SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em 16 de fevereiro de 1897, um jornal reportou que Antônio Conselheiro e seus seguidores haviam se desmembrado e abandonado Canudos. Menos de um mês depois, outro periódico justificava a guerra do Exército contra a pequena comunidade baiana dizendo que o conflito “não se tratava apenas de combater um grupo de fanáticos ignorantes, ou de malfeitores insensatos mas sim de enfrentar com um núcleo de revoltados contra o sistema de governo”.
Retirados de jornais do acervo da Biblioteca Nacional, os trechos mostram o papel da imprensa em apoiar a revolução governista contra o líder religioso que tentou estabelecer uma sociedade autossuficiente longe das amarras da então recém-formada República. Em sucessivas investidas do governo ao longo de cerca de um ano, o grupo de Canudos foi dizimado o que, para o artista Igor Vidor, é um marco na história da violência do Estado brasileiro.
De sua pesquisa sobre Canudos nos últimos anos, com sucessivas idas à região onde um dia ficou o povoado, hoje com seus restos históricos submersos, Vidor criou as obras expostas na mostra “Cavalo Pálido e os Sanguis-Fé”.
Em cartaz na galeria Verve, em São Paulo, trata-se de um novo capítulo no trabalho do artista, que costuma abordar, em sua produção, a opressão do governo do Brasil contra os cidadãos ditos dissidentes. “Canudos é a gênese da violência”, afirma Vidor.
Vidor colocou os trechos dos jornais históricos sobre imagens de plantas típicas da caatinga, o bioma de Belo Monte, nome oficial de Canudos. Estas imagens foram impressas em diferentes tipos de terra coletadas pelo artista na região ele mói o solo e cola os grãos com aglutinador, antes de dispor a goma numa base de madeira, que funciona como tela para receber a tinta da impressora.
O resultado são quadros entre a fotografia e a pintura, de luminosidade sóbria e quente ao mesmo tempo, numa série de obras que traz ao espectador notícias do passado de Canudos, pelos recortes de jornal, mas também do presente, com as imagens das plantas sobre uma amostra do solo do lugar. Parece um gesto cuidadoso de preservação da memória por parte do artista. “É uma flora que resiste ao clima superárido”, ele afirma, sobre a força da vegetação local.
No espaço expositivo, a iluminação recebeu um filtro para ficar mais baixa e com tons terrosos, criando uma atmosfera que dialoga com os trabalhos em exibição, como os da série “Catinga de Topo”. As telas deste conjunto parecem fotografias de vistas aéreas do semiárido nordestino, os arbustos dispersos na imensidão do solo seco. Mas o artista atingiu essa estética de forma inusitada, ao dispor e queimar pólvora sobre telas de madeira. As imagens surgidas das cinzas têm aparência borrada, enfumaçada.
Usar pólvora em trabalhos sobre um dos episódios mais sangrentos da formação do Brasil é também um comentário sobre a violência. Noutra tela, em frente a uma paisagem de Belo Monte, vemos duas fotos de fuzis enfileirados uma tirada pelo artista no museu da história da fabricação das armas de fogo, em Oberndorf am Neckar, no interior da Alemanha, e outra no Museu-Casa Vó Izabel, na região histórica de Canudos.
Parte dos fuzis e do armamento pesado utilizados pelo Exército no massacre de Canudos veio de fábricas alemãs. Enquanto no país europeu este material é exibido como registro histórico, indicativo da proeza da indústria bélica local, no Brasil ele vira lembrança das mais de 20 mil vidas perdidas na guerra contra Antônio Conselheiro e seus seguidores.
“São dois museus pequenos em cidades do interior, mas com abordagens completamente diferentes sobre a construção da memória”, afirma o artista. “Há uma necessidade dos canudenses de contar a história que não é a história oficial.”
IGOR VIDOR – CAVALO PÁLIDO E OS SANGUIS-FÉ
– Quando Até 15 de agosto. De terça à sexta, das 11h às 18h, e sábado, das 12h às 17h
– Onde Verve galeria – av. São Luís, 192, salas 26 e 27
– Preço Grátis
– Link: https://www.vervegaleria.com/exposicoes/cavalo-palido-e-os-sanguis-fe/



