RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) – Um vendaval seguido de forte chuva causou uma morte, destelhamento de imóveis, queda de árvores e interrompeu o fluxo de veículos em algumas das principais vias de Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo).
As aulas nas escolas da rede municipal foram suspensas, cirurgias foram canceladas e o principal hospital de emergência da região paralisou o recebimento de pacientes na manhã desta sexta-feira (24).
Até o início da noite, cerca de 40% das instalações elétricas seguiam sem energia, enquanto a concessionária atuava para religar a rede afetada.
A tempestade, com ventos de pelo menos 121 km/h, registrados na estação meteorológica de Pradópolis, na região metropolitana de Ribeirão, teve início por volta das 5h30. Pela manhã, o Corpo de Bombeiros recebeu 250 chamados, a maioria deles ligados à queda de árvores e galhos pelas vias da cidade.
Também houve estragos em outros municípios da região, como Sertãozinho, Guariba, Pradópolis, Barrinha, Dumont e Taquaritinga. Em parte dos locais, a energia não havia voltado até o início da noite, conforme a Defesa Civil.
Semáforos inoperantes na maior parte da cidade pelo menos 50 nas principais vias, falta de energia elétrica em algumas regiões devido à queda de galhos e árvores, instabilidade em sistemas de dados de celulares e o uso de gerador para manter hospitais em funcionamento foram alguns dos reflexos da tempestade, que a prefeitura associou ao fenômeno climático El Niño.
Um idoso morreu após um desabamento no bairro Jardim Salgado Filho. Outras 20 pessoas ficaram feridas.
O quadro registrado nesta sexta-feira foi o mais grave em relação a eventos climáticos na cidade desde maio de 1994, quando um vendaval matou três pessoas e feriu outras 130.
Sem energia elétrica, as bombas dos poços artesianos que abastecem a cidade estavam sem funcionar em parte da região. Um terço da cidade, de 731 mil habitantes, chegou a ficar sem água. À noite, a CPFL Paulista estimou ter retomado a energia em 60% da cidade.
Em uma reunião do comitê de crise acompanhada pela imprensa, a concessionária informou que o cenário era grave por não se restringir a problemas internos, como quedas de árvores na fiação elétrica, e sim por atingir linhas de transmissão que alimentam a cidade.
Segundo a empresa informou na reunião, 3 das 14 subestações que abastecem o município chegaram a estar desligadas por conta de falhas nas redes de distribuição. Além disso, 34 torres foram danificadas ou caíram.
O prefeito Ricardo Silva (PSD) decretou situação de emergência. “Temos comunidades inteiras que foram atingidas de forma bem dura”, disse.
O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB) divulgou conversa com o ministro Waldez Góes (Integração e Desenvolvimento Regional), que já fez o reconhecimento do decreto de emergência “de forma sumária” e vai enviar uma equipe da Defesa Civil nacional à cidade.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse, por meio de uma ligação telefônica durante a reunião, lamentar a morte do idoso e que acompanha os problemas registrados em todas as cidades da região.
“A gente está acompanhando os estragos, toda a situação envolvida”, disse. Segundo ele, as prefeituras estão sendo orientadas sobre decretos de emergência, a exemplo de Ribeirão, e a levantar os estragos todos.
Segundo a Prefeitura de Ribeirão Preto, as condições meteorológicas registradas são compatíveis com o comportamento climático associado ao El Niño, com chuvas irregulares, mas concentradas e de forte intensidade.
SAÚDE SEM LEITOS
Cinco hospitais de Ribeirão Preto, além da Santa Casa de Sertãozinho e dos AMEs (Ambulatórios Médicos de Especialidades) de Ribeirão e Taquaritinga, relataram impactos com o vendaval.
No Hospital Santa Lydia, uma árvore caiu e bloqueou a rua de acesso à unidade hospitalar, que também foi invadida pela enxurrada. O local está operando com gerador de energia elétrica.
Já a unidade de emergência do HC (Hospital das Clínicas), vinculado à FMRP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto), da USP (Universidade de São Paulo), sofreu interdição temporária para o recebimento de pacientes após ser “fortemente atingida” pelo vendaval, segundo balanço divulgado pela prefeitura.
Houve o desabamento de parte do teto da sala de emergência e não há condições de receber pacientes, segundo o secretário da Saúde de Ribeirão, Mauricio Godinho.
Ele afirmou que o HC Campus o maior suspendeu cirurgias eletivas nesta sexta-feira e a prefeitura está tentando obter leitos de sobreaviso, já que o vendaval atingiu de forma severa toda a rede pública de saúde.
“A Saúde talvez seja a área mais afetada […] Só temos 13 leitos na emergência da UPA para garantir no momento”, disse.
A Beneficência Portuguesa também não tinha condições de receber pacientes, e a Santa Casa de Ribeirão funcionou com gerador, também após suspender cirurgias eletivas. A religação de energia foi priorizada nas unidades de saúde ao longo do dia.
Entre as vias com bloqueio para o tráfego de veículos estavam a Nove de Julho, a Dom Pedro e a Francisco Junqueira, algumas das principais da cidade, que viveram uma manhã de caos no trânsito.
Vinte e três escolas municipais suspenderam as aulas nesta sexta, entre elas Professor Salvador Marturano (Parque Ribeirão Preto), Professor Alfeu Luiz Gasparini (Angerami) e Professora Maria Ignêz Lopes Rossi (Jardim Manoel Penna).
Num intervalo de somente 20 minutos, foram registrados 24 mm de chuva, volume classificado pela Defesa Civil de Ribeirão como muito forte. Até a madrugada desta sexta, a cidade tinha registrado somente 1 mm de precipitação pluviométrica em julho.
Equipes da Defesa Civil, da GCM (Guarda Civil Metropolitana), da RP Mobi (trânsito), Corpo de Bombeiros e secretarias municipais foram às ruas para desobstruir as vias e restabelecer os serviços essenciais.
Na avenida Antônio e Helena Zerrener, a estrutura de um centro de treinamento desabou. Já na avenida Caramuru, a fachada de um estabelecimento comercial desabou.
Os problemas foram registrados em todas as regiões da cidade. Moradora da zona sul, a corretora de seguros Melina Canto, 38, disse ter acordado às 5h com o barulho da ventania e que, após os estragos, teve dificuldade para falar com os clientes que atende em outros municípios devido a problemas de conexão de internet.
“Minha sogra tem uma salgaderia e, no quarteirão dela, não caiu a energia e não ouviram o barulho por conta das máquinas de fazer salgado. Ficaram sabendo dos estragos pelos entregadores que saíram na madrugada informando que as empresas estavam devolvendo os pedidos de hoje, pois não tiveram como abrir”, disse.
Na zona norte, o empreiteiro Raphael Pereira Jardim, 23, disse ter visto estruturas de concreto destruídas pelo vento. “Tem uma obra minha que saiu o telhado completo e cheguei de uma que estava fazendo o muro e a estrutura metálica cedeu”, disse.
Já o professor de história Antônio Costola, 22, filmou e fotografou a região das avenidas Francisco Junqueira e Maurílio Biagi, onde o córrego Retiro Saudoso transbordou, para alertar amigos e familiares.
“Muita árvore caiu dentro do rio e todo o lixo ali da City Ribeirão, da Ribeirânia, desceu tudo. Muito resto de construção também”, disse.



