RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – No Brasil pela décima vez, Angela Davis parece não ter consciência de que talvez seja o nome mais esperado desta edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty.

Em uma manhã de entrevistas no Rio de Janeiro, com sessão de fotos e gravações para as redes sociais, a escritora e ativista, que é uma das maiores referências do feminismo, não se deixou abalar, em uma postura de quem busca fazer a diferença usando as plataformas disponíveis -no caso do próximo sábado (25), às 18h, uma plateia com capacidade para 700 pessoas, no Sesc Caborê.

Tem a seu lado Gina Dent, acadêmica que é também companheira de vida e de projetos. Juntas, elas escrevem um livro sobre jazz e defendem algo bem mais controverso: o fim do sistema carcerário.

Davis explica por que o trumpismo não é sinônimo do que a maioria está sentindo nos Estados Unidos e nega que a supremacia branca, embora parte da história do país, esteja em ascensão. “Eles apenas saíram do armário.”

Para ela, a tentativa de equiparar antissemitismo à solidariedade palestina deve ser colocada na conta dos conservadores. Já os progressistas ainda não encontraram uma forma de se organizar. Questionada como se sente sendo retratada como um ícone, refuta. “Detesto isso.”

PERGUNTA – A senhora defende a abolição das prisões. Como responde a quem teme que isso minimize o sofrimento das vítimas de crimes violentos?

ANGELA DAVIS – Não acho que a abolição minimize o sofrimento das vítimas. Muitas pessoas se identificam com a justiça transformativa porque ela presta atenção não apenas às necessidades da pessoa que foi vitimizada, mas também atende às formas pelas quais a própria sociedade gera as forças que empurram as pessoas a agir muitas vezes de maneiras tão violentas e que são contraproducentes para um mundo social livre.

P. – Como avalia o papel crescente de reconhecimento facial, inteligência artificial e algoritmos preditivos na segurança pública?

AD – Acho perigoso. A base é o racismo estrutural. O policiamento preditivo é projetado para manter as estruturas sociais e econômicas como estão.

Trabalhei com questões prisionais por muito tempo e pude observar pessoas que nunca tiveram chance de ir à escola, de pensar sobre si mesmas criticamente, de experimentar a alegria da leitura, da escrita, da poesia e da arte. E muitas vezes elas não descobrem isso até estarem na prisão, quando já é tarde demais.

Então, os abolicionistas argumentam que nosso papel é reivindicar uma sociedade que não precise dessas estruturas violentas. O único modo de fazer isso é atendendo às necessidades dos seres humanos, encorajando a imaginação por meio da educação.

P. – E quão longe você acha que estamos desse ideal?

AD – Muito longe. Nem sequer chegamos ao ponto onde podemos imaginar isso. Essa é uma das razões pelas quais a estratégia abolicionista enfatiza tanto a imaginação.

Não faz muito tempo, tive a oportunidade de me encontrar com um grupo de homens, sobretudo negros e latinos, em uma das piores prisões dos EUA, Pelican Bay. Era um grupo de leitura. Homens que vão ficar na prisão pelo resto de suas vidas.

Fiquei impressionada ao vê-los lendo [o intelectual francês] Michel Foucault. Pensei, se ao menos eles tivessem reconhecido antes que esse tipo de experiência era possível, não estariam lá. Foi emocionante e muito, muito triste.

P. – Por que o movimento “Defund the Police” não conseguiu apoio público duradouro?

AD – O movimento fracassou em grande parte por causa de intervenções conservadoras. A trajetória foi interrompida, mas as bases foram lançadas. As formas como comunidades se levantaram contra o ICE em lugares como Minnesota e Chicago são uma indicação de que o nível de resistência ainda é grande, que o governo Trump não destruiu o desejo de se criar uma democracia real, de se posicionar contra o racismo.

P. – Mas a imigração segue sendo um dos pontos políticos fortes de Trump, não?

AD – Sim, mas olhe para o apoio que o governo Trump tem. As estatísticas indicam que mal um terço de toda a população o apoia.

Nosso papel é continuar a encorajar o desenvolvimento dessas abordagens políticas nas bases, e não assumir simplesmente que a eleição de um novo chefe de Estado é uma indicação do que a maioria das pessoas está realmente sentindo.

P. – Uma foto de uma mulher negra cercada por supremacistas brancos rodou o mundo. Quanta influência a supremacia branca ainda tem na política americana hoje?

AD – A supremacia branca faz parte da história dos EUA. Quando os exemplos mais extremos de supremacia branca foram responsáveis pelo ataque ao Congresso em 2021 representavam, não sei, um quarto das pessoas nos EUA. Dizer que o presidente representa a grande maioria das pessoas no país é falso.

P. – Mas o que o retorno de Trump diz sobre os EUA hoje?

AD – A razão pela qual ele voltou foi porque muitas pessoas deixaram de votar. Se esquecermos isso, assumimos que esse tipo de conservadorismo e a supremacia branca estão em ascensão. E não acho que estejam. Eu acho que eles apenas saíram do armário. Talvez eu não devesse usar essa metáfora [risos].

