BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – A Nicarágua respondeu nesta quinta-feira (23) à crítica do governo brasileiro a respeito dos planos do ditador Daniel Ortega de acabar com as eleições no país centro-americano.

“Acusamos o recebimento da nota publicada hoje pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil e, para todos os efeitos, reiteramos que, em conformidade com nossa soberania nacional, a Nicarágua garante processos eleitorais democráticos, livres e transparentes, de acordo com as normas das instituições nacionais competentes”, escreveu em nota a chancelaria da ditadura comandada pelo líder e por sua esposa, Rosario Murillo. “Nossa democracia, nossas eleições.”

Horas antes, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) havia manifestado preocupações com as declarações de Ortega. “A realização de eleições livres, periódicas, plurais e transparentes é um dos esteios da democracia, valor com que o Brasil tem um profundo compromisso”, escreveu o Itamaraty.

A controvérsia começou no domingo (19), quando o ditador afirmou, durante uma cerimônia de comemoração da Revolução Sandinista -na qual participou há quase 50 anos- que não haveria mais eleições no país que governa há duas décadas.

“Esqueçam! Não haverá mais eleições aqui para que eles possam tentar tomar o governo, tomar o poder”, afirmou, em referência ao que chama de “partidos políticos criados pelos ianques”.

Três dias após essa fala, a Assembleia Nacional da Nicarágua, dominada por apoiadores do casal no poder, anunciou o início das “análises necessárias para desenvolver um plano de trabalho que esteja em conformidade com as orientações presidenciais”.

Lula chegou a nutrir uma relação mais próxima com Ortega, cujo regime é acusado de fraudes em eleições desde 2008. Somente em 2021, o brasileiro, então fora da Presidência, aconselhou Ortega a “não abrir mão” da democracia.

Desde então, a relação entre os dois degringolou. Em 2023, após uma tentativa frustrada de diálogo com o regime para libertar lideranças católicas, o governo brasileiro congelou as atividades da embaixada brasileira em Manágua. No ano seguinte, após novo atrito, Ortega expulsou o embaixador brasileiro, ao que Brasília respondeu com a mesma medida.

Governos de distintas colorações ideológicas demonstraram preocupação com a declaração do ditador -e alguns foram respondidos pelo regime. Ao Chile de José Antonio Kast, a ditadura disse que as declarações dadas pelo país “parecem intervencionistas”. À Bolívia, o regime afirmou que as decisões de cada nação são “próprias, dignas e soberanas”.