BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) – Pela terceira vez na história da Medalha Fields, existente desde 1936 e usualmente tido como o Nobel da matemática, uma mulher foi premiada. Trata-se da chinesa Hong Wang, 35. Completam a lista dos vencedores deste ano um matemático chinês, um americano e um canadense.

O anúncio dos nomes dos ganhadores da láurea, entregue a cada quatro anos, ocorreu nesta quinta-feira (23) no Congresso Internacional de Matemáticos, na Filadélfia, nos Estados Unidos.

A láurea restringe-se a matemáticos com menos de 40 anos —o aniversário para essa idade não pode ser anterior a 1º de janeiro do ano do congresso de premiação— com realizações excepcionais na área e com promessa de conquistas futuras.

Ao todo, desde 1936, foram premiadas 68 pessoas, sendo a maioria (65) homens. Considerando o local de nascimento, os EUA lideram a lista de agraciados, com 13 matemáticos. Em segundo lugar, aparecem França e Rússia, cada um com nove laureados. Depois, vêm Alemanha com quatro, China com três e Japão também com três.

Além de Wang, foram agraciados o também chinês Yu Deng, 37, o americano John Pardon, 37, e o canadense Jacob Tsimerman, 38 —este último tem nacionalidade canadense, mas nasceu em território russo.

O prêmio consiste em uma medalha de ouro com a efígie de Arquimedes e vem acompanhado de uma quantia de 15 mil dólares canadenses (R$ 54 mil). Concedido pela União Matemática Internacional, ele é financiado por um fundo estabelecido pelo canadense John Charles Fields (1863-1932), matemático fundador da Medalha Fields.

Wang foi premiada por seu trabalho em análise harmônica e teoria da medida geométrica. Ela leciona na Universidade de Nova York (NYU, na sigla em inglês), nos EUA, e no IHES (instituto de estudos científicos avançados), na França.

O prêmio para ela já era algo esperado, segundo Jorge Vitorio, diretor-adjunto do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), que está acompanhando o congresso.

Vitorio apontou que Wang provou —com o matemático Joshua Zahl— a conjectura de Kakeya, problema com mais de cem anos. Segundo o diretor-adjunto do Impa, o trabalho tem implicações importantes na análise de Fourier e potencial de impactar outras ciências.

As vencedoras anteriores da Medalha Fields foram a ucraniana Maryna Viazovska, em 2022, e a iraniana Maryam Mirzakhani, em 2014 —que morreu em 2017, aos 40 anos.

Deng, que é professor na Universidade de Chicago (EUA), foi reconhecido por sua atuação em equações diferenciais parciais. Era também outro nome apontado para levar a Medalha Fields.

O diretor-adjunto do Impa disse que Deng fez uma importante contribuição para o sexto problema de Hilbert. Em 1900, no Congresso Internacional de Matemática, em Paris, o matemático David Hilbert (1862–1943) propôs 23 problemas matemáticos, alguns dos quais permanecem sem solução.

Pardon leciona nos Estados Unidos, na Universidade Stony Brook, e é era mais um nome ao qual já se associava uma possível Medalha Fields. Sua láurea foi entregue pelo trabalho desenvolvido em geometria simplética e por contribuições a outras áreas da geometria e topologia.

Dos quatro laureados neste ano, o único que não atua no território americano é Tsimerman. Ele leciona na Universidade de Toronto, no Canadá. A Medalha Fields foi fruto de sua contribuição na reformulação da o-minimalidade como um método fundamental da geometria algébrica aritmética e complexa.

Vitorio afirmou ter assistido a uma apresentação de Tsimerman em 2018. “Eu saí da palestra falando: ‘acabei de ver a palestra de um futuro Medalha Fields'”, diz o diretor-adjunto do Impa. “Eu não estava sozinho em 2018. Ele estava muito cotado já para a edição anterior [do prêmio].”

A Medalha Fields também já foi entregue a um brasileiro. Nascido no Rio de Janeiro, Artur Avila ganhou o prêmio em 2014, tornando-se o primeiro latino-americano a receber esse reconhecimento.

Hoje, ele leciona na Universidade de Zurique, na Suíça, e é pesquisador extraordinário no Impa.