SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O PL oficializou a escolha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o filho 01 de Jair Bolsonaro (PL), como candidato à Presidência da República em uma convenção verde-amarela no Pacaembu, em São Paulo, neste sábado (25).

O presidente da Argentina, Javier Milei, veio ao Brasil especialmente para a convenção, que teve também a participação do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e do coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), além de uma série de congressistas e candidatos do PL.

Em seu discurso, Tarcísio, que foi preterido por Bolsonaro para o Planalto, disse que “Flávio está aqui não pelo sobrenome” e que família é algo sagrado.

Afirmou ainda que a esperança está com Flávio, “uma pessoa que vai honrar o pai e o legado” e será “o maior presidente da história”.

Tarcísio criticou o PT e disse que “São Paulo prospera porque nunca foi governado pela esquerda”. Ele pediu ao público que busque votos e convença os indecisos: “não tem espaço mais para o cansaço, a gente não pode mais se poupar, são 70 dias de trabalho e sacrifício”.

Estavam no palco ainda o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e candidatos a governador pelo PL, como Sergio Moro (PR), e ao Senado, como André do Prado (SP). O evento começou com o hino nacional e 22 segundos de silêncio em alusão à suposta tentativa de calar a direita no Brasil, nas palavras do cerimonialista.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) participou da convenção de Flávio, a quem havia criticado publicamente há um mês, por meio de um recado em vídeo.

Ela afirmou que seu “galego”, em referência ao marido, não pode estar no evento, e que ela também não, por estar em casa cuidando dele. Seu discurso foi voltado para a importância da participação das mulheres na política, assim como o desenvolvimento do PL Mulher, do qual ela deixou a presidência em meio ao conflito público com o enteado.

Michelle não elogiou Flávio diretamente, mas pediu “que Deus abençoe e proteja” sua candidatura e desejou força para a família dele para cumprir a missão “com a lealdade que nosso povo merece”. “Quando mulheres e homens de bens se unem para fazer o que é certo nenhuma dificuldade é maior que nossa coragem.”

Antes do encontro, Flávio e o presidente argentino foram recebidos por Tarcísio no Palácio dos Bandeirantes, onde conversaram na ala residencial. O governador de São Paulo entregou a Milei a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo estado.

Ao lado de Flávio estava sua mulher, Fernanda Bolsonaro, que deve ganhar protagonismo na campanha diante da necessidade do bolsonarista de reduzir sua rejeição no eleitorado feminino.

O evento ocorreu num centro de convenções no interior do estádio, com a presença de milhares de apoiadores vestidos de verde e amarelo. Havia algumas pessoas com roupas ou bandeiras que faziam referência a Israel, aos Estados Unidos e ao presidente americano Donald Trump. Nas bandeiras, aparecia o slogan “Vem com fé que o Brasil vai prosperar”, numa alusão ao jingle da campanha de Flávio.

Havia também bonecos de papelão do ex-presidente Bolsonaro, de Flávio, do candidato do PL ao Senado por SP, deputado André do Prado (PL), e de Michelle, com quem o candidato à Presidência trocou gestos de reconciliação há dois dias.

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que mora nos EUA alegando ser perseguido, enviou um recado em vídeo, em tom mais radical. Disse que “vai ser todo dia estressante” e que tem gente da direita que acredita “que a gente tenha feito um acordo com o sistema”.

Ele afirmou que a missão do irmão é “combater essa corja do Foro de São Paulo” e “soltar Bolsonaro e os presos do 8 de Janeiro”, fazendo a onda azul da América Latina chegar ao Brasil.

Pré-candidato ao Senado em Santa Catarina, Carlos Bolsonaro (PL) também participou por vídeo. “Como qualquer família, tivemos momentos de concordância e divergência”, disse em um discurso que fez o irmão chorar.

Carlos disse que foi seu pai quem “abriu os olhos das pessoas para a força do sistema e o que ele faz contra quem se levanta contra ele”.

Rogério Marinho afirmou em seu discurso que, “mais do que nunca”, é preciso “radicalizar”. “Somos acusados de radicais porque defendemos o direito de propriedade, porque radicalizamos a defesa dos valores que inspiram a sociedade brasileira.”

