A viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL) aos Estados Unidos, após deixar o Brasil em meio a restrições judiciais, passou a ser questionada também no Congresso americano. Um grupo de 25 deputados do Partido Democrata enviou uma carta ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, solicitando esclarecimentos sobre uma possível participação do governo de Donald Trump na saída do parlamentar brasileiro do país e em sua entrada em território norte-americano.

O documento foi encaminhado na quinta-feira, 29 de outubro, e estabelece o dia 13 de novembro como prazo para que o Departamento de Estado apresente respostas. Os congressistas querem saber se autoridades americanas ofereceram algum tipo de suporte diplomático, financeiro ou logístico para viabilizar a viagem de Flávio e de seus familiares.

A iniciativa é liderada pelas deputadas Sydney Kamlager-Dove, da Califórnia, e Dina Titus, de Nevada. Entre os signatários estão integrantes do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.

Um dos principais pontos levantados pelos democratas é a possível relação entre a viagem e uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), que exigia a entrega dos passaportes de Flávio Bolsonaro e estabelecia restrições à sua saída do Brasil.

Os parlamentares querem esclarecer se o governo americano tinha conhecimento prévio da decisão judicial e se alguma autoridade dos Estados Unidos verificou a situação jurídica do senador antes de autorizar ou facilitar sua entrada no país.

Parlamentares questionam possível apoio da administração Trump

A cobrança ocorre após informações divulgadas pela imprensa internacional apontarem para uma possível participação de pessoas ligadas ao governo americano na organização da viagem do senador.

Entre os pontos mencionados na carta está a suspeita de que o deslocamento em uma aeronave particular tenha sido financiado ou organizado por terceiros nos Estados Unidos. Os deputados também querem saber se representantes da Casa Branca, da Embaixada americana no Brasil ou do Departamento de Estado mantiveram contato com Flávio, seus familiares, advogados, assessores políticos ou intermediários para organizar a chegada aos Estados Unidos.

Outro questionamento envolve a concessão de vistos. Os congressistas pedem informações sobre uma eventual emissão, renovação ou aprovação acelerada de documentos migratórios para o senador e seus familiares, além dos critérios utilizados pelas autoridades americanas para permitir a entrada do grupo.

A carta também solicita esclarecimentos sobre a possibilidade de funcionários do governo Trump terem auxiliado na organização de voos, transporte, documentação de viagem, acesso a aeroportos e agendamentos consulares.

Os democratas querem ainda saber se as investigações criminais envolvendo Flávio Bolsonaro no Brasil foram consideradas durante a análise de sua entrada nos Estados Unidos.

Carta apresenta 15 questionamentos ao Departamento de Estado

Ao todo, o documento reúne 15 perguntas direcionadas ao Departamento de Estado. Além da eventual participação de autoridades americanas na viagem, os parlamentares procuram identificar se houve articulação com representantes dos Estados Unidos na Argentina e no Equador, países relacionados ao itinerário utilizado pelo senador.

Os congressistas também questionam se o governo americano coordenou procedimentos com outros órgãos federais, como o Departamento de Segurança Interna, o Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras e o Serviço de Cidadania e Imigração.

Outro ponto envolve a possibilidade de o Departamento de Justiça ter sido consultado sobre as implicações legais de permitir a entrada de uma figura política estrangeira que estaria submetida a uma determinação judicial em seu país de origem.

Na avaliação apresentada pelos parlamentares, uma eventual assistência do governo americano poderia provocar questionamentos diplomáticos e ser interpretada como interferência em procedimentos judiciais brasileiros.

A carta também pergunta se o Departamento de Estado recebeu alguma solicitação das autoridades brasileiras sobre a localização de Flávio Bolsonaro, sua situação migratória ou sua entrada em território americano. Caso tenha recebido, os democratas querem saber qual foi a resposta apresentada pelo governo dos Estados Unidos.

Além das explicações por escrito, os deputados solicitaram que funcionários do Departamento de Estado participem de uma reunião com assessores do Congresso para detalhar os procedimentos adotados.

Deputados defendem transparência sobre a atuação americana

No documento, os parlamentares afirmam que o Congresso e a população dos Estados Unidos têm interesse legítimo em fiscalizar se recursos diplomáticos e migratórios do país foram utilizados para facilitar a viagem de uma personalidade política estrangeira em circunstâncias que envolvem uma decisão judicial.

Os democratas também destacam que a transparência é necessária diante da sensibilidade das relações entre Brasil e Estados Unidos e dos possíveis impactos diplomáticos do episódio.

A carta foi assinada por 25 deputados, entre eles Sydney Kamlager-Dove, Dina Titus, Greg Casar, Jasmine Crockett, Pramila Jayapal, Rashida Tlaib, James McGovern, Joaquin Castro e Gabe Amo.

A iniciativa amplia a repercussão internacional da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil e coloca a administração de Donald Trump diante de questionamentos sobre a possível utilização de estruturas oficiais para facilitar o deslocamento do senador.

Até o momento, os questionamentos apresentados pelos parlamentares não comprovam que o governo americano tenha participado diretamente da viagem. O objetivo da solicitação é esclarecer se houve envolvimento de autoridades dos Estados Unidos, quais procedimentos foram adotados e qual foi a fundamentação legal para a eventual assistência concedida ao senador e aos familiares.