SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Após falhas que geraram um caos no transporte público da cidade de São Paulo, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) decidiu retomar o controle das linhas 11-coral, 12-safira e 13-jade. Caso o plano seja aprovado, elas vão ser operadas de maneira conjunta pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, que é estatal) e pela concessionária Trivia Trens.
As três linhas enfrentaram problemas nesta quinta (23), o que fez a Artesp (a agência reguladora de transporte do estado) propor a medida de operação conjunta até que as causas das falhas sejam esclarecidas.
Para entrar em vigor, o plano ainda precisa ser ratificado pelo conselho diretor da Artesp, o que deve acontecer na tarde desta quinta. A reunião vai decidir os detalhes de como funcionará a operação.
A concessionária Trivia Trens assumiu o controle das três linhas na terça (21), sob supervisão da CPTM.
O leilão que definiu a concessão ocorreu em março de 2025 e foi vencido pelo grupo Comporte Participações, criado por Nenê Constantino, da família fundadora da companhia aérea Gol.
A Trivia é a holding do grupo empresarial voltada ao setor de transporte, principalmente rodoviário. Os investimentos previstos nas linhas 11, 12 e 13 são de R$ 14,3 bilhões. A concessão prevê a construção de estações e extensões das linhas. A Trívia também ficará responsável pela manutenção das 92 composições outros 15 trens serão incorporados à frota de forma gradual.
Em maio, a Trivia Trens disse ter contratado 62% do valor de investimentos para a concessão. Isso representa R$ 8,8 bilhões do total de R$ 14,3 bilhões previstos para o período de 25 anos da concessão.
A concessão de linhas da CPTM à iniciativa privada foi uma das principais promessas de campanha de Tarcísio de Freitas, em 2022, que agora tenta a reeleição. Atualmente, apenas a linha 10-turquesa permanece sob operação da CPTM.
“O que nós vimos nos últimos dois dias, especialmente hoje, é inaceitável. Como fiscalizadores e reguladores do contrato, estamos agindo de modo imediato. A ideia é a volta da CPTM pra operação porque o que nós vimos realmente é muito ruim, muito penoso para o cidadão”, afirmou André Isper, diretor-presidente da Artesp, em nota.
“Vamos trabalhar para assegurar um serviço de excelência ao cidadão, sem permitir que um serviço ruim prejudique quem depende do transporte todos os dias.”
FALHA PARALISA LINHAS NA CIDADE
A falha no fornecimento de energia elétrica paralisou as linhas 11-coral, 12-safira e 13-jade, todas administradas pela Trivia Trens, na manhã desta quinta, em São Paulo.
A falha em um trem por volta das 5h40 provocou uma “ocorrência elétrica entre as estações Tatuapé e Brás”, segundo a empresa. A circulação foi interrompida e os passageiros precisaram andar pelos trilhos até chegar às estações.
No início da madrugada, os usuários precisaram acender as lanternas dos celulares para iluminar o trajeto. Muitos precisaram pular muros que cercam as linhas e seguir andando por avenidas.
O rodízio de veículos foi suspenso na cidade pela Prefeitura de São Paulo. Inicialmente, a gestão Ricardo Nunes suspensou o rodízio apenas na zona leste, mas depois estendeu para toda a capital.
A Trivia não divulgou as causas da falha. O Corpo de Bombeiros afirmou que às 5h38 houve incêndio em uma composição na altura do número 1.408 da rua Bresser, no Brás. Imagens publicadas nas redes sociais mostram que usuários precisaram abrir as portas do trem para escapar das chamas.
A paralisação das linhas afetou principalmente a população da zona leste, região mais populosa de São Paulo.
A auxiliar de limpeza Gislaine Pereira, 34, por pouco não perdeu uma entrevista de emprego na avenida Paulista, região central.
“Cheguei uma hora e meia atrasada. Só não perdi a entrevista porque o pessoal da empresa viu na televisão o que aconteceu e entendeu a situação”, diz.
Moradora de Guaianazes, ela ficou parada dentro de um trem na linha 11 entre Itaquera e Tatuapé, enquanto outros passageiros caminhavam pela via.
“Depois de muito tempo o trem conseguiu chegar no Tatuapé e eu peguei o metrô. Mas foi terrível, um caos”, diz ela, na estação Itaquera, enquanto esperava o trem para voltar para casa depois da entrevista de emprego.
Já o vigilante Silvério Vicente da Silva, 61, saiu às 5h de casa, em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, mas só conseguiu chegar à estação Itaquera por volta das 11h. “Perdi a manhã toda pra chegar até aqui”, diz. “Não tinha trem na linha 12. Precisei pegar um ônibus até Poá, e lá outro ônibus até Itaquera”, conta
A Trivia Trens diz lamentar “os transtornos causados aos passageiros e reforça que está mobilizando todos os recursos necessários para o restabelecimento da operação. A concessionária orienta os passageiros a acompanharem as atualizações sobre a circulação pelos canais oficiais”.
Procurada pela Folha de S.Paulo, a empresa não manifestou sobre o plano do governo de retomar a operação por 90 dias.
A concessionária afirma que o processo de normalização começou às 9h50.
Em entrevista à TV Globo, Paulo Ferreira, diretor da Trivia Trens, afirmou que a falha será investigada.
“Todo esse evento vai ser investigado no detalhe para saber o que funcionou e o que não funcionou. O que não funcionou nós vamos ajustar daqui para a frente”, disse.



