FOLHAPRESS – Dois anos, para você, podem ser pouca coisa. Mas, para uma artista pop em auge de carreira, pode ser um tudo ou nada —um momento que define o resto de sua trajetória como pária ou ícone da cultura pop. Em 2024, Charli XCX lançou “Brat”, álbum que capturou e definiu o “zeitgeist” da cultura pop na mesma medida, lançando mão do pop avançado que a separou de seus contemporâneos. Hoje, ela segue o momento mais alto de sua carreira com o lançamento de “Music, Fashion, Film”.

Ativa desde 2008, a britânica demorou um pouco para atingir seu auge. “I Love It”, que ela escreveu para a dupla sueca Icona Pop em 2012, e “Boom Clap”, de 2014, alcançaram sucesso comercial, mas Charli ainda não havia se estabelecido como um dos nomes importantes do pop.

Na carreira de cantora pop, como na de modelo ou jogador de futebol, o sucesso costumava vir cedo e queimar rápido. Mas Charli, com seu trabalho com o selo britânico PC Music a partir de 2015, passou a representar outro tipo de estrela pop —aquela que se faz não por surfar a onda e colecionar hits nas paradas da Billboard, mas por estar sempre um pouco à frente da curva.

O gosto por batidas eletrônicas barulhentas e fragmentadas, além de seu característico vocal com auto-tune, colocou a britânica como um nome a ser ouvido por aqueles que gostam de ouvir primeiro as tendências que tomarão a música pop nos próximos anos.

Charli teve altos e baixos desde então —um baixo, em especial, foi a guinada mais convencional de “Crash”, de 2022—, mas “Brat” foi quase uma unanimidade de crítica e público, com a cantora equilibrando hedonismo noturno com momentos vulneráveis de reflexão.

De certa forma, seguir “Brat” pode ter tido a pressão de uma “maldição do segundo álbum” para Charli: apesar de ser seu sétimo lançamento de estúdio, “Music, Fashion, Film” teve a responsabilidade de suceder seu maior sucesso até então.

Fazer a mesma coisa de novo seria muito fácil. Ao contrário, Charli resolveu chocar seu público desde o primeiro passo. A primeira faixa de “Music, Fashion, Film” a ser divulgada foi “Rock Music”, em que a cantora declara que “a pista de dança está morta, então estamos fazendo rock.” Em entrevistas antes do lançamento, Charli disse que seu novo lançamento seria um disco de rock.

Com o álbum em mãos, dá pra dizer que ela estava, em partes iguais, caçando engajamento por indignação e falando sério. “Music, Fashion, Film” é um álbum cercado de guitarras distorcidas e, por vezes, pesadas. No entanto, o estilo de composição pop característico de Charli continua.

“Music, Fashion, Film” soa como um disco de rock feito com botões: baterias eletrônicas, teclados MIDI, softwares de áudio. Talvez algumas guitarras tenham sido de fato tocadas na gravação, mas o objetivo parece ser fazer música orgânica e acústica soar processada pelos mesmos filtros deturpados que vêm definindo os lançamentos de Charli desde o sucesso do EP “Vroom Vroom”, de 2016.

Como sempre, Charli não está muito longe de onde as tendências caminham. Algumas guitarras, como as da balada atormentada “Card Declined”, lembram o grunge de bandas como Hole e Babes in Toyland —momento do rock alternativo que também tem sido um ponto de referência para a atual queridinha do pop, Olivia Rodrigo.

As batidas distorcidas e vocais falhados de “2007” lembram o pop fragmentado de Underscores, cantora americana que vai abrir os shows da nova turnê de Charli nos próximos meses. “Yeah” se encaixa com facilidade no renascimento da estética indie que tem conferido sucesso underground a produtores como The Dare.

É uma troca criativa divertida de ver: Charli se alimenta das mesmas tendências que ela ajudou a criar, se influenciando e influenciando os artistas com quem colabora.

Com apenas 30 minutos, “Music, Fashion, Film” é o disco mais curto de Charli, com apenas duas faixas passando dos três minutos de duração. É possível que também seja o mais simples liricamente: faixas como “Yeah” se constroem só com repetições das mesmas frases.

Mas a brevidade não impacta a mensagem de Charli, que constrói, por meio dos pilares temáticos do álbum —música, moda e cinema, representados na capa pela presença do músico John Cale, do estilista Marc Jacobs e do diretor Martin Scorsese—, um comentário sobre a fama e a vida de uma pessoa criativa tentando funcionar sob milhões de olhares.

Essa mensagem tem seu momento mais poderoso na faixa final e mais longa do disco, “No One Lasts Forever”, com participação do cineasta David Cronenberg. As letras de Charli e as frases ditas pelo canadense refletem sobre o quão imortal um trabalho artístico pode realmente ser, e a beleza em ser esquecido da história.

“Music, Fashion, Film” é uma bela demonstração de que Charli XCX leva este pensamento à sua última instância. Nada nem ninguém dura para sempre, muito menos a carreira de uma cantora pop, que pode ser desmontada com um mero sopro na direção errada.

Mas, enquanto ela estiver por aqui, ela vai seguir fazendo a música sincera e ambiciosa que sempre fez. Como diz Cronenberg ao final do disco, “o esquecimento é liberdade”.

*

O DISCO FAIXA A FAIXA

“Rock Music”

Primeiro single de “Music, Fashion Film”, a faixa assustou os fãs do pop de Charli pelas guitarras pesadas.

“SS26”

Uma balada melancólica que parece inspirada no som indie do The 1975, banda do marido de Charli, George Daniel.

“Card Declined”

O momento mais grunge do álbum é uma ode à personalidade nova que você pode adquirir via consumismo – claro, com uma dose de ironia.

“Camera”

Com um refrão contagioso, Charli reflete sobre a relação ambígua de artistas com as câmeras que o cercam.

“2007”

Uma faixa breve e divertida, pode ser o aceno da cantora à sua amada pista de dança.

“I’m Afraid”

A balada acústica – até os efeitos barulhentos que entram no refrão – mostra Charli em sua posição mais vulnerável no álbum, discutindo seu recente casamento.

“Yeah”

Com poucas palavras e frases, a britânica volta às suas influências “indie sleaze”, repaginadas para 2026.

“Wink Wink”

A melhor letra do álbum mostra Charli deixando seu passado de “garota má” para trás – será?

“Persona”

O momento mais fraco de “Music, Fashion, Film”, que lança mão de uma estrutura de composição que a cantora já usou inúmeras vezes.

“Magic Metal Montana”

Outra faixa com forte influência indie, a faixa é uma homenagem de Charli a A.G. Cook, seu companheiro de composição e produção há uma década.

“No One Lasts Forever feat. David Cronenberg”

O fechamento de “Music, Fashion, Film” lembra os tempos mais “hyperpop” de Charli – como seu álbum de pandemia, “how i’m feeling now”. Com as falas de David Cronenberg, o álbum encerra de forma bonita sua discussão de fama e imortalidade.

*

MUSIC, FASHION, FILM

– Avaliação Muito bom

– Autoria Charli XCX

– Gravadora Atlantic Records

– Onde ouvir Nas plataformas digitais