O advogado Gustavo Rocha, escolhido como candidato a vice-governador na chapa de Celina Leão (PP) nas eleições de 2026 no Distrito Federal, chega à disputa com uma trajetória diretamente ligada à administração de Ibaneis Rocha (MDB).

Rocha comandou a Casa Civil do Distrito Federal entre junho de 2020 e abril de 2026. Antes de deixar o cargo para disputar as eleições, também ocupou outras funções na administração pública federal durante o governo Michel Temer.

A relação com a gestão Ibaneis também envolve sua esposa, Marcela Passamani, que integrou o governo do Distrito Federal por cerca de seis anos e deixou a Secretaria de Justiça e Cidadania em março deste ano.

A escolha de Gustavo para compor a chapa de Celina consolidou a aproximação entre diferentes setores da administração anterior. A candidatura de Celina foi oficializada pelo PP em agosto, com Gustavo Rocha como vice.

Escritório ligado a Gustavo recebeu pagamentos de empresas

Enquanto Gustavo Rocha estava à frente da Casa Civil, o escritório de advocacia que mantinha com Marcela Passamani passou a ser administrado pelo advogado Engels Augusto Muniz.

Entre 2023 e 2026, a sociedade individual de advocacia de Engels emitiu 193 notas fiscais que totalizam R$ 56,4 milhões para duas empresas que possuem contratos com o governo do Distrito Federal.

A maior parte dos pagamentos veio da Auto Viação Marechal, empresa responsável pela operação de parte do transporte coletivo do DF. Foram 121 notas fiscais, que somaram R$ 43,4 milhões.

Outros R$ 13 milhões foram pagos pela Sustentare Saneamento, empresa responsável por serviços de coleta de lixo em parte do Distrito Federal. Nesse caso, foram 72 notas fiscais.

Os documentos descrevem os serviços de maneira genérica, utilizando expressões como “serviços jurídicos”, “serviços advocatícios” e “advocacia”.

Os valores foram pagos ao escritório administrado por Engels, e não diretamente a Gustavo Rocha. As empresas afirmam que os pagamentos correspondem a serviços jurídicos efetivamente realizados.

Contrato com empresa de transporte

Dos R$ 56,4 milhões identificados, R$ 43,4 milhões estão relacionados à Auto Viação Marechal.

Entre as notas fiscais emitidas estão cinco que, juntas, alcançam R$ 19,7 milhões. Uma delas, emitida em fevereiro de 2025, tinha valor de R$ 6,3 milhões. Outra nota, emitida na mesma data, registrava R$ 3,8 milhões.

No período em que Engels administrava o escritório ligado a Gustavo Rocha e Marcela Passamani, o governo do Distrito Federal também prorrogou por dez anos o contrato da Marechal para operar o transporte coletivo.

Em junho deste ano, entretanto, o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) impediu uma nova extensão dos prazos para renovação da frota da empresa e determinou que a Secretaria de Transporte aplicasse as sanções previstas no contrato caso as obrigações não fossem cumpridas.

Dados apresentados no processo indicavam que parte dos ônibus da companhia estava acima da idade máxima estabelecida.

O governo do Distrito Federal afirmou que outras três empresas tiveram seus contratos prorrogados no mesmo período e que esses procedimentos não passaram pela Casa Civil. O contrato original da Marechal havia sido firmado antes do início da administração de Ibaneis.

Sustentare também contratou advogado

A segunda empresa que aparece nos documentos é a Sustentare Saneamento.

Desde 2023, o escritório individual de Engels Augusto Muniz emitiu 72 notas fiscais para a empresa, totalizando R$ 13 milhões.

Em janeiro de 2024, enquanto ainda administrava o escritório de Gustavo Rocha e Marcela Passamani, Engels representou a Sustentare em uma ação no Tribunal de Contas do Distrito Federal.