P. – A senhora diz que a causa palestina faz parte de uma luta global. Como se solidarizar com ela sem minimizar a violência contra civis ou abrir espaço para o antissemitismo?

AD – Há muitas pessoas que estão envolvidas na luta palestina há décadas, inclusive eu, que também se posicionam contra o antissemitismo. A tentativa de equiparar o antissemitismo com a solidariedade palestina é uma tática que tem sido usada pelos conservadores.

Nos EUA, pesquisas indicam que a maioria se inclina mais para a solidariedade palestina do que para o Estado de Israel. É a primeira vez que vemos essa expressão, e é lamentável ter sido necessária a destruição genocida de Gaza para que essa nova sensibilidade política emergisse.

P. – A Suprema Corte restringiu ações afirmativas e revogou proteções ao aborto. Essas decisões refletem um país dividido?

AD – A maioria das pessoas nos EUA acredita no direito ao aborto. A Suprema Corte não, mas é uma Suprema Corte escolhida por Trump.

Nenhuma grande virada política jamais veio de um presidente. Quando se olha para o direito ao aborto, para as vitórias sobre o racismo, isso não aconteceu porque um presidente decidiu declarar o racismo ilegal, mas porque pessoas marcharam nas ruas e se organizaram. Continuo convencida de que é assim que o futuro do país vai se moldar.

P. – Qual a maior fraqueza do movimento progressista atual?

AD – Não estamos organizados da forma que deveríamos. As possibilidades estão aí, mas não encontramos as formas organizacionais que nos permitirão dar expressão a esses sentimentos políticos.

P. – Partidos conservadores ganham apoio entre trabalhadores, jovens e grupos socialmente minorizados em diversos países. A esquerda perdeu a capacidade de se conectar?

AD – Estamos buscando novas formações. Acho triste que não as tenhamos encontrado ainda porque poderíamos ter aproveitado o momento histórico para romper e avançar na transformação estrutural. Mas acho que tem muito a ver com a ascensão dos bilionários e o fato de que a riqueza está concentrada de uma forma que nunca experimentamos na história da humanidade.

P. – Termos como “racismo estrutural” e “branquitude” soam desconectados da vida cotidiana para muita gente. Os movimentos sociais precisam de uma nova linguagem?

AD – Em alguns casos, sim. Mas racismo estrutural é um conceito muito importante. Foi uma tomada de consciência: muita gente finalmente entendeu a diferença entre o racismo estrutural e o fato de pessoas brancas se envolverem em comportamento discriminatório em nível individual. Foi um momento histórico que poderia ter significado uma reviravolta, mas não tivemos a capacidade de aproveitar a oportunidade.

P. – Após a derrota de Jair Bolsonaro, a senhora chamou o Brasil de um ‘farol de esperança’. Isso ainda vale?

AD – Acho que sim. A primeira vez que vim ao Brasil [em 1997], as pessoas ficaram empolgadas quando fui entrevistada por uma mulher negra na televisão. E foi só porque havia duas mulheres negras na TV. Fico pensando naquele momento e como é empolgante fazer parte dessas mudanças.

P. – A senhora é vista como um ícone. Existe o risco de a “iconização” tornar suas ideias menos perturbadoras e mais fáceis de serem abraçadas pelo mercado?

AD – Sim, com certeza. E isso não é algo que quis ou acolho, mas tento aproveitar a possibilidade de alcançar um número maior de pessoas com mensagens que vêm não tanto de mim, mas dos movimentos.

Não me vejo como um ícone, mas como alguém que está tentando fazer a diferença ao usar as plataformas que se tornam disponíveis para nós. E isso pode significar que eu tenho que ter um cuidado especial para não deixar de fora de uma conversa uma crítica ao capitalismo. Se deixo, isso se torna significativo dentro do contexto dessa ‘iconização’. Detesto isso.

P. – O que está lendo atualmente?

AD – Como estava esperançosa de conhecer Wole Soyinka [Nobel de Literatura nigeriano que teve sua ida à Flip cancelada], tenho lido “Season of Anomy”. Aqui no Brasil, estou ansiosa para ler “Solitária” [romance de Eliana Alves Cruz]. Vou lê-lo em inglês e depois, já que estou tentando estudar português, em português.

P. – E música?

AD – Tenho trabalhado em um projeto nos últimos anos com Gina [sua companheira] e Terri Lyne Carrington, uma das bateristas de jazz mais importantes hoje.

Estamos escrevendo um livro sobre Geri Allen (1957-2017), pianista de jazz. Ela morreu prematuramente. Foi muito influente, embora não reconhecida. Entrevistamos uns 60 músicos de jazz. Muitos dos novos pianistas relativamente jovens no jazz foram influenciados por ela. E as pessoas os conhecem. Mas não ela. Estamos tentando corrigir esse registro histórico.