RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A letalidade de operações policiais na Baixada Fluminense se concentra em territórios identificados como dominados pelo CV (Comando Vermelho), segundo pesquisa da IDMJRacial (Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial), divulgada nesta sexta-feira (24).
Os dados mostram que 5 dos 13 municípios da região concentram 75% das mortes registradas em ações policiais de 2020 a 2025. São eles: Duque de Caxias, Belford Roxo, São João de Meriti, Nova Iguaçu e Japeri.
O levantamento identificou 5.298 operações no período, com 282 mortos, 652 feridos, 5.783 prisões e 41 adolescentes apreendidos. Duque de Caxias lidera o ranking de vítimas, com 66 mortos e 160 feridos. Em seguida aparecem Belford Roxo, com 48 mortos e 127 feridos, e São João de Meriti, com 41 mortos e 77 feridos.
A Polícia Civil disse que o aumento de operações deve-se à retomada plena de atividades após a pandemia e à criação de delegacias especializadas. Afirmou ainda que a concentração reflete a presença de organizações criminosas fortemente armadas. A Polícia Militar não comentou.
A IDMJRacial afirma que a concentração foi identificada a partir da análise dos territórios específicos atingidos pelas operações, e não significa que todos os bairros dos municípios tenham o mesmo domínio criminal.
Segundo Kharine Gil, pesquisadora responsável pela coleta e análise dos dados, a organização observou uma convergência entre os locais mais atingidos e áreas identificadas como dominadas pelo CV. “Existe uma concentração tanto territorial quanto por unidade policial”, afirmou Kharine à Folha.
O 15º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo policiamento em Duque de Caxias, foi a unidade que mais realizou operações na Baixada: 1.289. Também liderou em mortes, com 71, e registrou 142 feridos. O 20º BPM, que atua em Nova Iguaçu, Nilópolis e Mesquita, aparece em seguida, com 1.034 operações, 51 mortos e 156 feridos. O 39º BPM, de Belford Roxo, teve 569 operações, 45 mortos e 120 feridos.
A pesquisa foi feita a partir da coleta manual de publicações das próprias polícias nas redes sociais. A equipe analisou registros da Polícia Militar no X, antigo Twitter, e da Polícia Civil no Facebook, cruzando e tratando as informações para evitar duplicidades em ações conjuntas.
Segundo Kharine, a queda no número total de operações não foi acompanhada necessariamente por uma atuação menos violenta. Foram 1.486 ações em 2022, número que caiu para 1.233 em 2023, 1.061 em 2024 e 655 em 2025.
A pesquisadora ressalva que os dados de 2024 podem estar subnotificados. Naquele ano, a PM deixou de publicar registros no X durante o período em que a plataforma esteve suspensa no Brasil e migrou para o Bluesky.
Embora a PM tenha respondido por 86% das operações identificadas, a pesquisa aponta aumento da participação da Polícia Civil. O número de ações da corporação passou de 47 em 2020 para 336 em 2024, alta de 614%, segundo o levantamento.
Em 2025 foram registradas 66 operações da Polícia Civil. Doze delas tiveram ao menos uma morte, e a taxa de letalidade calculada pela IDMJRacial número de mortos dividido pelo total de operações passou de 2% em 2024 para 18% em 2025.
Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o estado do Rio teve uma queda de 20,7% na proporção de mortes violentas registradas em 2025, na comparação com 2020 um recuo de 28,5 casos por 100 mil habitantes para 22,6.
ARMAS E BARRICADAS
Nas apreensões, pistolas representaram 21% dos registros e rádios comunicadores, 19,9%. Fuzis foram identificados em 5,5% das ocorrências. Para a IDMJRacial, os dados levantam questionamentos sobre a proporcionalidade entre o armamento encontrado e o nível de força empregado nas operações.
“Quando a gente vai observar os objetos que estão sendo apreendidos, rádio comunicador ganha”, disse Kharine. Segundo ela, em algumas ações analisadas, os registros indicavam apreensões de rádios, pequenas quantidades de drogas ou outros objetos, sem armas de alto poder de fogo.
A pesquisa também registrou 257 operações destinadas exclusivamente à retirada de barricadas entre de 2020 a 2025, 71 delas em 2025. O programa Barricada Zero foi lançado em Belford Roxo pelo então prefeito Márcio Canella e posteriormente ampliado pelo governo estadual.
Para Kharine, a remoção de barricadas pode provocar confrontos e interromper a rotina de moradores, sem necessariamente impedir que as estruturas sejam reconstruídas. “A presença da polícia nesses espaços é violenta”, afirmou.
A IDMJRacial afirma que os dados sobre mortos, feridos, presos e adolescentes apreendidos correspondem às informações disponíveis no momento dos registros policiais. A organização não consegue acompanhar a evolução posterior dos feridos ou saber se adolescentes apreendidos foram efetivamente encaminhados ao sistema socioeducativo.
‘POLÍCIA CIVIL NÃO PLANEJA CONFRONTOS’
A Polícia Civil disse que o aumento do número de operações deve-se à retomada plena das atividades após as restrições da pandemia e à recente criação de delegacias especializadas na Baixada apontadas como demanda histórica da população e das autoridades locais.
Ainda segundo a polícia, o objetivo das ações é “cumprir mandados judiciais, prender criminosos e proteger a população”, e a concentração de ocorrências em determinados locais reflete a presença de organizações criminosas fortemente armadas nessas áreas.
“A Polícia Civil não planeja confrontos, mas operações de polícia judiciária. A reação armada parte de criminosos que optam por enfrentar o Estado. Quando há rendição, há prisão; quando há ataque com armas de guerra, a resposta policial ocorre nos estritos limites da lei.”



