VALENCIA, VENEZUELA (FOLHAPRESS) – O governador do estado venezuelano de Carabobo, Rafael Lacava, disse à Folha de S.Paulo que “nunca havia chorado tanto na vida” quanto nas últimas semanas, que sucederam os terremotos de 24 de junho no país.

“Foi um episódio muito forte, muito traumático. Provavelmente o mais duro da Venezuela desde a Guerra Federal. Vai levar tempo para digerirmos e superarmos isso”, afirma.

A Guerra Federal (1859-1863) foi um conflito civil que opôs oligarquia conservadora e liberais federalistas. Terminou com a assinatura do Tratado de Coche, com a vitória dos segundos. Estima-se que até 100 mil pessoas tenham morrido durante a disputa, no episódio mais sangrento da história do país.

Já os terremotos de 24 de maio mataram, no mínimo, 5.398 pessoas, de acordo com o regime da líder interina, Delcy Rodríguez. Outras 16.740 ficaram feridas, também segundo as autoridades venezuelanas. Não há um número oficial de desaparecidos, mas as estimativas de agentes não estatais chegam às dezenas de milhares.

Lacava, conhecido como Drácula e nome forte do chavismo, diz que a solidariedade que se viu no país no último mês foi fundamental para que se tentasse retomar alguma normalidade.

“O esforço do governo, dos voluntários e da comunidade internacional em La Guaira e Caracas [zonas mais afetadas pelos sismos, especialmente a primeira] é sem precedentes. Todos que vieram de fora dizem que nunca haviam visto um episódio dessa magnitude em nenhum lugar do mundo”, afirma o governador.

A cidade de Morón, que fica no litoral de Carabobo, foi o epicentro do segundo terremoto, de 7,2 graus na escala Richter. Houve ao menos 15 mortos na região.

“Nada que se compare a Caracas e La Guaira, mas sofremos também. Temos quase 600 casas derrubadas, outras 100 danificadas e 15 mortos. Começamos a reconstruir casas e atender as pessoas desde o primeiro dia”, diz Drácula, que comanda Carabobo desde 2017.

A capital do estado, Valencia, não sofreu danos relevantes, mas teve de se adaptar a uma nova realidade temporária. Com o Aeroporto Internacional Simón Bolívar, que serve Caracas, semidestruído, a cidade tem absorvido o fluxo de voos que iriam para a capital, que fica a cerca de 170 km dali.

“Passamos de 100 passageiros diários a mais de 3.000 em 48 horas. Conseguimos enfrentar uma contingência muito difícil em pouco tempo”, diz Lacava. Valencia é a terceira maior cidade da Venezuela, e sua zona metropolitana tem mais de 2 milhões de habitantes, mas seu aeroporto é enxuto.

A atuação do regime venezuelano em operações de resgate em La Guaira e Caracas é alvo de críticas de voluntários e de pessoas que ainda buscam parentes sob os escombros.