O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) protagonizaram, neste domingo (18), o primeiro debate presidencial televisionado entre os dois candidatos no segundo turno das eleições de 2026. Transmitido pela Band, o encontro foi marcado por acusações de corrupção, provocações pessoais, questionamentos sobre familiares e cobranças que ficaram sem respostas diretas.

Entre os momentos de maior repercussão estiveram a declaração de Lula, que chamou o adversário de “malandro carioca”, as cobranças sobre os recursos negociados para financiar o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, e a presença do senador Deltan Dallagnol (Novo), que acompanhou o debate usando uma camiseta com críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Lula chama Flávio de “malandro carioca”

Um dos episódios mais comentados ocorreu quando Flávio Bolsonaro acusou o governo federal de gastar R$ 7 bilhões com a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja.

Ao responder à declaração, Lula contestou o valor apresentado pelo adversário e afirmou que o senador estaria distorcendo informações para atacar o governo.

“Você veja que essa carinha boa dele é de um mentiroso contumaz. É o malandro carioca, que finge que não finge e mente descaradamente. Conta”, declarou o presidente.

A expressão foi retomada por Flávio no início do segundo bloco. O senador afirmou que se solidarizava com os moradores do Rio de Janeiro, argumentando que a fala de Lula atingia a população do estado.

“Eu só quero aqui me solidarizar com todos os meus irmãos e irmãs do Rio de Janeiro que foram aqui chamados de malandros pelo meu concorrente”, afirmou.

O episódio se tornou um dos principais momentos de confronto pessoal do debate, com os dois candidatos utilizando a declaração para reforçar suas críticas mútuas.

Financiamento do filme Dark Horse domina confronto

Outro assunto que apareceu repetidamente foi o financiamento de Dark Horse, produção cinematográfica sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

Lula questionou Flávio sobre os R$ 134 milhões relacionados a negociações com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para viabilizar o filme. O presidente cobrou explicações sobre a origem dos recursos e o destino do dinheiro.

O senador respondeu que os valores foram destinados à produção cinematográfica, mas não apresentou, durante o confronto, um detalhamento completo do percurso dos recursos.

“Já expliquei várias vezes. Vou explicar quanto for necessário”, afirmou Flávio.

O tema ganhou relevância porque a captação de recursos para o filme também é alvo de questionamentos e investigações. Flávio nega irregularidades relacionadas ao projeto.

Camiseta de Deltan Dallagnol chama atenção

A participação de Deltan Dallagnol entre os presentes também repercutiu. O senador eleito pelo Paraná, ligado ao partido Novo, vestia uma camiseta com a frase “Eu prendi o Lula, STF soltou”.

A estampa trazia ainda uma reprodução da apresentação em PowerPoint utilizada por Dallagnol em 2016, quando ele era procurador da República e atuava na Operação Lava Jato. Na ocasião, o então procurador apresentou Lula como figura central de um suposto esquema criminoso.

Posteriormente, Dallagnol foi condenado a pagar R$ 146 mil de indenização ao presidente por danos morais relacionados à apresentação. O caso envolveu a associação pública do nome de Lula à liderança de uma organização criminosa.

A camiseta retomou o embate político e judicial entre o presidente e o ex-procurador, que se tornou uma das figuras mais conhecidas da Lava Jato e, posteriormente, ingressou na política.

Debate teve acusações envolvendo familiares

Além dos episódios mais comentados, Lula e Flávio trocaram acusações relacionadas a familiares e a suspeitas de irregularidades.

O senador citou Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e a lobista Roberta Luchsinger, que aparece em apurações sobre possíveis irregularidades envolvendo o INSS. Flávio questionou a relação entre os dois e cobrou explicações do presidente.

Lula respondeu que eventuais irregularidades devem ser investigadas pelas autoridades competentes e afirmou que seu filho não está acima da lei.

O presidente também mencionou Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal e irmão de Flávio, que vive nos Estados Unidos. Lula acusou Eduardo de atuar em favor de interesses estrangeiros contra o Brasil e criticou iniciativas que, segundo ele, buscam estimular a interferência do governo norte-americano no país.

Os dois candidatos utilizaram as suspeitas envolvendo familiares como instrumento de ataque político, ampliando o tom de confronto ao longo do programa.

Escala 6×1 e economia também entraram na discussão

A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 estiveram entre os assuntos abordados. Lula questionou o posicionamento de Flávio Bolsonaro sobre a proposta e tentou esclarecer se o senador pretende manter a medida caso seja eleito.

Flávio afirmou que percorreu o país ouvindo trabalhadores e reconheceu a demanda por mais tempo de descanso. Ao mesmo tempo, relacionou a discussão sobre a folga adicional à situação da segurança pública, argumentando que trabalhadores precisam ter condições de aproveitar o tempo livre sem medo da violência.

Na área econômica, Lula criticou a admiração de Flávio pelo presidente argentino Javier Milei e questionou os resultados das políticas adotadas no país vizinho, especialmente em relação à pobreza.

Flávio, por sua vez, rebateu as críticas mencionando as relações diplomáticas de Lula com líderes estrangeiros, incluindo Daniel Ortega, da Nicarágua, e Nicolás Maduro, da Venezuela.

O confronto mostrou que, além das denúncias e dos ataques pessoais, a economia e as referências internacionais foram utilizadas pelos candidatos para questionar as propostas e as alianças políticas do adversário.

Lula propõe abertura de sigilos

Em outro momento de tensão, Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir informações bancárias e telefônicas para que as movimentações financeiras dos dois fossem examinadas.

A proposta foi apresentada como uma forma de esclarecer acusações relacionadas a possíveis irregularidades. Lula também afirmou que estaria disposto a incluir informações de familiares no procedimento.

O desafio ocorreu em meio às cobranças sobre o financiamento do filme Dark Horse e às acusações envolvendo integrantes das famílias dos dois candidatos.

A troca de provocações, no entanto, não resultou em um acordo formal entre os adversários para a abertura dos sigilos durante o debate.

Primeiro confronto foi marcado por poucas propostas

O debate da Band foi o primeiro encontro direto entre Lula e Flávio Bolsonaro nesta campanha presidencial. O programa ocorreu a uma semana do segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Ao longo da transmissão, os candidatos priorizaram críticas pessoais, acusações de corrupção e questionamentos sobre familiares. Temas como segurança pública, economia, saúde e relações internacionais também apareceram, mas dividiram espaço com os embates políticos.

O confronto terminou sem que as principais acusações apresentadas pelos candidatos fossem esclarecidas de maneira conclusiva durante o programa.

Com a eleição na reta final, o desempenho de Lula e Flávio no debate passou a integrar a disputa pela preferência dos eleitores, especialmente daqueles que ainda não decidiram o voto.