SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – O zagueiro Victor Gabriel, do Internacional, foi punido pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), em razão do cartão vermelho direto em um lance que resultou em fratura na perna esquerda do meia Gabriel Pec, do Cruzeiro, no duelo pelo Brasileirão.
Victor Gabriel vai ficar suspenso enquanto durar a recuperação de Pec, segundo decisão da sexta comissão disciplinar. Cabe recurso.
O julgamento ficou marcado e mudou de rumo após a percepção de que o Internacional acabou juntando como prova um áudio falso que estava sendo atribuído ao VAR.
Como ponto de partida, Victor pegou a pena máxima prevista no caput do artigo 254 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), que é seis jogos de suspensão. Mas isso se soma ao que prevê o parágrafo terceiro do mesmo artigo: o afastamento até o retorno de Pec aos treinos.
Victor Gabriel esteve presencialmente no STJD para o julgamento e chegou a se emocionar algumas vezes durante a sessão, enquanto os auditores comentavam o assunto e também durante o depoimento que prestou.
A informação de que o falso áudio do VAR tinha sido usado como prova pelo Inter veio à tona durante os votos. Até então, a situação estava se encaminhando para aplicação de seis jogos, mas sem o uso do parágrafo 3º. Só que aí houve mudança de voto, culminando com o placar de 3 a 1 para punição mais grave.
O advogado do Internacional reconheceu, ao fim do julgamento, que houve um equívoco e arquivo foi juntado de forma equivocada, mas sem má intenção.
COMO FOI O JULGAMENTO
A comissão rejeitou o pedido do Cruzeiro para participar como terceiro interessado no processo.
O pedido da procuradoria foi por uma suspensão com base no parágrafo 3º do artigo 254, que prevê a possibilidade de gancho pelo tempo que o jogador que se machucou ficar fora dos treinos.
A defesa do Internacional levou vídeos não só do lance em si, mas também de outras jogadas julgadas pelo STJD que resultaram em lesões de quem sofreu a falta.
O principal objetivo era evitar uma punição a Victor Gabriel que se equiparasse ao tempo em que Pec ficará fora de atividade.
“A gente chama esse parágrafo de Lei de Talião: ‘Olho por olho, dente por dente’. O dispositivo deve ser aplicado quando a atividade empregada pelo atleta fuja dos costumes de uma modalidade”, disse Pastl.
O advogado colorado mencionou ainda que, no passado, a mesma comissão do STJD analisou uma jogada parecida, envolvendo o meia Eduardo, à época no Cruzeiro, e Jamerson, lateral-esquerdo do Vitória, que se machucou e também sofreu uma fratura.
No tribunal, o desfecho da história foi uma punição de três jogos de suspensão a Eduardo, sendo que o último ainda foi revertido em uma transação penal.
O advogado Rogério Pastl, inclusive, incluiu a conversa entre os dois jogadores no Instagram e reproduziu áudios trocados entre Pec e Victor Gabriel, que apontavam pedido de desculpas e concessão de perdão.
Nesse conjunto de provas, ele reproduziu um áudio supostamente atribuído ao VAR, mas o conteúdo era falso. Só depois, já durante os votos, que os auditores perceberam, diante da repercussão nas redes sociais e mensagens no telefone.
O áudio, de fato, apresentava uma forma incomum de diálogo entre os personagens e em nada se assemelhava com o protocolo definido pela CBF para conversa na cabine. Com uma consulta ao site da entidade, é possível perceber que não houve divulgação de áudio do VAR sobre esse lance no Internacional x Cruzeiro.
Os auditores chegaram a ponderar a possibilidade de suspender o julgamento, mas o advogado do Inter disse que eles poderiam seguir, desconsiderando a prova.
O LADO DE VICTOR GABRIEL
O zagueiro do Internacional prestou depoimento e não conseguiu conter as lágrimas.
“Foi sem nenhuma intenção de machucar meu companheiro de profissão, tanto que eu pedi desculpas a ele e coloquei a disposição para ajudar”, disse Victor Gabriel, que explicou o lance.
“No momento ali, eu tive a interpretação de que eu chegaria primeiro na bola, como eu cheguei. E como o campo estava bastante liso, molhado, eu acerto um pouco a bola, um pouco da metade da bola para cima. Quando o meu pé acerta a bola ali, acaba que acelera um pouco o meu movimento até pelas condições do gramado. E aí eu não tive tempo de recolher a perna naquele momento e acabou que aconteceu essa entrada mais dura, mas como eu falei, sem nenhuma intenção de machucar o meu colega”, disse.
O QUE MAIS VICTOR GABRIEL DISSE
“Tem sido um dia difícil pra mim porque eu sempre fui um cara legal. Sempre que entrei em campo, entrei para, acima de tudo, defender o meu clube e o meu sonho que eu sempre lutei. Por isso, então eu procurei sempre ser o mais leal possível, porque eu acho que isso é o que esse esporte nos pede. Foi um lance de total infelicidade. Eu nunca fui um cara violento, nunca entrei em campo com a intenção de machucar qualquer adversário, tanto que eu pedi desculpas a ele. Naquele momento, eu senti que talvez a minha desculpa para ele não fosse mudar muita coisa, mas que ele me desculpasse, porque não tive nenhuma intenção. Desde aquela noite, têm sido dias totalmente difíceis para mim. Eu confesso que toda a minha vida, desde que eu saí de casa, me preparei para momentos de felicidade. Eu nunca imaginei estar vivendo isso. Tem sido dias e noites em claro. Eu escolhi ficar acordado para poder orar por ele como prometi para ele”.



