SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Elize Matsunaga esconde partes do marido, que acaba de esquartejar. No início de “Elize: Sombras de uma Mulher”, pouco se diz sobre o que levou ao crime de 2012, mas já aparecem duas faces da mesma pessoa -a mulher que se vingou do empresário Marcos Kitano e a mãe guiada pelo choro de sua bebê. Ela não quer que traumas respinguem na filha.
Fora do filme que chegou à Netflix, nesta quinta (23), o caso se tornou um fenômeno midiático, muito antes do “true crime”, como ficaram conhecidas as produções baseadas em crimes reais, dominar o streaming.
Cinco anos após o documentário “Era uma Vez um Crime”, que entrevistou Matsunaga pela primeira vez desde o assassinato, Lorena Comparato vive a assassina no longa que encena engrenagens do mercado sexual, abusos psicológicos e desilusões que antecederam a morte do chefe da Yoki.
Para tal, coube a Raphael Montes roteirizar o suspense policial. Fora livros como “Jantar Secreto” e “Dias Perfeitos” -adaptado para uma série do Globoplay-, o autor também se destacou com a novela “Beleza Fatal”, da HBO Max.
Com Camila Pitanga, a trama segue disputas à luz de um império de cirurgias plásticas e tomado por pressões estéticas. De algum jeito, lembra as cenas de “Sombras de uma Mulher” sobre o mundo das acompanhantes sexuais, antes de Elize trocar a rotina pela de esposa troféu.
Para Comparato, a subtrama dialoga com a criação da protagonista, que deixou o lar ainda jovem para fugir do padrasto abusivo, sem generalizar a profissão de longa data.
“Não queríamos que ela fosse definida por isso, e não seria certo reduzir histórias que levam mulheres ao mercado do sexo”, explica ela, que esteve em “Regra 34”, filme premiado em que uma professora resolve complementar sua renda como camgirl.
“A realidade é plural e, esse filme, apesar de baseado em fatos, é uma ficção. Mas a obra reúne dinâmicas geradas por estruturas de gênero e classes sociais como parte do contexto por trás de uma barbaridade.”
Em tela, Matsunaga se vê entre o sonho de ser mãe, que busca como uma espécie de redenção, e signos da agressividade que cresce nela, como uma cobra de estimação e os rifles de caça que aprende a usar.
Recentemente, ela também foi retratada em “Tremembé”. O seriado do Prime Video, lançado no ano passado e renovado para uma segunda temporada, dramatiza os dias na penitenciária que abriga criminosos de grande repercussão.
Junto a figuras como a Suzane von Richtofen de Marina Ruy Barbosa, a personagem, aqui na pele de Carol Garcia, conquista o regime semiaberto -em que o detento, após trabalhar durante o dia, retorna à prisão para passar a noite.
Hoje vive em liberdade condicional e virou um tipo de meme, apesar de não ter redes sociais. Não são poucos os posts, por exemplo, que a representam como ícone feminista, e há quem a tenha encontrado e feito fotos ao seu lado.
Esse cenário traz discussões sobre a suposta romantização desses rostos públicos e de seus atos, como tantos outros ligados ao “true crime”. São debates que contemplam, também, as obras de Montes, que por vezes seguem homens instáveis e que perseguem mulheres.
Muitos veem essas narrativas como importantes plataformas de denúncia. Já outros defendem que o excesso de cenas gráficas, em que violências físicas e simbólicas são descritas em detalhes, pode reforçar comportamentos misóginos.
Para o escritor e Mariana Torres, que assina o roteiro com ele, o maior desafio durante o desenvolvimento de “Sombras de uma Mulher” foi não cruzar essa linha tênue, especialmente em sequências explícitas.
“A violência não pode ser uma forma de entretenimento”, afirma Montes. “Ela precisa conscientizar e servir como reflexo de uma sociedade ainda muito violenta. Ao abordar assuntos ainda muito pertinentes hoje, a ficção, por vezes, é mais potente que a própria realidade.”
Segundo ele, a curiosidade humana explica a atração por tais histórias, ainda que nem todas as dúvidas sobre os limites humanos possam ser solucionadas. “É uma maneira de entrar em mentes como essa, e sempre quisemos investigar a complexidade de Elize. Ela vive uma história universal e, ao mesmo tempo, o declínio muito específico de um conto de fadas.”
“O interesse por essas produções vem também do interesse por nós mesmos”, adiciona Torres. “É uma manifestação da nossa própria agressividade e, desde as tragédias gregas, somos atraídos por hábitos que geram identificação.”
ELIZE: SOMBRAS DE UMA MULHER
Quando Estreia nesta qui. (23) na Netflix
Classificação 16 anos
Elenco Lorena Comparato, Henrique Kimura e Denise Weinberg
Produção Brasil, 2026
Direção Felipe Vellas



