SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar fechou em alta de 0,62%, a R$ 5,084, nesta quinta-feira (23), com os investidores acompanhando os desdobramentos da escalada do conflito entre EUA e Irã no Oriente Médio.

A Bolsa encerrou o dia em queda de 0,46%, aos 176.723 pontos. Ao longo do pregão, o mercado acionário brasileiro foi pressionado pelas ações do setor bancário, que recuaram em meio ao aumento da aversão ao risco.

Na direção oposta, as petrolíferas brasileiras avançaram, acompanhando a alta do petróleo.

O agravamento do conflito aumenta a cautela dos investidores e diminui a busca por ativos de mercados emergentes. A guerra também sustenta os preços do petróleo em patamares elevados.

Nesta quinta, o barril do Brent, referência mundial do petróleo, voltou a avançar com mais intensidade. Na máxima do dia, chegou a US$ 101,99 —alta de 8,41%. É o maior valor desde 20 de maio, quando a cotação alcançou US$ 102,24.

A alta dos preços refletiu uma nova rodada de ações militares dos Estados Unidos contra o Irã na noite de quarta-feira. Donald Trump disse estar “considerando um ataque maciço, maior do que nunca” contra a teocracia.

Os houthis, grupo militante do Iêmen aliado do Irã, também atacaram embarcações que tentavam chegar à Arábia Saudita pelo Mar Vermelho. A rota se tornou estratégica para o escoamento do petróleo após o início do conflito no Golfo Pérsico.

“[Os preços do petróleo] voltam a se aproximar de níveis que podem pressionar a inflação. Isso preocupa principalmente do ponto de vista do crescimento econômico e leva os investidores a adotar posições mais cautelosas”, afirmou Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da StoneX.

A alta do petróleo impulsionou as ações das petroleiras brasileiras. Os papéis preferenciais e ordinários da Petrobras subiram 0,86% e 1,67%, respectivamente.

“O principal movimento é uma forte entrada de fluxo em ações ligadas a commodities. Com o petróleo alcançando os US$ 100 por barril, as petrolíferas avançam, principalmente Petrobras e Prio, que têm peso relevante no índice”, afirma Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.

O bloco de bancos, contudo, pressionou o índice. O BTG liderou as perdas do setor, com recuo de 1,26%.

A valorização do petróleo reforça os temores de aceleração da inflação. Com dificuldades para o escoamento da commodity, os preços dos derivados refinados —como gasolina, diesel e querosene de aviação— tendem a subir.

Por enquanto, o governo brasileiro tem subsidiado os combustíveis para evitar que o repasse chegue aos consumidores.

O cenário repercutiu também no mercado de juros futuros. A taxa do DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 subiu para 14,370%, alta de 15 pontos-base em relação ao ajuste de 14,218% da sessão anterior.

As taxas dos DIs refletem a expectativa do mercado para a trajetória futura da Selic e do CDI, referência para a remuneração de investimentos.

A maior aversão ao risco fortalece o dólar tanto no Brasil quanto no exterior. Por volta das 17h, o índice DXY, que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas fortes, avançava 0,30%, aos 101,42 pontos.

O dólar é a principal moeda de reserva global. Já os Treasuries, títulos da dívida pública americana, são considerados um dos ativos mais seguros do mundo, o que costuma atrair investidores em momentos de maior incerteza.

Desde o início do conflito, em fevereiro, o DXY tem valorização de 3,88%.

As medidas comerciais dos Estados Unidos também estiveram no radar do mercado. Nesta quarta-feira (22), começou a cobrança de uma tarifa de 25% sobre um conjunto de produtos brasileiros, em decisão que atinge cerca de 3.000 itens. A medida é resultado de uma investigação sobre práticas comerciais consideradas injustas.

O governo americano também deve anunciar, nesta quinta-feira, novas alíquotas para substituir a tarifa global de 10%, informou a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt.

“A expectativa não provocou um movimento identificável nos ativos. Isso pode mudar quando o anúncio for oficializado e os detalhes ficarem claros, como a possibilidade de a nova cobrança ser cumulativa com os 25% já em vigor”, afirmou Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.

No exterior, os resultados do segundo trimestre da Alphabet e da Tesla pressionaram os mercados de ações.

Os lucros da empresa de Elon Musk caíram 17% em relação ao mesmo período do ano anterior, para US$ 1,2 bilhão (R$ 6 bilhões) nos três meses encerrados em junho, bem abaixo da expectativa de Wall Street, de US$ 1,9 bilhão (R$ 9,9 bilhões).

A Alphabet, por sua vez, queimou caixa no segundo trimestre pela primeira vez em décadas. A empresa informou que o fluxo de caixa livre ficou negativo em US$ 5,9 bilhões (R$ 29,8 bilhões), após ampliar pela segunda vez neste ano seus investimentos em data centers e outros equipamentos voltados para inteligência artificial.

Nos EUA, a Nasdaq caiu 2,15%, o S&P 500 recuou 1,41% e o Dow Jones perdeu 0,97%.