Alexandre Bruno de Barros afirma que alertou órgãos sobre falta de estrutura para armazenar mercadorias e diz ter revogado autorizações para uso de depósitos particulares

Afastado cautelarmente por 90 dias, o delegado da Polícia Civil de Goiás Alexandre Bruno de Barros negou participação em um suposto esquema de desvio de mercadorias apreendidas enquanto esteve à frente da Delegacia Estadual de Repressão a Furtos e Roubos de Cargas (Decar). Por meio da defesa, ele apresentou documentos que, segundo sustenta, demonstram que havia solicitado providências para solucionar problemas relacionados ao armazenamento dos materiais recuperados.

O caso ganhou repercussão após uma operação que investiga o possível desvio de cargas, incluindo vergalhões de aço de alto valor. Alexandre Bruno afirma que o uso de depósitos particulares ocorreu devido à falta de espaço e de estrutura pública adequada para manter os bens apreendidos.

O delegado também destacou que deixou o comando da Decar há cerca de quatro anos e afirmou não ter sido responsável pelo inquérito relacionado à apreensão da carga de aço que aparece nas investigações.

Delegado, escrivão e agente foram afastados

O afastamento cautelar de Alexandre Bruno, de um escrivão e de um agente da Polícia Civil foi determinado em 13 de julho. Os três são investigados por suspeita de participação em um esquema que teria envolvido o desvio e a posterior revenda de cargas apreendidas durante ações policiais.

Entre os materiais investigados está uma carga de vergalhões de aço avaliada em aproximadamente R$ 1,5 milhão. O material havia sido apreendido durante a Operação Fogo Amigo, realizada em 2021.

A apuração busca esclarecer se mercadorias recuperadas foram encaminhadas para galpões particulares e, posteriormente, comercializadas de maneira irregular.

O caso é investigado pela Corregedoria da Polícia Civil de Goiás e pelo Ministério Público de Goiás (MPGO).

Defesa apresenta cronologia de pedidos

Para contestar as suspeitas, a defesa apresentou uma série de documentos e ofícios que teriam sido enviados pelo delegado à administração da Polícia Civil e a órgãos de controle.

Em maio de 2022, Alexandre Bruno encaminhou um ofício à direção da Polícia Civil solicitando a contratação de galpões oficiais e estruturas adequadas para armazenar as mercadorias recuperadas pela unidade.

Em 17 de outubro daquele ano, a Divisão de Assessoria Técnico-Policial respondeu ao pedido. Conforme os documentos apresentados pela defesa, a instituição informou que não havia disponibilidade financeira nem espaço público suficiente para viabilizar a contratação dos depósitos solicitados.

Já em 9 de janeiro de 2023, após a resposta da administração, o delegado assinou despachos que revogavam as autorizações existentes para a utilização de depósitos particulares ligados à delegacia.

Ainda naquele mês, Alexandre Bruno acionou o promotor responsável pelo controle externo da atividade policial e o convidou para realizar uma inspeção na sede da Decar, com o objetivo de verificar as condições estruturais da unidade.

Em junho de 2024, o delegado também encaminhou uma representação acompanhada de documentos ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Goiás. Na ocasião, solicitou providências para que fosse definida uma destinação aos bens que ainda permaneciam sob custódia.

Falta de espaço teria motivado uso de depósitos privados

Segundo Alexandre Bruno, as medidas demonstrariam que ele não permaneceu omisso diante dos problemas enfrentados pela delegacia. O delegado sustenta que, após receber a negativa para disponibilização de galpões públicos, decidiu cancelar as autorizações para utilização de espaços particulares.

Ele também argumenta que o fato de ter acionado diferentes órgãos de fiscalização seria incompatível com a hipótese de que pretendesse esconder eventuais irregularidades.

Em relação às mercadorias levadas para propriedades de terceiros, o delegado afirma que a medida era adotada por falta de espaço na unidade policial.

De acordo com sua versão, o procedimento era formalizado e contava com autorização expressa das empresas vítimas dos roubos. Os responsáveis pelos locais onde as cargas permaneciam armazenadas assumiriam a condição de depositários fiéis dos materiais.

Delegado nega suposta propina de R$ 200 mil

Outro ponto contestado pela defesa envolve a suspeita de que Alexandre Bruno teria recebido R$ 200 mil em propina e utilizado o dinheiro para comprar um imóvel.

O delegado rejeitou a acusação e afirmou que sua situação patrimonial seria compatível com seus rendimentos. Como parte da estratégia para demonstrar a origem de seus recursos, declarou ter autorizado voluntariamente o acesso da Justiça aos seus dados bancários e fiscais antes mesmo do avanço das investigações.

Alexandre Bruno também negou acusações relacionadas a uma eventual coação ou monitoramento de testemunhas e advogados envolvidos no caso.

A defesa informou que prepara medidas jurídicas para questionar o afastamento cautelar de 90 dias. O delegado afirma respeitar a decisão enquanto busca revertê-la pelos meios judiciais.

As suspeitas envolvendo o possível desvio e comercialização das cargas continuam sendo apuradas pela Corregedoria da Polícia Civil e pelo Ministério Público. Até a conclusão das investigações, não há decisão definitiva sobre a responsabilidade dos servidores investigados.