Da Redação

Os Estados Unidos realizam nesta terça-feira, 3 de novembro, eleições legislativas que podem alterar o equilíbrio político do país e reduzir o poder de articulação do presidente Donald Trump. Embora não esteja concorrendo a nenhum cargo, o republicano terá sua administração diretamente impactada pelo resultado das chamadas eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, que definirão a composição do Congresso para os próximos dois anos.

Mais de 50 milhões de americanos já participaram da votação antecipada. Neste pleito, serão renovadas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 das 100 vagas do Senado e os governos de 36 estados, além de três territórios americanos.

O Partido Democrata aparece em posição favorável para conquistar a maioria na Câmara, enquanto a disputa pelo Senado também representa uma ameaça ao domínio republicano. Atualmente, os aliados de Trump possuem 218 cadeiras na Câmara, contra 214 dos democratas, além de um parlamentar independente e duas vagas desocupadas. No Senado, os republicanos contam com 53 dos 100 assentos.

Uma eventual vitória democrata em uma ou nas duas casas legislativas poderá dificultar a aprovação de projetos defendidos pela Casa Branca, ampliar a fiscalização sobre o governo e limitar a capacidade de Trump de avançar com sua agenda política.

Popularidade de Trump influencia disputa

O desempenho eleitoral dos republicanos também será influenciado pela avaliação dos americanos sobre o governo Trump. Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na segunda-feira, 2 de novembro, apontou que apenas 32% dos entrevistados aprovam a administração do presidente, índice próximo do menor registrado durante seu atual mandato.

A avaliação negativa pode prejudicar os candidatos republicanos, principalmente nas disputas mais equilibradas. Historicamente, as eleições de meio de mandato funcionam como uma espécie de avaliação do governo federal, permitindo que os eleitores demonstrem aprovação ou insatisfação com as decisões presidenciais.

Mesmo sem disputar diretamente as vagas, Trump se tornou uma das principais figuras da campanha. O resultado poderá indicar o nível de sustentação popular de suas políticas e a capacidade de seu partido de manter o controle do Legislativo.

Democratas têm vantagem nas projeções

As estimativas eleitorais divulgadas nas últimas semanas apontam maior possibilidade de os democratas recuperarem o controle da Câmara dos Representantes.

Uma projeção do centro de estudos políticos da Universidade da Virgínia, divulgada em outubro, indicou que o partido poderia conquistar 223 cadeiras, contra 200 dos republicanos. Outras 12 disputas permaneciam indefinidas.

Já a plataforma Race to the White House apresentou uma estimativa de 234 representantes democratas e 201 republicanos, atribuindo 88,9% de probabilidade de vitória da oposição no controle da Câmara.

No Senado, a disputa aparece mais equilibrada. A mesma plataforma calculou em 72,9% a possibilidade de os democratas conquistarem a maioria, com uma composição estimada entre 52 e 53 parlamentares.

Para assumir o controle da Casa, os democratas precisam conquistar pelo menos 51 cadeiras. Os republicanos, entretanto, podem manter a maioria com 50 senadores, já que o vice-presidente J.D. Vance possui o poder de desempatar votações.

Entre os estados que concentram atenção na disputa pelo Senado estão Maine, Iowa, Michigan, Alasca, Kansas, Ohio e Texas.

Governadores também serão eleitos

Além da renovação do Congresso, os americanos escolherão governadores em 36 estados. A votação também contempla três territórios: Guam, Ilhas Virgens Americanas e Ilhas Marianas do Norte.

Entre as disputas estaduais consideradas mais competitivas estão as do Alasca, Geórgia, Ohio, Oregon, Nevada e Wisconsin.

Os resultados poderão influenciar a organização política dos partidos em âmbito regional e nacional, além de servir como referência para a construção de estratégias visando à eleição presidencial de 2028.

Campanhas movimentam bilhões de dólares

A disputa pelo controle do Congresso também envolve investimentos expressivos em publicidade, mobilização de eleitores e financiamento de candidaturas.

Dados da Comissão Eleitoral Federal, compilados pela emissora NPR, indicam que as campanhas arrecadaram mais de US$ 15 bilhões, aproximadamente R$ 75 bilhões.

Os democratas conseguiram arrecadar mais recursos diretamente em 27 das 35 disputas pelo Senado. Apesar disso, organizações externas alinhadas aos republicanos também possuem grandes reservas financeiras para apoiar candidatos e financiar ações eleitorais.

Segundo informações da Associated Press, grupos associados a Trump reuniam aproximadamente US$ 1 bilhão para investimentos nas eleições. Organizações ligadas aos democratas, por sua vez, contavam com cerca de US$ 579 milhões.

Entre os principais financiadores republicanos está o empresário Elon Musk, que destinou US$ 158 milhões ao Senate Leadership Fund, organização voltada ao apoio de candidatos do partido ao Senado.

O próprio Trump também anunciou a intenção de direcionar mais de US$ 400 milhões para fortalecer as candidaturas republicanas.

Voto pelo correio e distritos eleitorais geram controvérsias

As regras do processo eleitoral também se tornaram motivo de disputa entre republicanos e democratas. Trump defende medidas mais rigorosas para o voto por correspondência, sob o argumento de combater possíveis irregularidades.

Em março, o presidente assinou um decreto que estabelecia novas exigências para a identificação dos eleitores. Parte das medidas, entretanto, foi questionada judicialmente por estados e organizações que atuam na defesa dos direitos eleitorais.

Em setembro, a Suprema Corte manteve o bloqueio de uma regra que pretendia estabelecer novas exigências para o envio de cédulas pelo serviço postal.

Outro ponto de tensão envolve o redesenho dos distritos eleitorais, processo que pode modificar as chances de cada partido conquistar cadeiras na Câmara dos Representantes.

No Texas, mudanças aprovadas em 2025 ampliaram as possibilidades eleitorais dos republicanos. Em resposta, a Califórnia adotou alterações que podem favorecer os democratas.

A disputa demonstra como as regras de organização dos distritos também se tornaram estratégicas para o equilíbrio de forças no Congresso americano.

Apuração pode levar vários dias

Diferentemente do Brasil, os Estados Unidos não possuem uma autoridade eleitoral nacional responsável por centralizar a apuração. Cada estado administra seu próprio processo de votação, contagem e divulgação dos resultados.

As primeiras projeções devem começar a aparecer na noite desta terça-feira, conforme as seções eleitorais forem encerradas em diferentes regiões do país.

Entretanto, a definição do partido que controlará a Câmara e o Senado poderá levar vários dias, especialmente em disputas apertadas e devido à contagem dos votos enviados pelo correio.

Os parlamentares eleitos assumirão seus mandatos em janeiro de 2027. A partir desse momento, o governo Trump poderá enfrentar um Congresso mais resistente às propostas da Casa Branca ou manter uma maioria republicana que facilite a aprovação de sua agenda.

O resultado será determinante para os últimos dois anos do mandato presidencial, que termina em janeiro de 2029, e poderá influenciar diretamente a capacidade de articulação política de Trump até o fim de seu governo.