BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – Desejo de torcedores mundo afora, vitaminado em época de Copa do Mundo, o banimento do VAR é uma realidade na Suécia. A liga do país é a única entre os 30 maiores campeonatos europeus a abdicar da assistência de vídeo em todas suas divisões. E, até aqui, é difícil achar alguém que sinta falta.
VARgentina”, “análise forense”, “microscopia”, os termos variam nas redes sociais e nas transmissões do Mundial, mas a crítica em geral é a mesma: o VAR interrompe um esporte essencialmente dinâmico, mina a espontaneidade das arquibancadas e, no fim das contas, não elimina o risco de decisões consideradas parciais.
O Comitê Disciplinar da Fifa, inclusive, assim julgou uma delas. Os efeitos da expulsão de Folarin Balogun na partida EUA 2 x 0 Bósnia foram revertidos após um telefonema de Donald Trump a Gianni Infantino, presidente da Fifa.
Diante da magnitude do escândalo, virou detalhe o fato de o árbitro brasileiro Raphael Claus só ter mostrado o cartão vermelho ao atacante americano após intervenção do VAR.
Julgamentos retrospectivos como esse não existem na Suécia, mas o veto não saiu de uma mesa formada por cartolas. Durante a pandemia, uma discussão sobre a adoção definitiva da arbitragem assistida suscitou, como em outros países, um movimento de torcedores contra a tecnologia.
A diferença, no caso, é que o protesto foi ouvido graças a uma peculiaridade do futebol sueco: por lei, os clubes do país precisam ser comandados por seus associados, mesmo que por maioria simples (tanto que a legislação se chama “50% mais um”).
Na última discussão sobre o assunto, suscitada pelo presidente da Federação Sueca de Futebol, em 2024, mais da metade dos clubes das primeira e da segunda divisão do país reiteraram o voto contra o VAR, refletindo o sentimento majoritário de associados e torcedores.
O veto teria voltado a ser debatido após pressão da Uefa, a entidade que controla o futebol na Europa e exige o VAR em jogos de seus campeonatos disputados no país.
Um ano antes, a resistência ao sistema havia capitulado na vizinha Noruega, a despeito da oposição de dezenas de torcidas organizadas. Protestar contra o VAR é quase um esporte à parte nas arquibancadas europeias, independentemente do tamanho do torneio.
Na Alemanha, em março, um torcedor mascarado invadiu o campo e desligou o terminal que fica à beira do gramado na hora em que seria usado pelo árbitro para verificar um pênalti. O ato, durante Münster 1 x 2 Hertha Berlin, pela segunda divisão, foi considerado planejado, pois um cartaz na torcida pregava antes do jogo “Tire o VAR da tomada”.
Faixas contra a arbitragem por vídeo são comuns também na Bundesliga, a primeira divisão alemã, quando os jogos são paralisados pelo sistema. Em uma partida do Augsburg, em janeiro, uma delas sentenciava: “Futebol com VAR é uma corrida de cavalos com burros”.
A mais recente onda de decisões “microscópicas” nas diversas ligas do continente fez o chefe de arbitragem da Uefa se manifestar. “Acredito que esquecemos a razão pela qual o VAR foi introduzido”, declarou Roberto Rosetti, em fevereiro.
Os clubes também não parecem satisfeitos com o sistema. A TV do Real Madrid, por exemplo, tem um programa semanal específico para discutir decisões da arbitragem. A própria Uefa disponibiliza em seu site os vídeos que embasam decisões do VAR na Champions e em outras competições europeias para tentar aplacar as críticas.
“Sempre haverá um elemento de subjetividade em algumas decisões”, afirmou Pierluigi Collina, chefe da comissão de arbitragem da Fifa, sobre as diversas queixas relacionadas ao sistema no Mundial realizado nos EUA, no Canadá e no México. “Porém estamos satisfeitos com a maneira que esse princípio foi aplicado ao longo do torneio”.
Em entrevista ao jornal The Wall Street Journal, Svante Samuelsson, diretor esportivo da liga sueca, quase repete Collina, mas com uma diferença fundamental. “Não existe justiça 100%. Mesmo com o VAR, você precisa tomar uma decisão ao assistir ao vídeo.”




