SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A pré-campanha do ex-ministro Fernando Haddad (PT) ao Governo de São Paulo tem como focos temáticos a educação, a privatização da Sabesp, mas, sobretudo, a segurança pública, com atenção especial conferida ao interior do estado.
Além da capital e do ABC paulista, o petista fez um giro no último mês pelas regiões de Campinas e do noroeste do estado, com compromissos em Jales, Fernandópolis, Votuporanga, Catanduva e São José do Rio Preto. Também falou a podcasts e veículos de imprensa.
Neste sábado (25), Haddad será oficializado candidato a governador pelo partido em Campinas. Como mostrou a Folha, esta será a primeira vez que o PT promove uma convenção para cargo majoritário no interior paulista, em um aceno da pré-campanha à região.
Até agora, a maior parte dos compromissos ocorreu com públicos ligados à base, como trabalhadores, estudantes e movimentos de esquerda, apesar de o conjunto de agendas e declarações mostrar uma tentativa de diálogo com o agronegócio e empresariado.
No final de junho, por exemplo, o ex-ministro participou de um debate sobre o seu livro “Capitalismo Superindustrial” na Universidade Federal do ABC. Dedicou ao menos três dias para ir ao Sindicato dos Engenheiros discutir temas do plano de governo. Na última semana, teve um encontro com mulheres do PSOL.
O deputado federal Kiko Celeguim, presidente do PT paulista, fala em dotar a militância de argumentos para convencer indecisos e debater com o front bolsonarista, que terá como candidato o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). “Falar com o nosso próprio eleitor, atualizar as narrativas e dividir informação é fundamental”, afirma Celeguim.
Mas também há um esforço na outra vertente. Mais recentemente, nos dias 16 e 17 de julho, Haddad viajou ao interior ao lado do pré-candidato a vice, Márcio França (PSB), e das pré-candidatas ao Senado Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) para encontros com empresários e representantes do setor sucroenergético.
Há um entendimento de que, apesar da polarização ideológica, parte do eleitorado tomará sua decisão com base em questões práticas. Por isso, uma das apostas será explorar investimentos do PAC e os efeitos do tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros.
A sobretaxa, inclusive, passou a ocupar lugar central nos discursos de Haddad. O ex-ministro tem afirmado que a medida deve prejudicar o agronegócio e cobrou do governador Tarcísio uma crítica ao governo Trump.
“Estamos prontos para discutir com qualquer setor. Alguns têm mais dificuldade em querer se reunir conosco, mas nós vamos insistir, porque o que se trata aqui é do interesse do estado, do país”, diz Celeguim, do PT de São Paulo.
Outro ponto bastante explorado é a privatização da Sabesp, com críticas ao aumento das tarifas e à piora na qualidade dos serviços. Uma pesquisa Datafolha de março mostrou que a empresa é a principal culpada pela necessidade de racionar água no estado.
Na quinta (23), O pré-candidato petista criticou outra concessão da atual gestão, a dos trens metropolitanos, após um dia de caos em linhas que eram operadas da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).
Além disso, a ideia de que “São Paulo está ficando para trás” se tornou quase um lema da pré-campanha, com o ex-ministro citando o crescimento do PIB paulista abaixo da média nacional e a perda de posições em rankings de educação.
Mas o que recebeu maior destaque ao longo da pré-campanha foi a segurança pública. Uma das principais atribuições do governador e um desafio histórico da esquerda, a área é tratada como prioridade. Há, inclusive, a possibilidade de que o plano para o tema seja apresentado antes do restante do programa de governo.
O coordenador do programa de governo de Haddad, deputado estadual Emídio de Souza (PT), diz que a campanha vai manter como prioridades os temas que já vem sendo explorados: segurança pública, Sabesp, educação, saúde, mobilidade e pedágios.
No balanço das agendas há uma divisão entre a cidade de São Paulo e municípios interioranos, mas existe uma preocupação com o interior. Como mostrou a Folha de S.Paulo, o PT tem uma dificuldade histórica no estado, que nunca governou, e o obstáculo não é a metrópole. Em 2022, Haddad venceu na capital, mas perdeu no interior.
A leitura é que agora, com a chapa fechada, também será possível explorar mais agendas mistas, em especial no interior do estado. Haddad pode fazer uma visita a um local, enquanto França vai a outro compromisso, além de acionar Tebet e Marina.
Além disso, desde junho, a legenda já desembolsou mais de R$ 500 mil com o direcionamento de anúncios nas redes da Meta (dona do Facebook e do Instagram) para 25 cidades, com conteúdos que divulgam obras do governo federal a municípios. Muitos têm a narração do pré-candidato ao governo paulista.
De acordo com o levantamento, São Paulo é o único estado que tem anúncios direcionados pela página nacional do partido. “O governo federal tem feito muita coisa aqui e em todo o estado, mas tentam esconder isso de você”, diz Haddad nos conteúdos.
“O ponto frágil dele é o interior”, afirma Marco Antônio Teixeira, coordenador de pós-graduação em gestão e políticas públicas da FGV EAESP. “O PT sempre teve muita dificuldade para entrar no interior não metropolitano, sobretudo. As alianças servem para isso. Agora, é preciso ver qual será o alcance dessas alianças.”
Segundo Teixeira, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que governou São Paulo por quatro mandatos e tem alto recall no estado, ocupa uma posição estratégica nesse sentido. Alckmin deve marcar presença na convenção estadual do PT, assim como Lula.
O mesmo vale para França, também ex-governador e ex-prefeito, que pode atuar na Baixada Santista, uma região considerada difícil para o PT. Já Tebet pode ajudar no interior em razão de seu perfil ligado à economia e da interlocução com o agronegócio.
Marina, por sua vez, teria um apelo maior para votos de opinião, mais concentrado em áreas metropolitanas e nos setores médios.



