BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Sem apoio declarado de outros partidos e sem um candidato a vice, a convenção do PL para oficializar Flávio Bolsonaro como candidato a presidente da República vai buscar driblar o isolamento e demonstrar união da direita com a presença de aliados e destaque à Fernanda Bolsonaro, mulher do senador. O evento será neste sábado (25), em São Paulo.
O presidente da Argentina, Javier Milei, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), são presenças confirmadas. Além de Flávio, Fernanda terá a palavra, assim como o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN). Michelle Bolsonaro (PL) estará ausente apesar da recente reaproximação com o enteado.
Aliados da ex-primeira-dama dizem que ela pode compensar a ausência gravando um vídeo para ser exibido no evento, mas dirigentes do PL não contam com isso. Eles esperam, porém, que ela seja mencionada por Flávio.
O discurso de Flávio está sendo preparado pelo próprio senador, que reuniu sugestões de sua equipe de comunicação. A missão será homenagear o ex-presidente e animar a base bolsonarista num evento em que o partido espera atingir a lotação de cerca de 8.500 pessoas, mas sem deixar de seguir o script de moderação em relação às posições do pai.
Em uma live na quinta (23), Flávio chamou apoiadores para a convenção. “Vamos bater recorde de pessoas, quero fazer um desabafo sobre que está acontecendo, mas levar esperança. Estou mais do que preparado, vocês não têm ideia. Vou dar o meu melhor”, disse.
Com o objetivo de desgastar Lula (PT), Flávio deve mencionar suas propostas linha-dura para segurança pública e criticar o custo de vida atual. Em vídeos preparatórios para a convenção divulgados em suas redes, o senador é apresentado como uma alternativa de futuro ao governo do PT, que estaria ultrapassado.
No momento em que a pré-campanha de Flávio tenta reconquistar a confiança da base bolsonarista após o caso “Dark Horse”, a convenção terá tom de convocação da militância, a exemplo do jingle “Vem com fé”. O senador quer se beneficiar da mobilização espontânea da direita da qual seu pai desfrutava sem que isso atrapalhe a tentativa, mais à frente, de converter eleitores de centro.
A festa da convenção vai tentar imprimir força política a uma candidatura que nasceu desacreditada em dezembro do ano passado. Ainda assim, alguns sinais do desgaste de Flávio vão transparecer no evento.
Um exemplo é a falta de uma chapa completa. Seus articuladores pretendiam escolher um vice até meados de julho, mas para isso era preciso que PP-União Brasil ou Republicanos, que devem ficar neutros, topassem coligar e indicar um nome.
Flávio caminha para uma chapa pura do PL, que vai se refletir em desvantagem em relação a Lula no tempo de propaganda na TV. Dirigentes do PL não descartam alianças de última hora e querem definir a chapa entre 1º e 5 de agosto, prazo final das convenções partidárias.
A convenção partidária é o ato formal em que partidos e federações se reúnem para escolher os candidatos que disputarão os cargos em outubro. Os candidatos escolhidos têm que ser registrados na Justiça Eleitoral até 15 de agosto, e a campanha começa oficialmente no dia seguinte.
Após uma sequência de reveses na pré-campanha que colocaram em dúvida a viabilidade da candidatura de Flávio, o senador obteve uma vitória dois dias antes do evento Michelle declarou que aceitava seu pedido público de desculpas, reiterado um mês após a crise entre eles ter escalado.
As pazes foram articuladas durante semanas por Valdemar e amigas de Michelle, como Damares Alves (Republicanos-DF) e Celina Leão (PP-DF), seguindo o diagnóstico de que o racha no clã fragilizava o desempenho eleitoral do enteado e da madrasta, prejudicava o planejamento eleitoral do PL, limitava a mobilização da direita e dava argumento a outros partidos para evitar a coligação.
Ainda assim, Michelle não deve viajar a São Paulo para o evento. Aliados da ex-primeira-dama afirmam que ela não pode deixar Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após ser condenado por tentativa de golpe, sozinho em casa.
Organizadores da convenção afirmam que não devem tentar materializar Bolsonaro por meio de tecnologia e nem incluir recados dele no evento para evitar punições de Alexandre de Moraes. O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) baniu as visitas de Flávio ao pai depois que o senador divulgou uma carta do ex-presidente reiterando a autoridade do presidenciável do PL.
Para o senador, a convenção é a linha de chegada de uma corrida em que sua substituição foi cogitada por líderes partidários que preferiam Tarcísio ou Michelle.
Não à toa, Flávio precisou da espécie de fiança do pai para ser finalmente oficializado pelo PL mesmo após ter tido relação próxima com Daniel Vorcaro, espalhado fake news sobre urnas eletrônicas e estar no alvo de uma nova investigação sobre o financiamento do filme em homenagem a Bolsonaro.
Se, por um lado, a convenção inaugura uma nova etapa para Flávio, permanecem as especulações de que novos escândalos podem aparecer. Na live desta quinta, ele tentou pôr um ponto final maré negativa, disse que nada mais vai surgir contra ele e reclamou de ser perseguido pela imprensa e Polícia Federal.



