SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) – O primeiro fóssil relativamente completo de uma cobra da Era dos Dinossauros a ser achado no Brasil traz pistas importantes sobre como as serpentes surgiram e se diversificaram. Batizado com o nome tupi Tametara mirim, era um animal de tamanho modesto que provavelmente passava boa parte da vida debaixo da terra, ao contrário de outras cobras primitivas e modernas.
A descrição detalhada da espécie saiu em artigo publicado na última quarta (22) na revista científica Nature, uma das mais importantes do mundo. O trabalho é uma colaboração entre pesquisadores brasileiros e colegas de diversas instituições mundo afora. Entre os autores do estudo estão Gabriela Sobral, pesquisadora ligada à UnB (Universidade de Brasília) e ao Museu de Estadual de História Natural de Stuttgart, na Alemanha, Tiago Simões, da Universidade de Princeton (Estados Unidos), e Annie Hsiou, da USP de Ribeirão Preto (SP).
A T. mirim foi achada em rochas do município de Presidente Prudente e hoje tem como lar o Museu Paleontológico de Marília, ambos no interior de São Paulo. Com idade estimada entre 85 milhões e 75 milhões de anos, seu esqueleto está articulado (ou seja, com os ossos encaixados entre si na posição que tinham em vida), com preservação da metade posterior do crânio e de 103 vértebras.
No total, o fóssil mede 41,9 cm de comprimento, mas seu tamanho original devia ser consideravelmente maior porque as vértebras a partir da região da cloaca (área que combina os processos de excreção e reprodução) não foram preservadas. No nome científico, mirim é, como seria de se esperar, uma referência às dimensões pequenas do fóssil, enquanto Tametara, que significa “adornado”, diz respeito à presença de uma crista no crânio.
Os pesquisadores submeteram o fóssil à microtomografia computadorizada de alta resolução para reconstruir detalhes da anatomia do cérebro e do ouvido interno do bicho. De posse dessas informações, e comparando-as com o que se sabe sobre outras cobras primitivas e modernas e sobre outros répteis, foi possível fazer uma série de inferências sobre o comportamento e os órgãos dos sentidos da T. mirim.
Segundo Gabriela Sobral, um dos detalhes mais impressionantes que apareceram durante a análise foi a ausência de um desenvolvimento maior do teto óptico, região cerebral importante para a visão em vertebrados que não são mamíferos.
“Em cobras, em geral, você tem uma marcação na parte interna da caixa craniana correspondente ao teto óptico. Mas ela não aparece na Tametara”, explicou ela à reportagem. É um indício forte de que o bicho tinha hábitos fossoriais (de vida embaixo da terra). “Não seria algo eventual, superficial ela realmente estava habitando um ambiente subterrâneo.”
Além disso, detalhes da área do ouvido, como o vestíbulo, lembram as de lagartos atuais e facilitariam a captação de sons de baixa frequência. “São sons que se propagam bem em ambientes sólidos”, diz a pesquisadora ou seja, ao que parece, a audição da pequena serpente também estava otimizada para funcionar dentro da terra.
Por fim, os ossos do crânio são relativamente densos e têm uma sobreposição entre si, o que indica um reforço das estruturas ósseas para suportar a pressão física causada pelo hábito de se enterrar.
Além de desvendar a relação entre a anatomia do bicho e seus prováveis hábitos, a equipe conduziu uma análise que ajuda a encaixar a T. mirim no álbum de família das serpentes extintas e atuais.
Por suas características ainda muito primitivas, a espécie fóssil brasileira se encaixa no chamado grupo troncal das serpentes, que inclui todos os subgrupos mais próximos delas do que dos lagartos (considerando que elas surgiram a partir dos lagartos), mas que incluem muitos membros extintos. Já as espécies atuais e o ancestral comum de todas elas formam o chamado grupo coroa. Isso significa que a T. mirim pertence a uma linhagem já extinta, sem parentes próximos atuais.
Por outro lado, o registro fóssil das cobras da Era dos Dinossauros contém ao menos uma “prima de primeiro grau” da espécie do interior paulista e ela é da Argentina. Trata-se da Najash rionegrina, espécie com cerca de 90 milhões de anos que viveu no norte da Patagônia.
O parentesco com a Najash, aliás, pode ser uma pista de como seria a porção final do esqueleto da T. mirim, que acabou não sendo preservado. Acontece que a espécie argentina tinha pequenas patas traseiras, e seria razoável imaginar que a serpente brasileira também contava com esses membros, embora não seja possível afirmar isso com todas as letras enquanto outros esqueletos fósseis não forem encontrados.
Os hábitos fossoriais da T. mirim não seriam razão suficiente para afirmar que as serpentes surgiram quando certos lagartos intensificaram a exploração dos ambientes subterrâneos. Os autores do novo destacam que outras formas primitivas do grupo parecem ter tipo hábitos aquáticos ou terrestres (nesse caso, sem se enterrar). Isso sugeriria que, no início de sua trajetória evolutiva, o grupo chegou a explorar diferentes estilos de vida dependendo do contexto.



