PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – O encontro que encerrou a programação do palco principal da Flip nesta sexta-feira (24) reuniu duas escritoras que não apresentam enredos lineares ao leitor, mas artefatos literários -um termo usado por ambas-, que precisam de leitores ativos para resolver seus quebra-cabeças.

A americana Katie Kitamura e a espanhola Marta Pérez-Carbonell não querem oferecer meros jogos de montar, mas reflexões sobre como as histórias são elaboradas, como a narração é subjetiva e como cada um dá sentido próprio ao que conta ou lê. Foi uma conversa intrincada como os livros, destrinchando o processo criativo de duas autoras discretas e simpáticas que também são professoras de literatura.

Kitamura é autora de “Audição”, livro finalista do Booker que foi editado no Brasil pela Fósforo com tradução de Erika Nogueira Vieira. Ela também publicou o romance “Uma Separação” pela Companhia das Letras.

A obra é protagonizada por uma atriz que se depara com um jovem desconhecido que diz ser filho dela. Na segunda metade, corta para uma realidade em que esse mesmo jovem é realmente alguém íntimo a ela. Não há hierarquia entre as histórias, e a obra multifacetada depende fundamentalmente dos julgamentos do leitor para ter sentido.

“Penso muito em como o ato de ler é criativo”, disse a americana. “Um livro só é um livro com um leitor. É algo volátil, que muda de acordo com quem está lendo e de que maneira essa pessoa encontra a obra. Queria escrever um livro que honrasse essa importância. É uma obra sobre interpretação mais do que qualquer coisa, e o papel mais importante é o do leitor.”

Pérez-Carbonell se lançou no Brasil há poucos meses com “Nada Mais Ilusório”, na editora Amarcord, traduzido por Mariana Sanchez. O romance é narrado por uma mulher que viaja de trem com dois desconhecidos que discutem em uma cabine. Os capítulos se alternam entre a narração dela sobre a conversa dos três e cenas do livro de um dos personagens.

“A linguagem é uma das grandes protagonistas do livro. Faço referência ao ato performativo da língua, algo que afinal fala do poder da literatura. Converter uma vida em palavras parece inocente e meu personagem escritor defende que o que importa são os atos e não os escritos. Mas não. Não só a realidade afeta a ficção, mas a história nutre a realidade de volta.”

Os personagens debatem o quanto são donos de suas histórias ou vulneráveis a elas. A relação entre a ficção e a verdade, diz a autora espanhola, é uma cebola de camadas infinitas. Sua maneira de encontrar alguma resposta foi escrever o livro dessa forma aberta e tateante, sem sentenciar resoluções.

Nos dois livros, “a gente vê o tecido, mas demora a perceber qual a trama”, como disse a mediadora Gabriela Mayer, jornalista que apresenta o podcast Café da Manhã na Folha. Ela começou perguntando para as duas autoras se a verdade importa.

Kitamura afirmou que sim, “em especial com o clima dos Estados Unidos agora”. “Há tantas definições diferentes de verdade ficcional. E eu tenho interesse em como as narrativas são uma forma de persuasão, coerção e controle. Estou buscando a verdade, mas tentando enquadrar as coisas de formas diferentes.”

A americana destacou sua curiosidade por como a linguagem cria relações de poder, algo simbolizado pela pergunta clássica “quem está contando a história?”. Não é apenas que sua narradora não é confiável –nenhum narrador é. Mesmo nós, quando contamos algo para alguém, damos a nossa interpretação.

A espanhola concordou, comparando seus romances com salas de espelhos de parque de diversão. “Gosto de tramas que têm diferentes níveis de verdade. Que são como um cubo mágico para o leitor.”

Os melhores livros que existem, disse Pérez-Carbonell, são aqueles cujo argumento você descreve aos seus amigos dizendo que a história, na verdade, não importa.