Disse, também, que o grupo será o porta-voz da mensagem de Bolsonaro e que a “grande responsabilidade” assumida por Flávio será compartilhada por todos, para que o “fardo” se torne mais leve. “Tentaram calar Bolsonaro, mas nós seremos a sua voz.”

Em sua fala, André do Prado procurou Flávio e o deputado federal Guilherme Derrite (PP), que também disputa o Senado em SP, para darem as mãos.

Pupilo de Valdemar que vem buscando validação no meio bolsonarista, André afirmou que “ninguém está acima da lei” e, em referência ao Judiciário, disse que “se cometeu crime de responsabilidade tem que arcar com as consequências”. A direita bolsonarista tem a expectativa de fazer uma grande bancada no Senado para pautar o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.

Apesar da festa, os sinais de isolamento de Flávio ficaram evidentes no evento, que não teve a presença de nenhum presidente nacional de outros partidos. O PL quer repetir a coligação de Bolsonaro em 2022 com a federação União Brasil-PP e o Republicanos, mas as legendas indicam preferir a neutralidade desta vez.

A falta de uma coligação deixou Flávio sem um candidato a vice a ser apresentado em sua convenção -a expectativa era de que partidos aliados indicassem um nome, de preferência uma mulher.

Dirigentes do PL rejeitam, por ora, a chapa pura, e a possível vice preferida pelo senador é Daniella Marques (Republicanos), presidente da Caixa na gestão Bolsonaro. A campanha quer bater o martelo até 5 de agosto, prazo final das convenções.

Na véspera da convenção, o Datafolha mostrou um cenário de estabilidade na intenção de votos, com Lula (PT) à frente, marcando 48% num eventual segundo turno contra Flávio, que tem 43%.

A convenção partidária é o ato formal em que partidos e federações se reúnem para escolher os candidatos que disputarão os cargos em outubro. Os candidatos escolhidos têm que ser registrados na Justiça Eleitoral até 15 de agosto, e a campanha começa oficialmente no dia seguinte.

Preso e inelegível após ser condenado por tentativa de golpe de estado, o ex-presidente Bolsonaro escolheu Flávio para substituí-lo como candidato da direita conservadora em dezembro do ano passado, quando os partidos do centrão depositavam suas expectativas em Tarcísio.

Em março, Flávio parecia ter vencido o ceticismo inicial ao empatar tecnicamente com Lula nas pesquisas, mas depois de uma série de erros e reveses, chegou à convenção sob desconfiança renovada e com objetivo de reconquistar sua base, unir a direita e engajar seus apoiadores. Ao mesmo tempo, tenta não perder de vista os eleitores de centro ao apresentar-se como uma versão mais moderada do pai.

O principal baque na pré-campanha foi a revelação da relação próxima entre Flávio e Daniel Vorcaro. O senador pediu ao dono do Master dinheiro para financiar um filme em homenagem a Bolsonaro e agora é alvo de um inquérito da Polícia Federal a respeito desses recursos. No mundo político, corre o boato de que os escândalos contra Flávio não vão ficar apenas no caso Dark Horse.

Outros erros apontados por aliados foram as fake news contra urnas eletrônicas, a proximidade com Donald Trump diante do tarifaço dos EUA e a briga com Michelle, que agora parece caminhar para uma pacificação.

Na terça (21), como mostrou a Folha, Flávio citou uma informação falsa sobre as urnas em evento com diplomatas em Brasília. No mesmo encontro, ele também pediu para que todos os países mandem “a maior quantidade de observadores possíveis para as nossas eleições”, assim como “pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia”.

Segundo reportagem do jornal americano The Washington Post, publicada neste sábado, Trump planeja enviar dois oficiais do Departamento de Estado para acompanhar as eleições presidenciais no Brasil. O objetivo seria lançar dúvidas sobre a integridade e a transparência do processo eleitoral brasileiro, de acordo com quatro oficiais americanos e brasileiros ouvidos pelo jornal.