SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Lia e o marido transformaram a cozinha de casa num campo de batalha. Em meio à discussão, eles gesticulam com a intensidade de quem expurga anos de mágoas e ressentimentos. Nessa briga, porém, o casal não grita nem levanta a voz. O que se ouve são apenas sussurros que fazem o bate-boca parecer um segredo. A violência do embate, afinal, não está no que os dois dizem, mas nas palavras que os espectadores imaginam.
Esse conflito silencioso é uma das sínteses de “Lia Lia”, espetáculo que chega ao Centro Cultural Fiesp, nesta sexta-feira, convocando o público a preencher lacunas e construir um mosaico narrativo. Com Bete Coelho e Camila Pitanga, a produção desembarca na capital depois de ter excursionado por cidades do interior paulista, como Sorocaba, Campinas e Ribeirão Preto.
Embora as duas atrizes dividam o mesmo papel, elas atribuem à personagem nuances e inflexões diferentes. Enquanto Pitanga empresta inocência e docilidade à sua Lia, Coelho faz dela uma mulher visceral e vulcânica.
“Não queríamos achatar, tentar fazer igual, com voz e corpo semelhantes, mas ter essa multiplicidade que vem do livro”, afirma Coelho, lembrando “Lia: Cem Vistas do Monte Fuji”, romance de Caetano W. Galindo, colunista deste jornal, que deu origem ao espetáculo.
Lançada há dois anos, a obra narra a vida de Lia por meio de 99 narrativas que funcionam de forma fragmentada e independente. Cada uma dessas histórias, com tom emocional e memorialístico, traz um pedaço da protagonista, formando uma miscelânea.
“Quando li o PDF que ele mandou antes da publicação, me pus naquela personagem e achava que era eu ali”, afirma Coelho, que também assina a direção da peça ao lado de Gabriel Fernandes. “Houve um contato pessoal, eu me apropriei muito daquilo.”
Da mesma maneira, a peça conduz o público a uma jornada por Lia. Vemos, por exemplo, a relação difícil com a mãe e com os colegas de escola. Há ainda cenas centradas em como a protagonista precisou criar a filha sozinha depois de se separar do marido.
São situações comuns na vida de outras tantas mulheres, já retratadas na arte, mas que se tornam especiais aqui pela linguagem.
Na peça, uma briga de casal lembra um filme mudo, em que gestos têm primazia sobre a palavra. Noutra cena, o toque de um rapaz em seu cabelo faz Lia embarcar numa jornada que se assemelha à descoberta do prazer.
Na pele da personagem, Coelho se contorce sobre uma cadeira com o olhar tomado por deleite e espanto. Enquanto isso, um coro de oito atrizes traduz a catarse da mulher em cena. “Eu sempre quis trabalhar com um coro que comenta, reverbera e amplia a situação”, afirma a intérprete. O grupo é formado por duas artistas da Teatrofilme, companhia que Coelho ajudou a fundar há 17 anos, e por seis profissionais do Núcleo de Artes Cênicas do Sesi.
“O coro altera o nosso lugar de reflexão sobre qualquer coisa da vida. Ele sai do clichê do dia a dia, do naturalismo e do realismo”, diz Bete Coelho. Essa subversão da realidade pode ser sentida também na cenografia, assinada por Daniela Thomas e Felipe Tassara.
Em cena, dezenas de barbantes descem do teto e se conectam a mesas e cadeiras distribuídas pelo palco, com as quais as atrizes interagem. Ora os fios parecem uma cela que as aprisiona, ora lembram camisas de força, numa constante luta contra o cenário.
“Eu aprendi há muito tempo que você não deve facilitar o corpo do ator”, diz Coelho. “Você tem que criar obstáculos e desequilíbrios para causar estranheza.”
Em suas peças, a atriz também não economiza na emoção ”não me interessa esse riso de canto de boca, quero o riso escancarado, o choro, a lágrima” e foge do didatismo. Em “Lia Lia”, a narrativa desafia o público com uma estrutura fragmentada e não linear. A produção se vale ainda de aspectos da linguagem cinematográfica ao incorporar o corte seco de modo que não há transição entre uma cena e outra.
“Se você dá a comida toda mastigada, a pessoa não tem o prazer de saborear”, diz Coelho. Para a atriz, simplificar informações para facilitar o entendimento é um dos efeitos das comodidades criadas pela tecnologia. “Acho que é um pensamento contemporâneo que tem acontecido com essa inércia, com essa preguicinha de sair um pouco do conforto para saber que a vida é inquietante e que ela pode ser penosa.”
Opinião parecida tem Camila Pitanga, para quem é preferível a dificuldade da lucidez à passividade da alienação. “É uma luta você se manter lúcido nos dias de hoje. Mas essa lucidez que dói dá chance de mais autonomia, do exercício pleno da liberdade.”
A Lia da atriz, inclusive, parece fascinada por uma liberdade recém-descoberta. Isso se faz sentir quando a personagem decide dormir nua pela primeira vez numa noite de calor inclemente. Por outro lado, ela experimenta os sacrifícios inerentes ao puerpério e à maternidade solo.
De certa forma, é como se a protagonista encarnasse diferentes mulheres em uma mesma vida. “Nenhuma pessoa é uma coisa só. Somos diferentes a depender da relação que estabelecemos”, diz Pitanga. “A gente fala dessa multiplicidade e faz com que a Lia seja parte desse caleidoscópio.”
É justamente esse caráter múltiplo da personagem que gera identificação nas pessoas. “Lia pode ser você, pode ser eu, pode ser sua mãe, sua avó”, afirma Gabriel Fernandes, que assina a direção do espetáculo ao lado da atriz Bete Coelho. “Óbvio que tem um enfoque feminino, mas ela pode ser qualquer pessoa que esteja sentada na plateia.”
LIA LIA
– Quando Qui. a sáb., às 20h. Dom., às 18h. Até 9 de agosto
– Onde Centro Cultural Fiesp – av. Paulista, 1.313, São Paulo
– Preço Grátis
– Classificação 14 anos
– Elenco Bete Coelho e Camila Pitanga
– Direção Bete Coelho e Gabriel Fernandes
– Texto Caetano W. Galindo