Na ocasião, uma decisão cautelar suspendeu um procedimento relacionado à cobrança de valores que o Serviço de Limpeza Urbana considerava pagos de forma indevida.

Relação entre Gustavo Rocha e Engels é anterior ao governo Ibaneis

A parceria profissional entre Gustavo Rocha e Engels Muniz começou antes da chegada dos dois ao governo do Distrito Federal.

Durante a gestão de Michel Temer, Rocha assumiu a Subchefia para Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República, em 2016. Engels foi nomeado chefe de gabinete.

Dois anos depois, quando Gustavo Rocha passou a comandar o Ministério dos Direitos Humanos, Engels assumiu a Secretaria-Executiva da pasta.

A relação profissional continuou no Distrito Federal. Em 2020, Engels passou a administrar o escritório que tinha Gustavo Rocha e Marcela Passamani como sócios.

Segundo Gustavo Rocha, a escolha ocorreu porque ele estava impedido de exercer a advocacia enquanto ocupava cargo público. O candidato afirma que o escritório estava inativo e que a administração por Engels tinha como objetivo manter o CNPJ da empresa.

Engels, por sua vez, afirma que nunca foi sócio de Gustavo Rocha e que administrou o escritório sem receber remuneração.

Empresas negam irregularidades

A existência dos pagamentos não significa, por si só, que Gustavo Rocha tenha recebido os valores ou participado das contratações.

Engels afirma que prestou serviços jurídicos para as duas empresas e que atuou em mais de 300 processos judiciais envolvendo a Marechal e a Sustentare. Segundo ele, os trabalhos incluíram processos no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, no Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região e no Superior Tribunal de Justiça.

A Auto Viação Marechal declarou que mantém relação profissional com o escritório desde 2023 e que os pagamentos correspondem a serviços efetivamente prestados. A empresa também afirmou que a contratação ocorreu por meio de uma seleção conduzida por uma empresa especializada.

A Sustentare apresentou posicionamento semelhante e informou que Engels atua em processos considerados estratégicos, inclusive em tribunais superiores.

Advogado também aparece em caso envolvendo Banco Master

A relação entre Gustavo Rocha e Engels Muniz já havia sido mencionada durante a campanha eleitoral por causa de pagamentos relacionados ao Banco Master.

Levantamentos anteriores apontaram que o Banco Master e a Reag realizaram pagamentos que totalizaram R$ 7,3 milhões a Engels entre 2024 e 2025.

Também foram divulgadas informações sobre pagamentos de R$ 3 milhões realizados pelo Banco Master e por Daniel Vorcaro ao advogado.

Gustavo Rocha afirma que nunca prestou serviços ao Banco Master ou a Vorcaro e nega que Engels tenha sido seu sócio.

Em setembro, o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal determinou a retirada de uma publicação de José Roberto Arruda que atribuía diretamente a Gustavo Rocha o recebimento de R$ 6,3 milhões de Vorcaro. A decisão destacou que o pagamento havia sido destinado à sociedade individual de Engels, e não ao escritório de Gustavo Rocha.

Escolha de Gustavo para a chapa

A campanha de Celina Leão e Gustavo Rocha afirma que a escolha do advogado como candidato a vice ocorreu por critérios políticos e administrativos.

A chapa reúne partidos de diferentes setores da direita e centro-direita e foi oficializada para a disputa pelo governo do Distrito Federal em 2026.

Com a escolha, Gustavo Rocha passou a integrar diretamente a disputa eleitoral ao lado de Celina, após quase seis anos em posições de destaque na administração de Ibaneis Rocha.

A trajetória do candidato, sua relação profissional com Engels Muniz e os contratos mantidos pelo advogado com empresas que possuem vínculos com o governo do Distrito Federal passaram a fazer parte do debate eleitoral.

Os documentos citados nas reportagens registram os pagamentos e as relações profissionais, mas não estabelecem, por si só, que Gustavo Rocha tenha participado das contratações ou recebido os valores