Aproximadamente 251,6 mil pessoas em Goiás podem desenvolver retinopatia diabética, uma complicação associada ao diabetes que pode provocar danos à retina e comprometer a visão. A estimativa considera que cerca de 35% dos pacientes diagnosticados com a doença apresentam risco de desenvolver essa condição.

No Brasil, o número de pessoas potencialmente afetadas se aproxima de 2 milhões. Diante desse cenário, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) prepara a campanha “24 Dias pelo Diabetes”, que começa em 1º de novembro. A iniciativa pretende ampliar o acesso à informação e conscientizar a população sobre os riscos da doença, com divulgação de conteúdos em plataformas de grande alcance.

Em Goiás, o Centro de Referência em Oftalmologia da Universidade Federal de Goiás (CEROF/UFG), em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde, desenvolve um levantamento para identificar a distribuição e a incidência da retinopatia diabética no território estadual. O trabalho deve contribuir para o conhecimento da dimensão do problema e para o planejamento de medidas de prevenção e enfrentamento.

O CEROF realiza mensalmente cerca de 5 mil consultas e 900 atendimentos de urgência. Parte dessa demanda envolve pacientes que apresentam complicações relacionadas ao diabetes.

De acordo com o presidente do centro, o oftalmologista Marcos Ávila, um dos principais desafios no combate à retinopatia diabética é que a condição pode permanecer sem sintomas durante boa parte de sua evolução. Mesmo pessoas que enxergam normalmente podem apresentar alterações na retina, identificadas apenas por meio de exames oftalmológicos.

Quando a doença avança, podem surgir sinais como visão embaçada, imagens distorcidas, manchas escuras no campo visual e, em situações mais graves, perda significativa da capacidade de enxergar.

Entre os principais fatores que aumentam o risco de desenvolvimento e agravamento da condição estão o tempo de convivência com o diabetes, o descontrole dos níveis de glicose no sangue, a pressão arterial elevada, alterações no colesterol e problemas na função dos rins.

A retinopatia diabética pode começar com alterações iniciais nos vasos sanguíneos da retina e evoluir para quadros mais graves, caracterizados pela formação de vasos anormais, hemorragias e até descolamento da retina. Outra complicação possível é o edema macular diabético, que atinge a região central da visão e pode aparecer em diferentes fases da doença.

Tratamentos e prevenção ajudam a preservar a visão

Apesar dos riscos, existem tratamentos capazes de controlar a evolução da retinopatia diabética e reduzir os danos à visão. Entre as alternativas estão as aplicações intraoculares de medicamentos anti-VEGF, a fotocoagulação a laser e, nos casos mais complexos, a cirurgia vitreorretiniana.

Os medicamentos anti-VEGF atuam na redução da formação de vasos sanguíneos anormais na retina. Já a fotocoagulação utiliza aplicações de laser para produzir pequenas cicatrizes controladas, contribuindo para conter a progressão da doença.

Segundo Marcos Ávila, a recuperação da visão também pode ocorrer de maneira parcial ou significativa, desde que não tenha acontecido uma destruição irreversível do tecido da retina. Por isso, o diagnóstico precoce e o acompanhamento médico são considerados fundamentais.

O Conselho Brasileiro de Oftalmologia recomenda que pessoas com diabetes realizem consultas oftalmológicas periódicas e mantenham os níveis de glicose e a pressão arterial sob controle. Essas medidas ajudam a diminuir as chances de desenvolvimento da retinopatia e podem retardar sua progressão.

A importância do controle glicêmico também é demonstrada por estudos clínicos internacionais. No Diabetes Control and Complications Trial (DCCT), pesquisa voltada a pacientes com diabetes tipo 1, cada redução de um ponto percentual na hemoglobina glicada esteve associada a uma diminuição de aproximadamente 35% no risco de desenvolver retinopatia diabética e de 20% na possibilidade de progressão da doença.

No estudo United Kingdom Prospective Diabetes Study (UKPDS), realizado com pacientes com diabetes tipo 2, a mesma redução na hemoglobina glicada foi relacionada a uma queda de cerca de 37% no risco de surgimento da complicação. A pesquisa também identificou que a redução de 10 mmHg na pressão arterial sistólica diminuiu em aproximadamente 34% o risco de agravamento da condição.

Além do acompanhamento médico, mudanças na alimentação e na rotina também podem contribuir para a prevenção. Entre as recomendações estão aumentar o consumo de alimentos ricos em fibras, como aveia, feijão, lentilha e arroz integral, além de incluir verduras e legumes nas refeições.

Também é indicado reduzir a ingestão de açúcar, sal, embutidos e alimentos ultraprocessados. Evitar o cigarro e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, manter o peso adequado, dormir bem e reservar momentos para descanso e lazer são outras medidas que ajudam na manutenção da saúde.

A orientação dos especialistas é que pessoas com diabetes não esperem o aparecimento de alterações na visão para procurar atendimento oftalmológico. Como a retinopatia pode evoluir silenciosamente, os exames regulares são essenciais para identificar o problema antes que ocorram danos mais graves.