SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Muitos adultos que cresceram nos anos 2000 ficaram em polvorosa no último final de semana. Depois de quase 20 anos, puderam saber o que aconteceu com Aang, o protagonista de “Avatar: A Lenda de Aang”, série infantil que foi um marco para a televisão e virou franquia.

De 2005 a 2008, três temporadas foram ao ar na Nickelodeon com a jornada do garoto capaz de manipular os quatro elementos -ar, água, terra e fogo-, incumbido de estabelecer a paz em um mundo em guerra. Agora, “Avatar Aang: O Último Mestre do Ar”, filme lançado no streaming Paramount+, traz de volta Aang, aos 25 anos.

Para a decepção de alguns fãs, a Paramount cancelou a estreia comercial do longa nos cinemas -apenas com poucas exibições em Nova York e Los Angeles-, decisão atribuída à nova estratégia da empresa após a fusão com a Skydance e à necessidade de fortalecer o catálogo de seu streaming.

A estreia também prepara terreno para “Avatar: Os Sete Refúgios”, que estreia em outubro, após os altos e baixos da franquia nos últimos anos.

Em 2018, os criadores romperam com a Netflix, e, mesmo assim, a plataforma seguiu com a produção do live-action “Avatar: O Último Mestre do Ar”, com duas temporadas no ar. Depois, em 2021, a Nickelodeon e a Paramount anunciaram a criação do Avatar Studios, divisão dedicada exclusivamente ao universo.

No universo criado por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko, inspirado no Japão e na China antigos, os povos dominam diferentes elementos. Aang é o último capaz de dominar o ar.

Durante a chamada Guerra de Cem Anos, dominadores do fogo mataram todos os mestres do ar. Aang, como “avatar”, é o único capaz de manipular todos os elementos e assegurar paz entre as nações. Quando um avatar morre, outro nasce.

Neste novo capítulo, Aang busca reavivar sua cultura perdida por meio de um cajado criado por Sonam, um avatar antigo. Na jornada, ele encontra e liberta Tagah, um dobrador de ar congelado há milhares de anos.

Tagah também quer reavivar os mestres do ar, mas acredita que só a força bruta pode preservar seu povo vulnerável.

Fiel à profundidade da série original, “Avatar Aang: O Último Mestre do Ar” faz um comentário contundente sobre a violência e as divisões de nossos tempos, com o bônus dos cenários melhorados graças ao avanço tecnológico e, portanto, ainda mais deslumbrantes.

Pela limitação de tempo, porém, o filme não aprofunda conflitos emocionais de personagens como Katara e Sokka, importantes no seriado, mas que agora ficam em segundo plano.

Tocando em temas como amadurecimento, colonialismo, espiritualidade e luto, “Avatar: A Lenda de Aang” foi uma produção inovadora em meio à predominância de tramas episódicas -isto é, com uma história independente por capítulo, sem exigir que o público acompanhe a produção do começo ao fim.

Com esse formato, “Avatar” influenciou várias animações lançadas para o streaming em anos seguintes, como “Hora de Aventura”, “Steven Universe” e “She-ra: As Princesas do Poder”.

A produção desenvolvida no estúdio da Nickelodeon, na Califórnia, também foi precursora ao incorporar referências de culturas asiáticas, do budismo às artes marciais -tendência em alta hoje, vide o sucesso de “Guerreiras do Kpop”, da Netflix.

“Avatar” também inovou ao replicar, aos moldes americanos, o visual da animação japonesa, os animes, sustentados por uma base sólida de fãs internacionais e que agora tem sua distribuição disputada por gigantes do streaming. Não seria inapropriado cogitar que Aang contribuiu para despertar o interesse de parte da audiência ocidental sobre os títulos japoneses.

Somado ao formato e ao roteiro, a série não se apoiava excessivamente no humor e na ação, como seus pares da televisão dos Estados Unidos, mas preferiu se aprofundar em personagens complexos e ambíguos, como Zuko -um dos principais antagonistas, príncipe da nação do fogo, que passa por uma jornada de redenção ao enfrentar o pai abusivo.

Por essas e outras, “Avatar” se tornou um fenômeno cultural, com adaptações para videogames, jogos de cartas e dois live-actions. Um é o filme dirigido por M. Night Shyamalan, em 2010 -renegado por fãs e pelo próprio cineasta de “O Sexto Sentido”-; o outro é a série da Netflix que ganhou sua segunda temporada neste ano.

Houve ainda uma continuação da série original, “Avatar: A Lenda de Korra”, a partir de 2012. A produção introduzia uma personagem feminina teimosa, impulsiva e competitiva, em contraste ao antecessor Aang. Ela teve mais fracassos durante o enredo -o que permitiu, por outro lado, uma jornada de evolução individual ainda mais rica.

A animação, porém, não foi exibida integralmente na TV -a partir da terceira temporada, os episódios foram ao ar apenas online. Em 2014, o universo dos streamings ainda estava em fase de consolidação, o que não ajudou a popularizar o enredo.

Há também um fator de audiência -Korra tinha 17 anos quando começou sua jornada, cinco anos a mais do que Aang. Assim, o desenho adotou um tom mais maduro do que sua encarnação anterior. Apesar da trajetória irregular, a heroína é considerada até hoje um marco para a representatividade feminina e queer pelo seu romance com a personagem Asami, dominadora de fogo.

E se hoje a presença de pessoas LGBTQIA+ ainda é um tabu para os grandes estúdios de animação -vide as interferências da Pixar para mudar o protagonista de “Elio”, no ano passado-, pode-se imaginar que o relacionamento não foi aprovado por unanimidade na época.

Korra apareceu no trailer de “Avatar: Os Sete Refúgios”, que dará protagonismo feminino a outra avatar, Pavi, uma dominadora de terra. A produção já tem a nostalgia de fãs entusiasmados a seu favor. Resta saber se conseguirá dominar os elementos da televisão hoje, entre a pulverização dos streamings, audiências menos cativas, concorrência intensa por atenção e a pressão por resultados imediatos.