PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – A ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia combinou defesa da democracia e dos direitos das mulheres com “causos” engraçados na maior mesa da Feira Literária Internacional de Paraty, a Flip, nesta sexta-feira (24), e foi aplaudida de pé.
Na feira para lançar “Pela Mão do Povo – Voto e Democracia no Brasil”, livro publicado pela editora Bazar do Tempo, ela conversou com a jornalista Paula Miraglia no auditório da Matriz, sendo transmitida para uma multidão na área externa do espaço.
Recheando sua fala com citações literárias, de autores mineiros como ela -Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade- até Machado de Assis, Franz Kafka, Fiódor Dostoiévski e Gilberto Gil, a segunda mulher a integrar o STF fez uma defesa enérgica da maior presença de mulheres em cargos de autoridade, inclusive no Supremo.
Segundo ela, deveria haver igualdade no STF. “Haverá igualdade no Supremo quando houver 11 mulheres, como já houve 11 homens. Garanto até cotas para homens”, brincou.
Cármen Lúcia é a segunda mulher a ocupar o cargo de ministra no Supremo e hoje a única ministra da instituição.
Ela afirmou que, enquanto não aumentar a porcentagem de mulheres eleitas no Congresso -hoje o Brasil tem um dos piores índices da América Latina, abaixo de 30%- será difícil aumentar o número de mulheres no tribunal.
A jurista criticou também as tentativas de restringir o direito das mulheres ao voto.
“Tem gente tentando acabar ou tornar facultativo nosso direito de voto, dizem que seria melhor para as mulheres não ficarem sobrecarregadas. Voto é direito. Não precisamos que tirem, que não nos sobrecarreguem”.
A ministra teve recepção calorosa nas ruas de Paraty, com dezenas de pessoas pedindo selfies, e os ingressos para sua mesa se esgotaram em 15 minutos.
Comentando a ofensiva golpista que levou aos ataques de 8 de janeiro de 2023, Cármen Lúcia disse que por pouco não conseguiram dar um golpe, “não só pela atuação do STF, mas também pelo povo que apoiou a democracia.”
“Democrata é quem sabe perder, não é quem sabe ganhar”, disse. “Precisamos ter permanentemente a coragem da resistência, para que a democracia não corra risco no Brasil e a gente não se compadeça com nenhum tipo de aventura antidemocrática.”
Despertando risos da plateia em diversos momentos, ela contou episódios pitorescos, como o da mulher que a encontrou no supermercado em Belo Horizonte e pediu para tirar uma foto.
“Você parece demais com a Cármen Lúcia. Vou colocar a foto no Instagram e enganar todo mundo”, teria dito a mulher.
“E se eu fosse mesmo a Cármen Lúcia?”, indagou a ministra.
“Você acha que ela ia sair do supermercado carregando uma sacolinha de tomate? Você é parecida com ela, mas é muito mais simpática. Ela é rabugenta.”



