NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) – Se é verdade que tragédias naturais de grande magnitude, como terremotos, catalisam mudanças na política da América Latina desde o século passado, também o é que seus efeitos não são tão rápidos e, muito menos, fáceis de prever.

Um mês após os terremotos que destruíram parte da Venezuela, os desdobramentos políticos dessa tragédia e da resposta que se seguiu pelo regime chavista, hoje tutelado pelos Estados Unidos, continuam incertos.

Duas expectativas contrárias convergiam logo após o desastre. A primeira, a de que ele acelerasse a transição para a democracia, já que a incapacidade do Estado de ajudar a população ficou evidente. A segunda, de que dificultasse esse processo, sob a desculpa de que era preciso cuidar da reconstrução para depois redemocratizar.

Quatro semanas após a tragédia que matou cerca de 5.400 pessoas, não se sabe para qual lado esse movimento pendeu.

Ainda sob desconfiança da sociedade civil, a última movimentação política ocorreu há cerca de dez dias, quando foi anunciado que a Assembleia Nacional (o Congresso unicameral da Venezuela) dará início, em 1º de agosto, a conversas com a chamada Assembleia Nacional de 2015, um grupo de opositores que foi eleito de forma democrática naquele ano, mas impedido de legislar pelo chavismo.

Hoje quase a totalidade de seus representantes está no exílio, incluindo a presidente do grupo, Dinorah Figuera, que vive na Espanha. Naquele ano, a oposição aglomerada na MUD (Mesa de Unidade Democrática) conquistou 112 das 167 cadeiras da Assembleia.

O então presidente, Nicolás Maduro, chegou a reconhecer a expressiva vitória da oposição. Pouco depois, porém, o Estado chavista impediu a Assembleia de trabalhar. Com a ajuda dos EUA de Donald Trump, esse grupo político agora tem sido chamado ao diálogo.

Dinorah, uma opositora moderada, de até então pouco protagonismo, foi convidada pelos EUA para exercer esse papel. Ela fora acusada pelo chavismo de traição à pátria, num processo formalizado pelo ex-procurador geral Tarek Saab, destituído após a queda de Maduro. Sob a tutela americana, ela pôde voltar a pisar em sua terra natal.

Dias antes dos terremotos, Dinorah se reuniu em Caracas com o diplomata americano John Barrett, e também com Jorge Rodríguez, nome forte do chavismo que preside hoje a Assembleia, em um encontro inimaginável até há poucos meses.

É Jorge, no entanto, uma das figuras que mais coloca em xeque o processo de transição para a democracia. Há uma semana, durante uma entrevista na capital, ele foi questionado sobre como está o processo para eleger novos nomes para o Supremo venezuelano e o Conselho Nacional Eleitoral, órgãos basilares para qualquer eleição livre e que hoje estão dominados por chavistas.

A resposta: “Não temos cabeça para nos preocupar com isso, estamos nos preocupando com as pessoas que sobreviveram ao impossível”. Continuou: “Reunir-se entre políticos para decidir isso [as nomeações] é um desrespeito, uma grosseria. Dê tempo para isso. Não conte comigo para esse tipo de reunião.”

Analistas políticos que há décadas vivem no país e acompanham a política venezuelana com lupa concordam que os terremotos de junho fragilizaram ainda mais o regime encabeçado por Delcy Rodríguez, a ex-vice de Maduro. As pesquisas de opinião também sustentam isso.

“O governo foi exposto, despido, ficou claro que presidem um Estado que sabe como se perpetuar no poder, mas não como prover recursos básicos para a população”, afirma David Smilde, chefe do departamento de Sociologia na Universidade de Tulane, em Nova Orleans, e um dos maiores especialistas em Venezuela nos EUA.

Ainda que despeje ações de propaganda na imprensa oficial e nas redes sociais sobre suas ações públicas, o chavismo foi apontado pela população como inerte diante da tragédia. As famílias dizem que há lentidão e pouca ajuda no trabalho de busca dos corpos. Que há confusão e extravio na identificação de cadáveres. Que muitas das obras sociais do regime colapsaram nos tremores porque eram malfeitas.

“Isso gera raiva, indignação, desejo de mudança política, sobretudo em um país como a Venezuela, onde a frustração já existia”, diz Phil Gunson, analista sênior na consultoria Crisis Group que há três décadas vive em Caracas.

“Mas tudo isso não leva a uma mudança política quando não há canais viáveis. Neste país não há eleições livres, ao menos agora. A outra opção seria a ação direta, ir às ruas, mas a população venezuelana, sobretudo a partir de 2024 [depois das eleições fraudadas], tem pouca vontade de voltar a se manifestar porque já viu as consequências [a repressão, que levou à prisão de milhares].”

A figura que nos últimos anos mostrou capacidade de mobilizar a população, a Nobel da Paz María Corina Machado, continua fora da Venezuela e impedida pelos EUA de voltar ao país. A ausência, até aqui, da menção de seu nome nessas negociações embrionárias que começam supostamente em agosto motivou críticas de apoiadores.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi questionado sobre o tema nesta semana e disse: “Cada elemento da sociedade venezuelana precisa estar representado, e obviamente María Corina representa um elemento importante disso.” Dinorah Figuera compartilhou a fala em seu perfil oficial no X.

Segundo Rubio, a Assembleia Nacional de 2015 é o último órgão oficialmente reconhecido pelos EUA como democraticamente eleito. A opinião corrói a relação com María Corina, para quem é necessário reconhecer como último eleito Edmundo González, que ganhou a maioria dos votos nas eleições de 2024 após Corina ser impedida de disputar o pleito. No final, as eleições foram fraudadas pelo chavismo.

“O único ponto de sua política externa que Trump pode dizer que saiu exatamente como antecipou é a Venezuela”, diz David Smilde. “Por isso o presidente não quer mudar nada. Mas Marco Rubio pode ter seus próprios interesses.”

Rubio já foi opositor de Trump no Partido Republicano e é o nome forte da legenda para temas da América Latina. Sua capacidade de se opor a Trump, porém, é duvidosa.

Phil Gunson acrescenta: “Trump teme que María Corina seja uma líder débil. Caso colocada no poder, ela estaria frente a uma burocracia absolutamente dominada pelo chavismo, em um Estado disfuncional, dominado por seus adversários. E sabemos como Trump detesta os débeis, não?”.

Enquanto isso, o regime de Delcy continua no poder, com mudanças mínimas, como a troca de ministros. Em Nova York, atrás das grades, o ditador Nicolás Maduro parece cair no ostracismo. Em Caracas, as menções à sua liberdade são quase nulas. Seu julgamento por narcoterrorismo terá início em junho de 2027.

Esta sexta (24), dia em que se completa um mês da tragédia dos terremotos na Venezuela, é feriado nacional no país: dia do nascimento do libertador Simón Bolívar, que combateu a coroa espanhola para levar à independência venezuelana e de seus vizinhos. Mais uma vez, o país tem sua independência em disputa.