FOLHAPRESS – É impossível dar dimensão de todo o alcance da macumba na música brasileira. Há um sem-fim de sons que une antigos registros de pontos de terreiro em goma-laca a propostas modernas dissidentes da própria coluna vertebral dessas práticas religiosas —o ritmo, transformado em música eletrônica, como no BaianaSystem, ou em antítese, caso do trio Passo Torto.

Dá para contar nos dedos, contudo, quantos artistas fazem de seu palco uma encruzilhada para a música de prece e rito afro-brasileiro. No país em que o preconceito contra religiões de matriz africana é flagrante, há uma audácia bem-vinda em sua maior estrela pop se mostrar, de fato, macumbeira.

“Equilibrium 2” acentua o caminho aberto por Anitta desde alguns anos, quando ela declarou publicamente sua fé. O disco não faz proselitismo barato. Ao contrário, faz do universo desse mundo de rodas e outros planos um emaranhado pop divertido. Há momentos de pouca inspiração, letras inofensivas, mas o álbum é ponto alto na carreira da cantora. Um bálsamo rubro-negro em tempos de tanta carolice ou hedonismo barato.

“Você Já Sabe”, faixa-abre, orienta a escuta. A partir dali, Anitta vai brilhar quando opera uma teogonia de sincretismo que une bailes e terreiros, funk e samba, capelinhas e templos, Marias e Padilhas, encantados de toda sorte —um arco vasto. Num simples e esperto jogo de harmonia, que mostra a dualidade a partir da voz da cantora, também fica nítido o dedo do trio Los Brasileros, que liderou a produção do projeto.

O trabalho dos produtores se destaca no excelente encaixe entre vocabulários e linguagens percussivas. Há toques intrincados no disco —em se tratando de pop—, polirritmias e samples, e um grave eloquente quando presente. É um quebra-cabeça acústico e digital que dá vazão a uma Anitta ora carinhosa, ora mordaz —quando ela relembra seus tempos de MC.

Ao lado de Kbrum, ponta de lança da cena Brasil-Jamaica dos subúrbios cariocas, a artista faz um dancehall pronto para o baile em “Sal Grosso” —o kick tem potência de sobra para sound system. A faixa também conta com outros jovens nomes que saíram do underground do SoundCloud para as primeiras filas da nova música brasileira, caso dos talentosos produtores Maffalda e Carlos do Complexo.

“Feitiço”, com Mart’nália, é outro êxito: um cântico que une samba de caboclo a harmonias de sintetizadores virtuais, atabaques digitalizados a um imprevisível e ultra-processado “donk bass” —textura muito comum na ala mais pop da música eletrônica brasileira.

“Sem Pressa” segue a mesma linha, mas é um ijexá em que a voz branda de Anitta se irmana ao timbre acolhedor de MC Tha –nome que há muito leva as religiões de matriz africana como núcleo de sua música.

Os encontros dão aos montes no disco, como na primeira parte do projeto. Neste caso, porém, Anitta parece trazer os convidados mais para si do que o contrário. Maria Bethânia declama um poema num afoxé místico, “Ogum Me Rodeia”. “Deus Mãe”, com a rapper KING Saints, é um afrobeats singelo.

“Oke”, com o grupo indígena Brô MC’s faz um apanhado de povos originários brasileiros, da mesma forma que o clássico “Endereço dos Bailes” lembrou as festas de funk do Rio.

O reggae “Abre Caminho” é uma revisitação justa à versão brasileira, praiana e carpe-diem do gênero e seu maior sucesso, “Beija Flor”, do Natiruts —o vocalista, Alexandre Cato, chega junto na faixa. O forró com Alceu Valença também brilha com alguma psicodelia e a produção de pegada lo-fi de Marcio Arantes, parceiro de longa data de Anitta. É também uma das faixas com letra menos óbvia das canções feitas para performar nas plataformas de streaming.

Já os sambas do álbum não têm tanta força. Entre bossa nova revisitada e MPB contemporânea de playlist de streaming, as canções são adequadas e sem muita personalidade. “Ponta do Pé” é um calcanhar de Aquiles do disco. Há nela uma intenção de samba de salão, sopros proeminentes, mas o conjunto e a menção a “litrão” soam como trilha de anúncio publicitário de marca de moda praia carioca.

A marchinha “Pra Você Gostar de Mim” cativa pela letra, mas só. A versão em espanhol de “Azul” dilui as resoluções de acordes inusitados de Djavan a uma versão com pinta de música de lounge —difícil distinguir Anitta de outras cantoras do pop em espanhol, como Karol G.

O pop internacionalista parece ter saído da lista de prioridades de Anitta. Como se ter ido fosse necessário voltar, a cantora retorna ao Brasil “de facto” e “de jure”. “Equilibrium 2” foi gravado no Brasil, com Anitta municiada de uma entourage criativa brasileira que sabe lidar com símbolos e elementos culturais nacionais.

“Funk Generation”, o último grande projeto da cantora, falhou exatamente nessa ambição: gravado em boa parte nos Estados Unidos, o álbum vacila entre cá e lá, embora tenha boas faixas de baile. Em “Equilibrium 2”, a artista se funda nas matrizes da cultura brasileira para se ligar consigo mesma —religião, afinal, vem do latim “religare”.

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FAIXAS DE DESTAQUE DE ‘EQUILIBRIUM 2’

“Você Já Sabe” (com o trio Los Brasileiros)

Faixa-abre que orienta a escuta, num sincretismo entre funk e samba e com um simples e esperto jogo de harmonia, que mostra a dualidade a partir da voz da cantora

“Sal Grosso” (com Kbrum)

Ao lado de Kbrum, ponta de lança da cena Brasil-Jamaica dos subúrbios cariocas, a artista faz um dancehall pronto para o baile. O kick tem potência de sobra para sound system

“Não Me Cutuca” (com Alceu Valença)

Com letra pouco óbvia, brilha o forró com Alceu Valença, com alguma psicodelia e a produção de pegada lo-fi de Marcio Arantes

“Feitiço” (com Mart’nália)

Um cântico que une samba de caboclo a harmonias de sintetizadores virtuais, atabaques digitalizados a um imprevisível e ultra-processado “donk bass”

“Ponta do Pé”

Canção frágil do disco, tem uma intenção de samba de salão, mas o conjunto e a menção a “litrão” soam como trilha de anúncio publicitário

“Abre Caminho” (com Alexandre Carlo)

Este reggae é uma revisitação justa à versão brasileira, praiana e carpe-diem do gênero e seu maior sucesso, “Beija Flor”, do Natiruts

“Sem Pressa” (com MC Tha)

Um ijexá em que a voz branda de Anitta se irmana ao timbre acolhedor de MC Tha

“Deus Mãe” (com King Saints)

Um afrobeats singelo que casa bem com o restante da proposta do disco

“Ogum Me Rodeia” (com Maria Bethânia e Letícia Fialho)

A artista baiana declama um poema nesta música que é um afoxé místico

“Pra Você Gostar de Mim”

Uma marchinha que não cativa para além da letra

“Azul”

Versão em espanhol que dilui as resoluções de acordes inusitados de Djavan a uma faixa com pinta de música de lounge

“Oke” (com Bro Mc’s e Katú Mirim)

Remete ao clássico “Endereço dos Bailes”, que lembrou as festas de funk do Rio, numa faixa com o grupo indígena Brô MC’s, com um apanhado de povos originários brasileiros

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EQUILIBRIUM 2

– Avaliação Muito bom

– Autoria Anitta

– Gravadora Floresta Records, Republic Records e Universal Music Latino

– Onde ouvir Nas plataformas digitais