SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O preço do petróleo voltou a disparar mais de 8% nesta quinta-feira (23) e ultrapassar a casa dos US$ 100 após quase dois meses, com o acirramento do conflito entre EUA e Irã, e a entrada dos houthis, grupo do Iêmen aliado dos iranianos, no conflito que aumentou o estrangulamento no escoamento da produção de petróleo no Oriente Médio.

O barril Brent, referência mundial, atingiu US$ 101,99 por volta das 15h (horário de Brasília), alta de 8,42%, maior valor desde 22 de maio, quando a cotação alcançou US$ 102,77. A última vez que o preço do petróleo esteve em três dígitos foi em 26 de maio.

Por volta das 17h, a alta havia perdido força, e o Brent subia 6,45%, a US$ 100,15. O petróleo WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, segue a mesma tendência. A commodity, que chegou a subir mais de 7% no dia, subia 5,75%, cotada a US$ 91,82 no mesmo horário.

A disparada é resultado dos ataques de houthis, grupo militante do Iêmen aliado do Irã, a embarcações que tentavam chegar à Arábia Saudita através do Mar Vermelho. Nesta quinta, mais dois navios foram atacados na rota que vinha sendo usada como alternativa ao estreito de Hormuz, que continua bloqueado para tráfego marítimo.

Autoridades de transporte sauditas confirmaram o ataque a um dos navios. A outra ofensiva foi reinvidicada pelos houthis em comunicado enviado à emissora de televisão Al-Masirah, mas não houve confirmação saudita.

As embarcações estariam trafegando pelo Mar Vermelho para usar o estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao golfo de Aden e ao Oceano Índico. Essa é a principal rota usada como alternativa a Hormuz para escoamento dos produtos da Arábia Saudita para outros destinos da Ásia. Os houthis já haviam ameaçado no começo da semana que iriam atacar quem cruzasse o Mar Vermelho.

Os ataques dos houthis foram condenados pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que responsabilizou o Irã pela escalada. “Infelizmente, agora eles estão recomeçando, tendo disparado contra dois navios da Arábia Saudita ontem à noite. Que esta verdade sirva para deixar claro que, se eles fizerem isso novamente, os EUA responsabilizarão o Irã, já que os houthis são um substituto e/ou representante do Irã, e uma punição militar severa será infligida ao Irã e, é claro, aos próprios houthis”, afirmou em post na sua rede social Truth Social.

O chefe de políticas exteriores da União Europeia, Kaja Kallas, solicitou que houthis encerrem os ataques aos navios que classificou como “inaceitáveis”. “A navegação precisa ser liberada no estreito de Hormuz e no Mar Vermelho”, afirmou.

O IMPACTO DA PARALISAÇÃO NO MAR VERMELHO

Os sauditas têm utilizado um oleoduto leste-oeste até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, de onde exporta cerca de 4,9 milhões de barris de petróleo bruto e combustíveis refinados por dia, segundo dados da empresa de dados energéticos Kpler.

Vários navios-tanque que transportavam petróleo bruto saudita pelo Mar Vermelho deram meia-volta esta semana, após as ameaças dos houthis. A situação agrava o escoamento da produção de petróleo, que já sofre com a paralisação no estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e gás, e que voltou a ser bloqueado pelo Irã há duas semanas, quando foram retomados os ataques entre EUA e Irã.

Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX, avaliou que a situação aumentou a preocupação com o envio do petróleo produzido no Oriente Médio a outros países. “Cresce a expectativa de atrasos cada vez maiores nas entregas, principalmente para a Ásia, região mais afetada por essa restrição de oferta. China e Índia, os dois maiores consumidores de petróleo do continente, tendem a ser os países mais impactados”, disse.

“O mercado permanece bastante atento ao risco de uma restrição ainda maior na oferta de petróleo do Oriente Médio. A expectativa é que isso provoque uma disrupção mais significativa no abastecimento global, reduzindo o volume disponível para processamento nas refinarias”, complementou Cordeiro.

Apesar do temor, analistas projetam que o preço do Brent deve cair para cerca de US$ 86 em dezembro. “Acho que há uma suposição de que um ou ambos os lados realmente não querem que isso se torne hiperbólico, se puderem evitar”, comentou Stuart Kaiser, chefe de estratégia de negociação de ações do Citi.

Por enquanto, o fato de os preços do petróleo de prazo mais longo permanecerem mais moderados ajudou os investidores em ações a permanecerem tranquilos também. “No final das contas, a única coisa que realmente importará para os investidores é como os resultados dos lucros se desenrolarão”, apontou JJ Kinahan, chefe de expansão de varejo e produtos de investimento alternativo da Cboe Global Markets.

Simultaneamente, os bombardeios entre EUA e Irã continuaram nesta quinta, com os norte-americanos efetuando uma série de ataques ao território iraniano, enquanto o regime do Irã disse ter atacado bases militares e instalações dos EUA na Jordânia e no Kuwait.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou em um encontro diplomático no Sudeste Asiático que o preço que o Irã paga “ficará mais alto a cada noite” até que Teerã esteja pronta para um acordo de paz que realmente cumpra.

“O Irã está implorando (por um acordo) todos os dias. O problema com o Irã é que, toda vez que eles fazem um acordo… ou o quebram ou querem alterá-lo”, afirmou. “Então, agora eles estão pagando o preço por isso. E talvez mudem de ideia nos próximos dias, à medida que continuam sofrendo grandes perdas”.

O porta-voz militar iraniano, o brigadeiro-general Mohammad Akraminia, disse que o Irã continuará retaliando enquanto os EUA continuarem a atacar sua infraestrutura e áreas costeiras, informou a TV estatal iraniana.