BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O BRB (Banco de Brasília) herdou um empréstimo feito pelo Banco Master para a empresa 3D Minerals que tem como garantia ações da maior área de exploração de minerais críticos do Brasil.
O valor do financiamento, realizado em 5 de novembro de 2024, foi de R$ 152,9 milhões, com data de vencimento em 5 de novembro de 2029.
Em 22 de julho de 2025, o Master cedeu o empréstimo ao BRB. Ele foi repassado em substituição a operações de crédito identificadas como fraudulentas pelo Banco Central. Essas transações tinham sido vendidas ao banco público pela instituição de Daniel Vorcaro.
O BRB disse à Folha que não poderia dar detalhes do caso específico por envolverem informações protegidas por sigilo bancário e empresarial.
O Master e a 3D Minerals não responderam aos questionamentos da reportagem. Ambos foram procurados por emails enviados às 14h do dia 21 de julho.
Como mostrou a Folha em janeiro deste ano, o Master repassou diversos ativos duvidosos ao BRB ao substituir os créditos fraudulentos, como créditos inadimplentes, ações de empresas que perderam valor e imóveis.
Na época do repasse ao BRB, o saldo devedor do empréstimo para a 3D Minerals era de R$ 175,1 milhões, superior ao valor original, o que indica que não houve amortização relevante. O valor calculado para a cessão do empréstimo foi de R$ 112 milhões, um deságio de R$ 63 milhões, ou 36% do total.
A garantia do empréstimo é 50% da 3D Minerals. Em regra, a cessão de um crédito transfere também as garantias. Assim, em caso de calote, o BRB poderia executar a garantia e assumir metade da empresa, cujos únicos ativos documentados são os direitos minerários arrematados pela empresa de Belo Horizonte.
“Desde então [o recebimento do crédito], o BRB vem adotando todas as medidas cabíveis sob as perspectivas de governança, conformidade, gestão de riscos, regulação e segurança jurídica, incluindo o acompanhamento técnico das operações e as tratativas para a alienação da totalidade dos ativos recebidos nesse processo”, informou a assessoria de imprensa do banco.
O empréstimo do Master para a 3D Minerals está em uma lista encaminhada pelo liquidante do Master ao TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) em junho deste ano.
Ela faz parte de um processo no qual Henrique Vorcaro e Natalia Vorcaro Zettel, pai e irmã de Daniel, se defendem contra a alienação de bens ligados aos dois.
Na sua manifestação, o liquidante tenta demonstrar, com uma série de documentos, que ambos usaram operações financeiras, como cédulas de crédito bancário, cessões de crédito e investimentos, para desviar recursos bilionários do banco e beneficiar a família Vorcaro.
No leilão da ANM (Agência Nacional de Mineração) realizado em agosto de 2024, 46 dias após a 3D Minerals ter sido criada com um capital social de R$ 5 mil, ela arrematou áreas espalhadas por todo o país, envolvendo 35 tipos diferentes de minérios. Desse total, 116 eram áreas de pesquisa de minerais críticos.
Pelos lances vencedores, a empresa deveria pagar R$ 126 milhões. Em novembro de 2024, três meses depois de conseguir as áreas, o Master concedeu o empréstimo de R$ 152,9 milhões à 3D Minerals, que teve como garantia metade das cotas da empresa.
“Ao final da etapa de pagamento, a 3D Minerals honrou a proposta financeira de 262 áreas arrematadas, totalizando R$ 103,5 milhões. Dessa forma, a 3D Minerals obteve o direito de efetuar requerimentos de pesquisa e lavra em 263 áreas”, informou a ANM.
A 3D Minerals foi criada por Eduardo Wanderley e Daniel Wanderley, membros de uma tradicional família de Belo Horizonte conhecida pela atuação em construção civil.
Os laços financeiros entre Vorcaro e os Wanderley não se limitam às operações com a 3D Minerals e os minerais críticos. A Folha encontrou diversas operações societárias que revelam a relação estreita mantida entre os dois grupos, em negócios que passam por mineração, alimentos e até sociedade em jato executivo.
Entre essas conexões está uma aeronave compartilhada por Fabiano Zettel, pastor e cunhado de Vorcaro, e Saulo Wanderley Filho. A empresa SPE FSW, que tem capital declarado de R$ 33 milhões, é dona de um Falcon 2000, da francesa Dassault Aviation, uma aeronave de alto padrão com 13 assentos e preço estimado entre US$ 6 milhões e US$ 10 milhões, o equivalente a cerca de R$ 52 milhões, em valores atuais.




