SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Enquanto defende menos telas no ambiente escolar, o Ministério da Educação (MEC) aposta agora no celular como porta de entrada para a leitura dos estudantes brasileiros. A pasta lançou uma biblioteca digital gratuita e busca transformar o aparelho, apontado como um dos principais fatores de distração nas salas de aula, em porta de entrada para os livros.

O movimento ocorre num momento em que sistemas educacionais de diversos países reduzem o uso de tecnologia no ensino e retomam os livros físicos e a escrita à mão diante de evidências de perda de aprendizagem com abuso dos meios digitais.

Para o ministro da Educação, Leonardo Barchini, não há contradição. “O celular hoje é mais democrático do que uma biblioteca”, afirmou à reportagem, durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). “A gente quer tirar o jovem da tela em que ele fica rolando o algorimo das redes sociais para uma tela do bem, com conteúdo.”

Lançado há pouco mais de três meses, o MEC Livros atingiu 1 milhão de usuários, segundo o ministério. O catálogo, inicialmente previsto para reunir 8.000 títulos, soma cerca de 25 mil obras, diz Barchini. De acordo com ele, o orçamento de R$ 5 milhões reservado à plataforma neste ano deverá ser dobrado para atender ao seu crescimento.

A expansão da biblioteca digital acontece enquanto o MEC enfrenta questionamentos em outras frentes de sua política educacional.

Um estudo dos economistas Ricardo Paes de Barros e Laura Müller Machado, do Insper, obtido pela Folha, apontou para uma queda inesperada no desempenho das escolas públicas de ensino médio em tempo integral no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), principal indicador da educação básica.

Num país com tradição de meio período escolar, a medida de tornar o ensino em tempo integral é considerada há anos a principal aposta de governos e especialistas para elevar a qualidade da educação no Brasil. Mas a modalidade perdeu 40% da vantagem que mantinha sobre as escolas de período parcial.

Para Barchini, “todo o processo de expansão implica em uma queda de proficiência”, ao menos temporária. Segundo o ministro, as políticas de tempo integral no Brasil começaram em “escolas com infraestrutura, localizadas nos melhores bairros, com os melhores professores e os melhores estudantes”.

“Quando você começa a levar o tempo integral para um bairro periférico de uma cidade, você muda toda a lógica. Você precisa adaptar a escola, levar outros professores, fazer formação. Então é natural que, num processo de expansão, a proficiência caia um pouco”, avalia.

Os resultados do próximo Ideb, que devem ser divulgados no próximo dia 5 de agosto, segundo o ministério, devem confirmar ou não essa tendência.

Além disso, o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), uma das maiores políticas públicas de compra de livros do mundo, enfrenta restrições orçamentárias que, no ano passado, colocaram em risco a aquisição de cerca de 240 milhões de exemplares previstos para 2026.

O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) iniciou a compra apenas dos livros de língua portuguesa e matemática destinados aos anos iniciais do ensino fundamental e condicionou a aquisição das demais disciplinas e etapas de ensino à obtenção de recursos adicionais. A gestão federal chegou a dizer ter adquirido a verba necessária, depois não comprou cerca de 52 milhões de exemplares para o início deste semestre.

“Como o programa literário envolve editoras menores, a orientação do governo de um ano para cá foi de priorizá-lo, então não tem tido atraso nestes pagamentos”, afirma.

Segundo o ministro, a previsão para o ano que vem é não ter atrasos em relação aos livros didáticos. Mas ele admite que hoje há um tensionamento cada vez maior nas negociações entre o FNDE e as editoras. Neste mês, a Folha de S.Paulo mostrou que empresas responsáveis pela impressão de obras em braile já reclamam de novos atrasos do governo.

É nesse cenário que o MEC sustenta que a aposta no digital não representa uma substituição do livro físico. “A gente acredita no livro físico. A atenção é muito maior no livro físico”, diz. “Até agora não inventaram nada melhor do que duas coisas: o livro didático físico e o professor dando aula.”

O ministro cita a Finlândia entre os países que recuaram da digitalização ampla das escolas e afirma que o avanço das telas coincide com um período de queda da proficiência em leitura e matemática observada em avaliações internacionais.

A biblioteca digital, sustenta, teria outro objetivo. “Nem todas as cidades brasileiras têm bibliotecas. E tem escolas que nem biblioteca têm. O celular hoje chega a muito mais gente.”

Segundo Barchini, o MEC está “competindo por tempo e atenção” dos jovens. O catálogo reúne desde mangás e quadrinhos até clássicos da literatura brasileira e mundial.

Entre os livros mais procurados estão “Noites Brancas”, de Fiódor Dostoiévski, e “Torto Arado”, de Itamar Vieira Júnior, ambos com mais de 3.000 empréstimos cada, além de “A Vegetariana”, da sul-coreana Han Kang (2.385 empréstimos), “Cabeça de Santo”, de Socorro Acioli (1.852), “Chico Bento: Natureza e Os Biomas Brasileiros”, de Maurício de Sousa (969) e “Capitães de Areia”, Jorge Amado.

Em festa literária, em Paraty, o ministro disse que seu livro favorido é “Amor nos Tempos do Cólera”, do colombiano Gabriel García Márquez, mas diz que ultimamente tem se dedicado à leitura de artigos científicos e planilhas orçamentárias.