que chegam facilmente a 3 metros e meio”, afirmou.

O monitoramento será feito por meio de transmissores acústicos implantados nos tubarões e de hidrofones instalados em pontos estratégicos.

O transmissor emite sinais em intervalos regulares, que são captados pelos receptores quando o animal entra em seu raio de alcance. Os dados ficam registrados nos equipamentos e são posteriormente coletados pelos pesquisadores.

“Ele não é um microchip. É um transmissor acústico, que parece um batom, um pouco mais fino. A cada 90 segundos ele emite um pulso. Esse pulso é detectado pelos hidrofones, que são os receptores acústicos posicionados no local que a gente quer monitorar”, explicou Danielle.

Cada transmissor tem um número próprio. A partir dos registros de data, horário e local de detecção, os pesquisadores podem acompanhar os deslocamentos dos animais entre diferentes pontos.

O sistema previsto para o projeto não permite, porém, o acompanhamento em tempo real por parte das autoridades ou a emissão imediata de alertas para os banhistas. Para isso, seria necessário instalar uma estrutura de superfície capaz de transmitir os dados dos receptores submersos.

“Existe um sistema utilizado na Austrália com essa mesma tecnologia, mas é preciso manter uma boia. O receptor fica embaixo d’água e não consegue transmitir sozinho. É necessária uma estrutura na superfície para mandar essa informação. Esse sistema custa hoje em torno de R$ 100 mil e não há orçamento para isso”, disse.

Segundo Danielle, mesmo um sistema de transmissão em tempo real teria limitações, porque apenas animais que receberam transmissores poderiam ser identificados.

“Se um animal que não tem transmissor se aproximar, ele não vai ser detectado. Então, o sistema pode gerar uma falsa sensação de segurança, porque não temos como monitorar todos os animais. Tubarões são animais migratórios, estão sempre se deslocando”, afirmou.

O novo projeto tem investimento de cerca de R$ 1 milhão e duração de 24 meses. Segundo Danielle, os recursos serão usados para a contratação da embarcação, a aquisição de equipamentos e três bolsas de apoio à pesquisa.

O valor é inferior ao orçamento do monitoramento anterior, conforme a pesquisadora. Segundo ela, o programa que funcionou no litoral do Recife e da região metropolitana recebia cerca de R$ 1 milhão por ano.

O monitoramento anterior, conhecido como Protuba, foi coordenado pelo professor Fábio Hazin, falecido em 2021, e teve suas atividades interrompidas em Recife em 2014.

Questionada, a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Fernando de Noronha não informou o orçamento do projeto anterior e afirmou que se tratava de uma iniciativa de outra gestão.

A retomada do monitoramento ocorre em um ano marcado por uma sequência de incidentes com tubarões em Pernambuco.

Em maio, um menino de 11 anos foi atacado na praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e precisou amputar a perna esquerda. No mês seguinte, Marcela Vitória de Lima Santos, 19, foi atacada na praia de Boa Viagem, no Recife, e também teve uma perna amputada.

Pernambuco chegou a quatro ocorrências envolvendo tubarões nos primeiros cinco meses de 2026. O número igualou os totais registrados em 1998 e 2006 e fez de 2026 o ano com mais casos no estado desde então.

O governo estadual afirma que, entre 2023 e 2026, investiu cerca de R$ 5,5 milhões em ações de educação ambiental, pesquisa e monitoramento de incidentes com tubarões no litoral e em Fernando de Noronha. As atividades de monitoramento no arquipélago não foram interrompidas.