BUSAN, COREIA DO SUL (FOLHAPRESS) – O Brasil acaba de ganhar mais um patrimônio cultural mundial. Os teatros Amazonas, em Manaus, e da Paz, em Belém, foram reconhecidos pela Unesco durante o 48º comitê internacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, realizado em Busan, segunda maior cidade da Coreia do Sul.

O anúncio foi feito nesta segunda-feira (27). Com a aprovação, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) conseguiu superar um imbróglio na candidatura do país. O órgão do governo brasileiro defendia a inclusão dos dois teatros juntos, reconhecidos pelo conjunto. Já o parecer técnico do Icomos (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios), ligado à Unesco, sugeria que apenas o teatro Amazonas fosse inscrito na lista.

Apesar de serem dois locais, o título recebido é apenas um, pelo conjunto, sob a inscrição de teatros da Amazônia. Eles se encaixam nos chamados bens seriados –outro exemplo são os Seowon, academias coreanas neo-confucionistas com diversas unidades pelo país e que são reconhecidas sob um único título.

A reunião do comitê, em Busan, é a etapa final de um processo longo, que começa com a inscrição feita pelos próprios países e passa por avaliações técnicas de órgãos independentes. O grupo, presidido pelo diplomata Lee Byong-Hyun, analisa em conjunto durante as sessões os textos apresentados pelas candidaturas, que devem seguir uma série de regras.

Caso estejam de acordo com as normas, os países-membros podem sugerir ainda emendas e alterações e, só depois, aprovar ou negar o novo patrimônio. O Iphan defendia a aprovação integral da candidatura como ela foi feita.

“Mais do que reconhecer a importância histórica e econômica do período em que foram erguidos, a chancela da Unesco aos teatros da Amazônia projeta esses valores para o presente, destacando o que eles simbolizam hoje para a sociedade amazônida, para o Brasil e para o mundo”, disse o presidente do Iphan, Deyvesson Gusmão.

“Esse reconhecimento também reforça uma dimensão essencial da Amazônia: ela é natureza, mas é também um território de cultura, memória, criatividade e patrimônio, cuja riqueza humana é indissociável de sua biodiversidade”, celebrou ainda.

Quem decide novas inclusões é um comitê formado por 21 países: Armênia, Azerbaijão, Bangladesh, República Tcheca, Granada, Jamaica, Cazaquistão, Quênia, Kuwait, Líbano, Mongólia, Peru, Polônia, Coreia do Sul, Senegal, Suíça, Togo, Turquia, Ucrânia, Tanzânia e Vietnã.

Os teatros em Manaus e Belém foram construídos durante o ciclo da borracha da região. O teatro da Paz foi erguido em 1878 para receber espetáculos líricos. Já o Amazonas foi inaugurado em 1896 e se tornou um símbolo da capital amazonense. O prédio paraense é tombado pelo Iphan desde 1963, e o do Amazonas, desde 1966.

O órgão apresentou argumentos que de os dois teatros se conversam. “Eles têm uma relação de complementariedade”, afirma Gusmão. Segundo ele, há uma ligação do contexto histórico, econômico e político em comum na época da construção dos locais, que foram importantes na formação urbana das duas metrópoles da Amazônia.

O presidente do Iphan destaca que o título trará visibilidade internacional aos edifícios históricos, e uma perspectiva de aumento de turismo e economia na região. Com o crescimento de visitantes, o título exigirá que o plano de gestão traga estratégias que pensem a conservação dessas edificações em vista do turismo de massa.

O primeiro passo agora, explica Gusmão, é construir um plano de gestão que vise a conservação e promoção desses locais “como um patrimônio cultural que é importante para a Amazônia, para o Brasil e para o mundo”. A etapa é uma exigência da agência das Nações Unidas. Os países são os únicos responsáveis pela manutenção dos seus patrimônios.

O reconhecimento também pode mudar a ideia de que a Amazônia –reconhecida como patrimônio natural mundial desde 2000– é composta apenas natureza, diz ele. “O título coloca a Amazônia como produtora de cultura e de memória.”

A Reserva da Biosfera da Amazônia Central já é reconhecida como um patrimônio natural mundial desde 2000. Com a adição dos teatros, o Brasil acumula hoje 26 patrimônios mundiais –um misto (Paraty e Ilha Grande, no estado do Rio de Janeiro), 9 naturais e 16 culturais.

Na agenda da comissão da Unesco, está prevista ainda a avaliação do estado de conservação de patrimônios já reconhecidos e que correm perigo, como os monumentos medievais de Kosovo (por risco de conflitos na região) e o centro histórico de Viena (ameaçado pela especulação imobiliária). O comitê também discute propostas de alterações anteriores e ampliação de bens.

A Coreia do Sul pleiteava a expansão de seus getbols, planícies de marés que fazem parte da rota migratória de pássaros. Com a aprovação, estes locais passam de quatro para oito unidades de conservação espalhadas pelo território.

“Os getbols oferecem um habitat essencial para aves migratórias ameaçadas de extinção e sustentam uma biodiversidade excepcional. Esta inscrição reafirma tanto o compromisso inabalável da Coreia com a conservação quanto a responsabilidade que nos foi confiada”, afirmou Huh Min, diretor do Serviço de Patrimônio da Coreia do Sul, durante discurso na sexta (24). O país asiático possui 17 patrimônios mundiais –15 culturais e dois naturais.

No mesmo dia, a Unesco adicionou sítios na Cisjordânia ocupada e no Líbano à lista de patrimônios em perigo, citando o impacto dos conflitos na região. Israel fazia campanha para que a decisão fosse rejeitada, refletindo uma ruptura com a Unesco, da qual se retirou em 2019, acusando-a de parcialidade.

A nação participa agora apenas como observadora. Apesar de não ter poder de voto, os países observadores têm o direito de expressar sua posição, sobretudo se seus bens são avaliados.

Ao todo, 30 países tentam entrar na lista que reconhece patrimônios culturais, naturais e mistos. Entre eles estão Congo, Dinamarca, Rússia, Arábia Saudita e Grécia. Novos anúncios serão feitos até o dia 29 na convenção. No total, até a decisão desta segunda, 170 países somavam 1.248 patrimônios mundiais espalhados pelo planeta.

A lista de patrimônios imateriais da humanidade, que inclui tradições e celebrações, será decidida em outra comissão, que ocorre em novembro, na China. O Brasil tentará receber outro reconhecimento, desta vez pelo Maracatu Nação, festa tradicional com origem em Pernambuco.