PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – Enquanto a reprovação ao Supremo Tribunal Federal bate recordes -segundo pesquisa Datafolha de maio, 40% da população reprova a instituição- a ministra Carmen Lúcia foi recebida na Feira Literária Internacional de Paraty, a Flip, aos gritos de “suprema”, “diva”, “maravilhosa”.
Cármen Lúcia participa de uma mesa no palco principal nesta sexta-feira (24) para lançar o livro “Pela mão do Povo – Voto e Democracia no Brasil”, publicado pela editora Bazar do Tempo. Os ingressos para assistir à fala da ministra se esgotaram em 15 minutos.
Sua passagem pela cidade causou ainda mais frisson do que a participação do ano passado da ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva -outra autoridade muito festejada nas ruas de Paraty.
A presença de Cármen Lúcia ofuscou até escritores consagrados. Na tarde de quinta-feira (23), um amontoado de gente pedindo fotos impedia a ministra de chegar até sua entrevista coletiva.
Atrás dela, passava tranquila e anonimamente a escritora britânica Zadie Smith, vencedora do Booker Prize e uma das estrelas da Flip, acompanhada do marido e dos filhos.
Na quarta-feira (22), em uma distância de três quarteirões entre a Pousada Literária e a pousada em que está hospedada, a ministra do STF foi parada 22 vezes e tirou fotos com mais de 50 pessoas.
Sua editora, Ana Cecília Impellizieri Martins, tem escolhido trajetos com menos gente para a movimentação da ministra e seus dois seguranças, em meio à lotação das ruas de Paraty. Nas ruas mais cheias, ela não consegue dar três passos sem ser interceptada para selfies.
A maioria dos fãs são mulheres. Mas há homens como Leandro Porto, funcionário da Enel que largou o poste que estava consertando para tirar uma foto com a ministra. “Ela é muito importante, deveria ter mais mulheres no Supremo”.
O episódio ocorreu um dia antes do apagão que deixou Paraty às escuras na quinta-feira à noite.
Embora evite polêmicas, em sua passagem pela feira literária Cármen Lúcia deixou transparecer algumas de suas preocupações, como as tentativas de restringir os votos das mulheres.
“A senhora vai votar, né? Estão querendo acabar até com nosso direito de voto”, disse a ministra ao ser abordada pela professora de matemática aposentada Aricleia, a Teteia, de 90 anos, figura muito admirada em Paraty.
Cármen Lúcia relatou à reportagem ter sido procurada por grupos de mulheres no Supremo que, entre outras coisas, querem tornar o voto feminino facultativo no Brasil.
“Elas disseram que é para não sobrecarregar as mulheres [com a obrigação de votar], imagine”, disse a ministra. “Não tem mais nada local, essa é uma discussão quem vem dos Estados Unidos.”
Nos Estados Unidos, figuras ligadas ao movimento Maga de Donald Trump vêm propondo “voto familiar”, em que apenas o chefe de família votaria.
O influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo afirmou, em uma live em julho deste ano, que as mulheres “votam muito mal”, especialmente as solteiras, já que as casadas tenderiam a acompanhar os votos dos maridos.
“Mulher vota estatisticamente muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não.”
Tal como sua contraparte americana, a juíza da Suprema Corte Ruth Bader Ginsburg, conhecida carinhosamente como “a notória RBG”, Cármen Lúcia assumiu o papel de guardiã dos direitos das mulheres em debates públicos e no tribunal.
Ela tem sido vocal em decisões no Supremo que tratam de igualdade salarial e violência contra mulheres. Foi relatora da ADPF 1107, que proibiu defesas de agressores de desqualificar a vítima ou usar estilo de vida ou comportamento sexual de mulheres para justificar crimes de violência.
“A Ellen Gracie [primeira mulher a ocupar o posto de ministra do Supremo] queria ser a Sandra O’Connor [primeira juíza da Suprema Corte americana, indicada por Ronald Reagan], ela até se vestia igual”, disse Cármen Lúcia. “Eu acompanhei a carreira da Ruth Bader Ginsburg, mas não me lembro de me compararem a ela”, desconversou.
A integridade do processo eleitoral, que voltou a ser questionada recentemente pelo candidato Flávio Bolsonaro em reunião com embaixadores, foi outro assunto que surgiu durante entrevista coletiva, embora Cármen Lúcia preferisse falar sobre seus autores preferidos: Cecília Meireles, Machado de Assis, Clarice Lispector, Somerset Maugham e Fiódor Dostoiévski.
“Espero que esse questionamento não tenha a força que chegou a ter em 2022. Tenho absoluta certeza da higidez e segurança das urnas”, disse ela.
Ela chamou de “apenas mais uma arenga” as recentes acusações infundadas de Flávio sobre as urnas eletrônicas.
Enquanto alguns ministros do STF são abertamente hostilizados em locais públicos, Cármen Lúcia foi aplaudida pelos passageiros após embarcar em voo com destino a Brasília, em junho.
Indagada sobre o fato de ter passado incólume pela onda de rechaço ao Supremo, Cármen se furtou de fazer críticas diretas a colegas como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, ministros sob escrutínio por ligações com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
“É preciso resgatar a confiança como princípio da democracia. Quando a confiança se quebra, é como cristal, difícil de consertar.”
Acha que é possível resgatar a confiança no Supremo com a composição atual?
“Até é, mas é difícil, muita coisa ficou mal explicada”, disse Cármen Lúcia, que se aposenta em 2029 do Supremo.
Ela lembra que o próximo presidente terá quatro ministros para nomear -considerando que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sinalizou que não irá considerar uma indicação para a vaga de Luís Roberto Barroso ainda no mandato do presidente Lula.
“É preciso indicar pessoas em quem a sociedade possa acreditar.”
A “notória” Cármen Lúcia espera, claro, que ao menos uma mulher seja indicada para o Supremo.



